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#Comédias#Literatura Brasileira

O Demônio Familiar

Por José de Alencar (1857)

O Demônio Familiar é uma comédia teatral de José de Alencar que retrata o cotidiano de uma família burguesa do século XIX. A trama gira em torno de um criado astuto, cujas intrigas e mal-entendidos movimentam a casa e expõem vícios, convenções sociais e relações de poder. Com tom leve e satírico, a obra critica costumes da época ao mesmo tempo em que diverte o público.

PERSONAGENS


CARLOTINHA

HENRIQUETA

EDUARDO

PEDRO

JORGE

ALFREDO

AZEVEDO

D. MARIA

VASCONCELOS


ATO PRIMEIRO

Em casa de EDUARDO. Gabinete de estudo.


CENA PRIMEIRA 

CARLOTINHA, HENRIQUETA


CARLOTINHA - Mano, mano! (Voltando-se para a porta.) Não te disse? Saiu! (Acenando.) Vem, psiu, vem!

HENRIQUETA - Não, ele pode zangar-se quando souber.

CARLOTINHA - Quem vai contar-lhe? Demais, que tem isso? Os homens não dizem que as moças são curiosas?

HENRIQUETA - Mas, Carlotinha, não é bonito uma moça entrar no quarto de um moço solteiro.

CARLOTINHA - Sozinha, sim; mas com a irmã não faz mal.

HENRIQUETA - Sempre faz.

CARLOTINHA - Ora! Estavas morrendo de vontade.

HENRIQUETA - Eu não; tu é que me chamaste.

CARLOTINIIA - Porque me fazias tantas perguntinhas, que logo percebi o que havia aqui dentro.

(No coração.)

HENRIQUETA - Carlotinha!...

CARLOTINHA - Está bom, não te zangues.

HENRIQUETA - Não; mas tens lembranças!

CARLOTINHA - Que parecem esquecimentos, não é? Esquecia-me que não gostas que adivinhem os teus segredos.

HENRIQUETA - Não os tenho.

CARLOTINHA - Anda lá!... Oh! meu Deus! Que desordem! Aquele moleque não arranja o quarto do senhor; depois mano vem e fica maçado.

HENRIQUETA - Vamos nós arranjá-lo?

CARLOTINHA - Está dito; ele nunca teve criadas desta ordem.

HENRIQUETA (a meia voz) - Porque não quis!

CARLOTINHA - Que dizes?... Cá está uma gravata.

HENRIQUETA - Um par de luvas.

CARLOTINHA - As botinas em cima da cadeira.

HENRIQUETA - Os livros no chão.

CARLOTINHA - Ah! Agora pode-se ver!

HENRIQUETA - Não abrimos a janela?

CARLOTINHA - É verdade. (Abre.)

HENRIQUETA - Daqui vê-se a minha casa; olha!

CARLOTINHA - Pois agora é que sabes? Nunca viste mano Eduardo nesta janela?

HENRIQUETA - Não; nunca.

CARLOTINHA - Fala a verdade, Henriqueta!

HENRIQUETA - Já te disse que não: se vi, não me lembra. Há tanto tempo que esta janela não se abre!

CARLOTINHA - Bravo! Depois não digas que são lembranças minhas.

HENRIQUETA - O que? O que disse eu?

CARLOTINHA - Nada; traíste o teu segredo, minha amiguinha. Se tu sabes que esta janela não se abre, é porque todos os dias olhas para ela.

HENRIQUETA - Pois não...

CARLOTINHA - Para que procuras esconder uma coisa que teus olhos estão dizendo? Tu choras!... Por quê? É pelo que eu disse? Perdoa, não falo mais em semelhante coisa.

HENRIQUETA - Sim; eu te peço, Carlotinha. Se soubesses o que eu sofro...

CARLOTINHA - Como! Meu irmão é tão indigno de ti, Henriqueta, que te ofendes com um simples gracejo a seu respeito?

HENRIQUETA - Eu é que não sou digna dele; não mereço, nem mesmo por tua causa, uma palavra de amizade!

CARLOTINHA - Que dizes! Mano Eduardo te trata mal?

HENRIQUETA - Mal, não; mas com indiferença, com uma frieza!... Às vezes nem me olha.

CARLOTINHA - Mas antes, quando nos visitavas mais a miúdo, e passavas dia conosco, ele brincava tanto contigo!

HENRIQUETA - Sim; porém, um dia, tu não reparaste, talvez; eu me lembro... ainda me dói! Um dia vim passar a tarde contigo, e durante todo o tempo que estive aqui ele não me deu uma palavra.

CARLOTINHA - Distração! Não foi de propósito.

HENRIQUETA - Oh! foi! Desde então essa janela nunca mais se abriu. Agora posso dizer-te tudo... Eu o via do meu quarto a todas as horas do dia; de manhã, apenas acordava, já ele estava; antes de jantar, quando ele chegava, eu o esperava; e à tarde, ao escurecer.

CARLOTINHA - E nunca me disseste nada!

HENRIQUETA - Tinha vergonha. Hoje mesmo se não adivinhasses, se eu não me traísse.

CARLOTINHA - Deixa estar que hei de perguntar-lhe a razão disto.

HENRIQUETA - Eu te suplico! Não lhe digas nada. Para quê? Sofri dois meses, sofri como tu não fazes idéia. Uns versos sobretudo que ele me mandou fizeram-me chorar uma noite inteira.

CARLOTINHA - Mas por isso mesmo! Não quero que ele te faça chorar. Hei de obrigá-lo a ser para ti o mesmo que era.

HENRIQUETA - Agora... É impossível!

CARLOTINHA - Por quê?

HENRIQUETA - Não tenho coragem de dizer; e, entretanto, vim hoje só para dar-te parte e para... despedir-me desta casa.

CARLOTINHA - Vais fazer alguma viagem?

HENRIQUETA - Não, mas vou... (Ouve-se subir a escada.)

CARLOTINHA - É ele! É mano!

HENRIQUETA - Ah! Meu Deus!

CARLOTINHA - Depressa! Corre!...


CENA II

EDUARDO, CARLOTINHA




(continua...)

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