Por Aluísio Azevedo (1884)
Casa de Pensão, de Aluísio Azevedo, retrata a história de Amâncio, um jovem que se muda para o Rio de Janeiro para estudar e acaba se envolvendo em conflitos amorosos e sociais dentro de uma pensão. A obra expõe as tensões morais e os interesses da sociedade da época, revelando, com olhar crítico, as hipocrisias e pressões que moldam o destino dos personagens.
CAPÍTULO I
Desconfia de todo aquele que se arreceia da verdade.
Seriam onze horas da manhã.
O Campos, segundo o costume, acabava de descer do almoço e, a pena atrás da orelha, o lenço por dentro do colarinho, dispunha-se a prosseguir no trabalho interrompido pouco antes. Entrou no seu escritório e foi sentar-se à secretária.
Defronte dele, com uma gravidade oficial, empilhavam-se grandes livros de escrituração mercantil. Ao lado, uma prensa de copiar, um copo d’água, sujo de pó, e um pincel chato; mais adiante, sobre um mocho de madeira preta, muito alto, viase o Diário deitado de costas e aberto de par em par.
Tratava-se de fazer a correspondência para o Norte. Mal, porém, dava começo a uma nova carta, lançando cuidadosamente no papel a sua bonita letra, desenhada e grande, quando foi interrompido por um rapaz, que da porta do escritório lhe perguntou se podia falar com o Sr. Luís Batista de Campos.
— Tenha a bondade de entrar, disse este.
O rapaz aproximou-se das grades de cedro polido, que o separavam do comerciante.
Era de vinte anos, tipo do Norte, franzino, amornado, pescoço estreito, cabelos crespos e olhos vivos e penetrantes, se bem que alterados por um leve estrabismo.
Vestia casimira clara, tinha um alfinete de esmeralda na camisa, um brilhante na mão esquerda e um grossa cadeia de ouro sobre o ventre. Ao pés, coagidos em apertados sapatinhos de verniz, desapareciam-lhe casquilhamente nas amplas bainhas da calça.
— Que deseja o senhor, perguntou o Campos, metendo de novo a pena atrás da orelha e pousando um pedaço de papel mata-borrão sobre o trabalho.
O moço avançou dois passos, com ar muito acanhado; o chapéu. de pêlo seguro por ambas as mãos; a bengala debaixo do braço.
— Desejo entregar esta carta, disse, cada vez mais atrapalhado com o seu chapéu e a sua bengala, sem conseguir tirar da algibeira um grosso maço de papéis que levava.
Não havia onde pôr o maldito chapéu, e a bengala tinha-lhe já caído no chão, quando o Campos foi em seu socorro.
— Cheguei hoje do Maranhão, acrescentou o provinciano, sacando as cartas finalmente.
As últimas palavras do moço pareciam interessar deveras o negociante, porque este, logo que as ouviu, passou a considerá-lo da cabeça aos pés, e exclamou depois:
— Ora espere...O senhor é o Amâncio!
O outro sorriu, e, entregando-lhe a carta, pediu-lhe com um gesto que a lesse. Não foi preciso romper o sobrescrito, porque vinha aberta.
— É de meu pai...disse Amâncio.
— Ah! é do velho Vasconcelos?...Como vai ele?
— Assim, assim...O que o atrapalha mais é o reumatismo. Agora está em uso da Salça-e-caroba, do Holanda.
— Coitado! lamentou o Campos com um suspiro. — Ele sofre há tanto tempo!...
E passou a ler a carta, depois de dar uma cadeira a Amâncio, que já estava para dentro das grades.
— Pois , sim, senhor! disse ao terminar a leitura . — Está o meu amigo na Corte, e homem! Como corre o tempo!...
Amâncio tornou a sorrir.
— Parece que ainda foi outro dia que o vi, deste tamanho, a brincar no armazém do seu pai.
E mostrou com a mão aberta o tamanho de Amâncio naquela época.
— Foi há seis anos, observou o moço, limpando o suor que lhe corria abundantemente pelo rosto.
Fez-se uma pequena pausa e em seguida o Campos falou do muito que devia ao falecido irmão e sócio do velho Vasconcelos; citou os obséquios que lhe merecera; disse que encontrara nele “um segundo pai “e terminou perguntando quais eram as intenções de Amâncio na Corte. — Se vinha estudar ou empregar-se.
— Estudar! acudiu o provinciano.
Queria ver se era possível matricular-se esse ano na Escola de Medicina .Não negava que se havia demorado um pouquito nos preparatórios...mas seria dele a culpa?... Só com umas sezões que apanhara na fazenda da avó, perdera três anos.
Campos escutava-o com atenção. Depois lhe perguntou, se já havia almoçado.
Amâncio disse que sim, por cerimônia.
— Venha então jantar conosco; precisamos conversar mais à vontade .Quero apresentá-lo à minha gente.
O rapaz concordou, mas ainda tinha que entregar várias cartas e varias encomendas que trouxera. O Campos talvez conhecesse os destinatários. Mostrou-lhe as cartas; eram quase todas de recomendação.
— O melhor é tomar um carro, aconselhou o negociante. — Olhe, vou dar-lhe um moço, aí de casa, para o guiar.
E, pelo acústico , que havia a um canto do escritório, chamou um caixeiro.
Daí a pouco, Amâncio saía, acompanhado por este, prometendo voltar para o jantar.
A casa de Luís Campos era na Rua Direita. Um desses casarões do tempo antigo, quadrados e sem gosto, cujo ar severo e recolhido está a dizer no seu silêncio os rigores do velho comércio português.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio. Casa de pensão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16529 . Acesso em: 10 mar. 2026.