Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Poemas em verso#Literatura Brasileira

O Devanear do Céptico

Por Bernardo Guimarães (1853)

Em “O Devanear do Céptico”, de Bernardo Guimarães, o eu lírico mergulha em reflexões marcadas pela dúvida e pelo conflito entre fé e razão. O poema apresenta os questionamentos de um espírito inquieto, que oscila entre a descrença e o desejo de encontrar sentido para a existência. Com tom introspectivo e filosófico, a obra expressa angústias e incertezas próprias da condição humana.

Tout corps traine son ombre et tout esprit son doute.

Victor Hugo 

Ai da avezinha, que a tormenta um dia

Desgarrara da sombra de seus bosques,

Arrojando-a em desertos desabridos

De brônzeo céu, de férvidas areias;

Adeja, voa, paira.... nem um ramo,

Nem uma sombra encontra onde repouse,

E voa, e voa ainda, até que o alento

De todo lhe falece; — colhe as asas,

Cai na areia de fogo, arqueja, e morre...

Tal é, minh’alma, o fado teu na terra;

O tufão da descrença desvairou-te

Por desertos sem fim, onde em vão buscas

Um abrigo onde pouses, uma fonte

Onde apagues a sede que te abrasa!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Ó mortal, por que assim teus olhos cravas

Na abóbada do céu? — Queres ver nela

Decifrado o mistério inescrutável

Do teu ser, e dos seres que te cercam?

Em vão teu pensamento audaz procura

Arrancar-se das trevas que o circundam,

E no ardido vôo abalançar-se

Às regiões da luz e da verdade;

Baldado afã! — no espaço ei-lo perdido,

Como astro desgarrado de sua órbita,

Errando às tontas na amplidão do vácuo!

Jamais pretendas estender teus vôos

Além do escasso e pálido horizonte

Que mão fatal em torno te há traçado...

Com barreira de ferro o espaço e o tempo

Em acanhado círculo fecharam

Tua pobre razão: — em vão forcejas

Por transpor essa meta inexorável;

Os teus domínios entre a terra e os astros,

Entre o túmulo e o berço estão prescritos:

Além, que enxergas tu? — o vácuo e o nada!...

Oh! feliz quadra aquela, em que eu dormia

Embalado em meu sono descuidoso

No tranquilo regaço da ignorância;

Em que minh’alma, como fonte límpida

Dos ventos resguardada em quieto abrigo,

Da fé os raios puros refletia!

Mas num dia fatal encosto à boca

A taça da ciência; — senti sede

Inextinguível a crestar-me os lábios;

Traguei-a toda inteira, — mas encontro

Por fim travor de fel; — era veneno,

Que no fundo continha, — era a incerteza!

Oh! desde então o espírito da dúvida,

Como abutre sinistro, de contínuo

Me paira sobre o espírito, e lhe entorna

Das turvas asas a funérea sombra!

De eterna maldição era bem digno

Quem primeiro tocou com mão sacrílega

Da ciência na árvore vedada,

E nos legou seus venenosos frutos...

Se o verbo criador pairando um dia

Sobre a face do abismo, a um só aceno

Evocava do nada a natureza,

E do seio do caos surgir fazia

A harmonia, a beleza, a luz, a ordem,

Por que deixou o espírito do homem

Sepulto ainda em tão profundas trevas,

A debater-se neste caos sombrio,

Onde embriões informes tumultuam,

Inda aguardando a voz que à luz os chame?

Quando, espancando as sombras sonolentas,

Surge a aurora no coche radiante,

Inundando de luz o firmamento,

Entre o rumor dos vivos que despertam,

Levanto a minha voz, e ao sol, que surge,

Pergunto: — Onde está Deus? — ante meus olhos

A noite os véus diáfanos desdobra,

Vertendo sobre a terra almo silêncio,

Propício ao cismador; — então minha alma

Desprende o vôo nos etéreos páramos,

Além dos sóis, dos mundos, dos cometas,

Varando afouta a profundez do espaço,

Anelando entrever na imensidade

A eterna fonte, donde a luz emana...

Ó pálidos fanais, trêmulos círios,

Que na esfera guiais da noite o carro,

Planetas, que em cadência harmoniosa

No éter cristalino ides boiando,

Dizei-me — onde está Deus? — sabeis se existe

Um ente, cuja mão eterna e sábia

Vos esparziu pela extensão do vácuo,

Ou do seio do caos desbrochastes

Por insondável lei do cego acaso?

Conheceis esse rei, que rege e guia

No espaço infindo vosso errante curso?

Eia, dizei-me, em que regiões ignotas

Se eleva o trono seu inacessível?

Mas em vão interrogo os céus e os astros,

Em vão do espaço a imensidão percorro

Do pensamento as asas fatigando!

Em vão; — todo o universo imóvel, mudo,

Sorrir parece de meu vão desejo!

Duvida — eis a palavra que eu encontro

Escrita em toda a parte; — ela na terra,

E no livro dos céus vejo gravada,

É ela que a harmonia das esferas

Entoa sem cessar a meus ouvidos!

Vinde, ó sábios, alâmpadas brilhantes,

Que ardestes sobre as aras da ciência,

Agora desdobrai ante meus olhos

Essas páginas, onde meditando

Em profundo cismar cair deixastes

De vosso gênio as vividas centelhas:

Dai-me o fio subtil, que me conduza

Pelo vosso intrincado labirinto:

Rasgai-me a venda, que me enubla os olhos,

Guiai meus passos, que embrenhar-me quero

Do raciocínio nas regiões sombrias,

E surpreender no seio de atras nuvens

O escondido segredo...

Oh! louco intento!...

Em mil vigílias palejou-me a fronte,

E amorteceu-se o lume de meus olhos

A sondar esse abismo tenebroso,

Vasto e profundo, em que as mil hipóteses,

Os erros mil, os engenhosos sonhos,

Os confusos sistemas se debatem,

Se confundem, se roçam, se abalroam,

Em um caos sem fim turbilhonando:

Atento a lhe escrutar o seio lôbrego

Em vão cansei-me; nesse afã penoso

Uma negra vertigem pouco e pouco

Me enubla a mente, e a deixa desvairada

No escuro abismo flutuando incerta!

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Filosofia, dom mesquinho e frágil,

Farol enganador de escasso lume,

Tu só geras um pálido crepúsculo,

Onde giram fantasmas nebulosos,

Dúbias visões, que o espírito desvairam

Num caos de intermináveis conjeturas.

Despedaça essas páginas inúteis,

(continua...)

12
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →