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#Contos#Literatura Brasileira

Mattos, Malta ou Matta?

Por Aluísio Azevedo (1884)

Mattos, Malta ou Matta? apresenta uma narrativa marcada por situações curiosas e irônicas envolvendo a dúvida sobre um nome: Mattos, Malta ou Matta. A partir dessa confusão, a história desenvolve episódios que revelam vaidades, aparências e pequenas rivalidades sociais. Com tom leve e bem-humorado, o enredo explora as contradições do comportamento humano e os costumes da sociedade da época.

(Romance ao correr da pena)

De um cavalheiro cujo nome ocultamos, não só a seu pedido, como porque seria imprudente e talvez mesmo perigoso revelá-lo, recebemos uma importantíssima carta, a que damos publicidade porque o seu assunto se prende intimamente à gravíssima questão - Castro Malta.

É possível, provável mesmo, que das obsequiosas informações desse cavalheiro resultem novos elementos de convicção que auxiliem o desfecho dessa questão, concorrendo para descobrir esse tenebroso mistério, que tanto se empenha a Policia em ocultar.

Ao nosso amável informante pedimos desculpa de havermos publicado integralmente a sua carta e que nos remeta sem detença quaisquer informações novas, que porventura venha a colher.

Eis a carta:

Sr. Redator dA Semana.

Posto que apenas ligeiros laços de cortesia liguem as nossas relações, tomo a liberdade de dirigir-me a V. Sª. porque entendo ser esse o melhor caminho para chegar aos fins a que desejo chegar.

Trata-se de merecer de V. Sª. um obséquio, cuja realização, que não lhe custará grande sacrifício, trará no entanto para este seu criado vantagens incalculáveis, e mais ainda como que o gozo do cumprimento de um dever.

O meu desejo é que V. Sª. dê na sua esperançosa Folha uma notícia, uma simples notícia, a respeito de certo fato, insignificante na aparência, mas em verdade de um grande alcance social e político. E, para que V. Sª. possa dar tal notícia com toda a segurança, preciso é que eu fale de outros fatos, sobre os quais não daria palavra, se imprevistas circunstâncias não me obrigassem a símilhante coisa.

Em primeiro lugar, Sr. Redator, convém lembrar-lhe que eu sou casado; que, se não tenho filhos é porque morreu o único que me chegou a nascer; e que até hoje tenho desempenhado com toda a retidão e todo o zelo o modesto emprego que conquistei a concurso na Secretaria em que ainda ontem tive o prazer de encontrar V. Sª., pedindo informações a respeito de certa autoridade, envolvida na grande questão que neste momento preocupa a população inteira desta vastíssima cidade - a questão Malta.

Além do que fica dito, é público e notório que não sou homem de escândalos, que não me embriago, nem ando com francesas e que, em todo o princípio do mês, logo ao receber o meu ordenado, pago pontualmente aos meus fornecedores, e guardo o resto do dinheiro para as despesas de bondes e de outras coisas que não admitem crédito.

Vê, pois, V. Sª. que sou homem de bons costumes, que vivo às claras, como se costuma dizer, e que, por conseguinte. se me acho metido numa questão suspeita e de todo o ponto transcendental, é simplesmente porque assim o quiseram outros, sem que eu, doulhe a minha palavra de honra, tenha de modo algum contribuído para isso.

Sr. Redator, disse-lhe já que sou casado, mas ainda não acrescentei que, há coisa de ano a esta parte, sou o mais desgraçado dos maridos. Há um ano que me entrou pela primeira vez no cérebro o demônio da desconfiança a respeito das virtudes de minha mulher, e desde então a esta data não consigo um momento de repouso.

Imagine V. Sª. que eu, uma tarde, por sinal que era sábado, entrando em casa um pouco mais cedo do que de costume, encontrei minha mulher escondida debaixo da escada, entre uma barrica vazia e um colchão que servia às vezes para algum amigo que porventura pernoitasse conosco.

Perguntei-lhe que fazia ali; ela, em vez de responder, abriu a chorar, e escondeu o rosto.

Já bastante intrigado com a brincadeira, puxo-a pelo braço e observo o lugar deixado por ela, a ver se descobria a explicação daquele fato estranho.

A princípio nada encontrei, além da barrica vazia e do colchão; mas empurrando este com o pé, dei com um número da Gazeta de Noticias, para o qual não teria atentado, se minha mulher não soltara um grito, justamente na ocasião em que eu o tomara com avidez.

Eu, porém, sem lhe dar tempo a arrancar-me das mãos a folha, ganho o meu quarto de carreira, fecho-me por dentro, dando duas voltas à fechadura.

Era isso mesmo todavia o que desejava e o que conseguira a espertalhona, porque, segundo fui mais tarde informado, ela, em bem não me viu fugir com a Gazeta, tornou logo ao ponto em que a encontrei e, rebuscando com a mão por detrás da barrica, daí sacou um objeto e com ele fugiu para o porão da casa.

Esse objeto, vim depois a descobrir, era um pequeno cofre de madeira preta com embutidos de metal amarelo, contendo o quê ainda não sei.

Minha mulher, em seguida a esse fato, principiou a não me querer encarar de frente e a evitar comigo a menor troca de palavras. Enterrava-se no quarto das seis às seis, e, se eu a outra qualquer hora tentava chamá-la a mim, escondia a cabeça nos travesseiros e punha-se a soluçar, que era uma coisa por demais.

(continua...)

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