Por Coelho Neto (1898)
Em A descoberta da Índia, Coelho Neto constrói uma narrativa que dialoga com o imaginário das grandes navegações, explorando a ideia de descoberta sob um olhar simbólico e crítico. O texto vai além do fato histórico, refletindo sobre ambição, ilusões e percepções humanas. Com estilo envolvente, o autor convida o leitor a repensar o sentido de “descobrir” e suas consequências.
A PARTIDA
Em nome de Deus, Amem. Na era de mil CCCCLXLVII mandou ell Rey Dom Manuell, o primeiro deste nome em Portugall, a descobrir, quatro navios os quaees hiam em busca da especiaria, dos quaees navios hia por capitam moor Vasco da Gama, e dos outros d'uum d'elles Paullo da Gama seu irmãoo, e d'outro Nicolláo Coelho.
Partimos de Restello huum sabado, que heram oyto dias do mês de Julho da dita era de 1497, noso caminho, que Deus noso senhor leixe acabar em seu serviço, Amem. ( Roteiro da viagem de Vasco da Gama em MCCCCXCVII.)
LXXXVIII
A gente da cidade aquelle dia (Uns por amigos, outros por parentes, Outros por ver sómente), concorria, Saudosos na vista e descontentes:
E nós co'a virtuosa companhia De mil Religiosos diligentes Em procissão solemne a Deos orando Pera os bateis viemos caminhando.
LXXXIX
Em tão longo caminho e duvidoso,
Por perdidos as gentes nos julgavam;
As mulheres c'um choro piadoso, Os homens com suspiros, que arrancavam:
Mães, esposas, irmãs que o temeroso
Amor mais desconfia, acrecentavam
A desesperação e frio medo
De já nos não tornar a ver tão cedo.
( CAMÕES — Os Lusiadas; canto IV.)
No anno de 1497, de tanta fortuna e gloria para o Reino, indo Julho em começo, depois de prospera colheita, um grande acontecimento poz a cidade alerta, chamando ás vizinhanças da capella do Restello copiosa multidão.
Querendo El-Rei dilatar os limites do seu Reino e tendo, por aviso divino, conhecimento de que, alem do Cabo, sobre aguas brandas, terras de grandes premios estiravam-se, reunio conselho buscando pareceres sobre se devia apparelhar uma expedição que fosse em demanda d'essa India encantada que era o sonho ambicioso dos navegadores.
Os que tiveram a honra da consulta foram de opiniões differentes — uns hesitaram nas respostas temendo que a Portugal surtissem males da inveja dos outros soberanos com mais essa descoberta, outros, porém, com segurança, foram opinando pela. empreza e o monarcha preferio andar com elles, porque, se d'isso lhe não viessem lucros, gloria, ao menos, adviria a elle e ao Reino.
Para que não arrefecesse a idéa, logo ordenou a Bartholomeu Dias, homem experimentado nas aguas procellosas dos mares novos que fiscalisasse, nos estaleiros, a conclusão das naus que haviam sido começadas em tempo de D. João II e que deviam transpor o passo perigoso indo, com os cruzeiros abertos nas velas, á maneira de missionarios, levar Deus a outras terras de barbarie e mysterio.
E todo o anno de 96 passou-se em trabalhos — as camartelladas resoavam, fiavase o linho forte para as velas, retorciam-se cabos resistentes para enxarcias, fundiam-se ferragens e troncos formidaveis desciam das serras, em lentos carretos, para as officinas, até que, em fins do anno, as naus, já promptas, foram postas em rolos e desceram a abrevar as proas n'agua que deviam fender em tão arriscada singradura.
Poz-se, então, El-Rei em resolução de tomar chefe para a empreza e, inspirado pelo Senhor que, n'esse tempo, trazia a Luzitania em principal cuidado, escolheu a Vasco da Gama, desprezando as inculcas que lhe faziam os aulicos mais chegados ao throno, certo de que n'aquelle empenho devia apenas ter lugar o merito.
O eleito era um simples capitão de mar, sem fortuna e sem gloria, antes modesto e calado, procurando sempre um silencio discreto onde puzesse o seu valor e o seu nome que vinha, sem atroada, d'uma familia de Sines.
Acceitando, sem orgulho, a responsabilidade, poz-se logo em acção o Gama tratando do apercebimento das naus que eram tres e todas patrocinadas sanctamente tendo, cada qual, para guardal-a, um archanjo— uma era S. Gabriel, n'essa poz pé o capitão com o seu piloto Pedro de Alemquer; a outra: S. Raphael, foi dada a Paulo da Gama que levou em sua companhia João de Coimbra; a terceira, finalmente, S. Miguel, (antes Berrio, do nome do armador que a vendera ao Rei) deu embarque a Gonçalo Coelho com o seu pratico Pedro de Escobar.
Além das naus foi ainda uma caravella com mantimentos cujo commando foi dado a Gonçalo Nunes e, por junto, era de cento e setenta homens a tripolação da frota mas, se o numero era escasso, a valentia compensava a conta mesquinha e ainda, porque parte da gente já andára com Bartholomeu Dias suppriria, com o conhecimento d’aquelles mares, os apoucados braços.
(continua...)
COELHO NETO, Henrique. A descoberta da Índia. Rio de Janeiro: Laemmert, 1898. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43340 . Acesso em: 30 abr. 2026.