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#Comédias#Literatura Brasileira

O Que é o Casamento?

Por José de Alencar (1861)

O Que é o Casamento? apresenta uma reflexão crítica sobre o matrimônio e as relações afetivas na sociedade do século XIX. A trama expõe conflitos entre amor, interesse e convenções sociais, colocando em debate o papel da mulher, a moral e as aparências. Com tom irônico e questionador, o texto provoca o leitor a repensar o sentido do casamento e os valores que sustentam a vida conjugal.

Comédia em Quatro Atos

1861

Personagens



Augusto Miranda, 36 anos.

Henrique, 21 anos, sobrinho de Miranda.

Sales, 25 anos.

Siqueira, 50 anos, sogro de Miranda.

Alves, 33 anos, negociante.

Joaquim, 45 anos, preto escravo.

Isabel, 23 anos, mulher de Miranda.

Clarinha, 17 anos, prima de Isabel.

Rita, 38 anos, parda escrava.

Iaiá, 3 anos.

A cena é no Rio de Janeiro e Petrópolis, de 1859 a 1860.


ATO PRIMEIRO Em casa de Miranda — Sala de visitas.

CENA PRIMEIRA

Miranda e Alves

(Alves entrega o cartão a Joaquim e espera)

Miranda — Lendo o teu nome, duvidei que estivéssemos em outubro.

Alves — Como passas? Por quê?...

Miranda — Não é só pelo Natal que temos o prazer de ver de ano em ano o teu cartão de visitas?... Quanto à tua pessoa, essa apenas de passagem em alguma reunião.

Alves — Tens razão! Mas acredita que sou o mesmo.

Miranda — Devias dar-me ocasiões de verificá-lo. Dois velhos amigos como nós sentem de tempos a tempos necessidade de conversar.

Alves — Que queres?... A fortuna teve inveja de nos ver tão unidos, e separou-nos.

Estás brilhando na política.

Miranda — E tu enriquecendo no comércio.

Alves — Estás casado.

Miranda — Por que não fazes o mesmo? É tempo.

Alves — Confesso-te que já me sinto gasto para esta vida de celibatário. Às vezes nem sei o que fazer de minha liberdade. Mas quando me lembro do casamento, só a idéia me assusta.

Miranda — Pouco a pouco te irás habituando a ela, e um belo dia, quando menos pensares, estarás casado.

Alves — Duvido. Fazer a felicidade de duas criaturas de gênios, de ocupações, de idades diversas é um problema social que na minha opinião ainda não foi resolvido, e não me sinto com forças de o tentar.

Miranda — São idéias que todos temos quando profanos. O casamento, Alves, é o que foi entre nós há algum tempo a maçonaria, de que se contavam horrores, e que no fundo não passava de uma sociedade inocente, que oferecia boa palestra, boas ceias. Há dois prejuízos muito vulgares: uns supõem que o casamento é a perpetuidade do amor, a troca sem fim de carícias e protestos; e assustam-se com razão diante da perspectiva de uma ternura de todos os dias e de todas as horas.

Alves (rindo) — Na verdade é desanimadora; sobretudo nesta época de vapor e eletricidade.

Miranda — Justo!... O outro prejuízo é daqueles que supõem o casamento uma guerra doméstica, uma luta constante de caracteres antipáticos, de hábitos, e de idéias. Esses, como os outros mas por motivo diferente, tremem pela sua tranqüilidade, Entretanto a realidade está entre os dois extremos. O casamento não é nem a poética transfusão de duas almas em uma só carne, a perpetuidade do amor, o arrulho eterno de dois corações; nem também a guerra doméstica, a luta em família. É a paz, firmada sobre a estima e o respeito mútuo; é o repouso das paixões, e a força que nasce da união.

Alves — Concordo. Mas que dificuldade para conservar essa paz matrimonial... Não é preciso que o homem sacrifique a sua individualidade e se dedique todo à família?

Miranda — Como te iludes! É quando o homem goza da plena tranqüilidade do seu espírito; quando lhe sobra todo o tempo para as ocupações sérias da vida... julgo por mim.

Alves — E o tempo para amar a sua mulher e fazer a sua felicidade?

Miranda — Não me compreendeste então, Alves. O amor conjugal é calmo e sério; vive pela confiança recíproca, e alimenta-se mais de recordações do que de desejos. Um exemplo: nós já não somos os companheiros inseparáveis de estudos e de prazeres que fomos outrora; apenas nos encontramos de longe em longe, e trocamos rapidamente uma palavra, ou um aperto de mão. Entretanto isto basta: nenhum duvida da amizade do outro. Ambos temos a certeza de que possuímos um amigo dedicado; e essa certeza é um gozo superior a qualquer demonstração frívola e banal. Pois bem: perfuma essa amizade com a graça e a ternura inseparável da mulher, e terás a imagem perfeita de um casamento feliz. Vou te fazer uma confidência... (Entra Isabel) É minha mulher... já a conheces..

Alves — Conheço-a; mas ainda não tive o prazer de falar-lhe.



CENA II

Os mesmos e Isabel

Miranda — Bela!... Apresento-te um ingrato, sim, porque nos desdenha. É o Alves, meu mais íntimo amigo, a quem devo tudo... sabes?

Isabel — Ah! foi o senhor que salvou Henrique!

Alves — Apenas ajudei-o a salvar-se.

Miranda — Lançando-te ao mar com risco de tua vida. Chamas a isto ajudar?

(continua...)

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