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#Baladas#Literatura Brasileira

A Orgia dos Duendes

Por Bernardo Guimarães (1865)

O poema narrativo “A orgia dos duendes”, de Bernardo Guimarães, mergulha no universo fantástico e sombrio ao retratar uma reunião macabra de criaturas sobrenaturais em meio à noite. Com forte influência do ultrarromantismo, o texto apresenta duendes e figuras grotescas que celebram uma espécie de ritual irreverente e caótico, misturando humor ácido, crítica social e elementos de terror. A atmosfera é marcada por exageros, imagens vívidas e tom satírico, criando uma narrativa que oscila entre o grotesco e o fantástico. Ao explorar o imaginário popular e o gosto pelo insólito, a obra revela uma faceta ousada do autor, capaz de provocar estranhamento e fascínio no leitor.

I

Meia-noite soou na floresta

No relógio de sino de pau;

E a velhinha, rainha da festa,

Se assentou sobre o grande jirau.

Lobisome apanhava os gravetos

E a fogueira no chão acendia,

Revirando os compridos espetos,

Para a ceia da grande folia.

Junto dele um vermelho diabo

Que saíra do antro das focas,

Pendurado num pau pelo rabo,

No borralho torrava pipocas.

Taturana, uma bruxa amarela,

Resmungando com ar carrancudo,

Se ocupava em frigir na panela

Um menino com tripas e tudo.

Getirana com todo o sossego

A caldeira da sopa adubava

Com o sangue de um velho morcego,

Que ali mesmo co’as unhas sangrava.

Mamangava frigia nas banhas

Que tirou do cachaço de um frade,

Adubado com pernas de aranhas,

Fresco lombo de um frei dom abade.

Vento sul sobiou na cumbuca,

Galo-preto na cinza espojou;

Por três vezes zumbiu a matruca,

No cupim o macuco piou.

E a rainha co’as mãos ressequidas

O sinal por três vezes foi dando,

A corte das almas perdidas

Desta sorte ao batuque chamando:

"Vinde, ó filhas do oco do pau,

Lagartixas do rabo vermelho,

Vinde, vinde tocar marimbau,

Que hoje é festa de grande aparelho.

Raparigas do monte das cobras,

Que fazeis lá no fundo da brenha?

Do sepulcro trazei-me as abobras,

E do inferno os meus feixes de lenha.

Ide já procurar-me a bandurra,

Que me deu minha tia Marselha,

E que aos ventos da noite sussurra,

Pendurada no arco-da-velha.

Onde estás, que inda aqui não te vejo,

Esqueleto gamenho e gentil?

Eu quisera acordar-te c’um beijo

Lá no teu tenebroso covil.

Galo-preto da torre da morte,

Que te aninhas em leito de brasas,

Vem agora esquecer tua sorte,

Vem-me em torno arrastar tuas asas.

Sapo-inchado, que moras na cova

Onde a mão do defunto enterrei,

Tu não sabes que hoje é lua nova,

Que é o dia das danças da lei?

Tu também, ó gentil Crocodilo,

Não deplores o suco das uvas;

Vem beber excelente restilo

Que eu do pranto extraí das viúvas.

Lobisome, que fazes, meu bem,

Que não vens ao sagrado batuque?

Como tratas com tanto desdém,

Quem a c’roa te deu de grão-duque?”

II

Mil duendes dos antros saíram

Batucando e batendo matracas,

E mil bruxas uivando surgiram,

Cavalgando em compridas estacas.

Três diabos vestidos de roxo

Se assentaram aos pés da rainha,

E um deles, que tinha o pé coxo,

Começou a tocar campainha.

Campainha, que toca, é caveira

Com badalo de casco de burro,

Que no meio da selva agoureira

Vai fazendo medonho sussurro.

Capetinhas trepados nos galhos

Com o rabo enrolado no pau,

Uns agitam sonoros chocalhos,

Outros põem-se a tocar marimbau.

Crocodilo roncava no papo

Com ruído de grande fragor;

E na inchada barriga de um sapo

Esqueleto tocava tambor.

Da carcaça de um seco defunto

E das tripas de um velho barão,

De uma bruxa engenhosa o bestunto

Armou logo feroz rabecão.

Assentado nos pés da rainha

Lobisome batia a batuta

Co’a canela de um frade, que tinha

Inda um pouco de carne corruta.

Já ressoam timbales e rufos,

Ferve a dança do cateretê;

Taturana, batendo os adufos,

Sapateia cantando — o le rê!

Getirana, bruxinha tarasca,

Arranhando fanhosa bandurra,

Com tremenda embigada descasca

A barriga do velho Caturra.

O Caturra era um sapo papudo

Com dois chifres vermelhos na testa,

E era ele, a despeito de tudo,

O rapaz mais patusco da festa.

Já no meio da roda zurrando

Aparece a mula-sem-cabeça,

Bate palmas a súcia berrando

— Viva, viva a Sra. condessa!...

E dançando em redor da fogueira

Vão girando, girando sem fim;

Cada qual uma estrofe agoureira

Vão cantando alternados assim:

III

TATURANA

Dos prazeres de amor as primícias,

De meu pai entre os braços gozei;

E de amor as extremas delícias

Deu-me um filho, que dele gerei.

Mas se minha fraqueza foi tanta,

De um convento fui freira professa;

Onde morte morri de uma santa;

Vejam lá, que tal foi esta peça.

GETIRANA

Por conselhos de um cônego abade

Dois maridos na cova soquei;

E depois por amores de um frade

Ao suplício o abade arrastei.

Os amantes, a quem despojei,

Conduzi das desgraças ao cúmulo

E alguns filhos, por artes que sei,

Me caíram do ventre no túmulo.

GALO-PRETO

Como frade de um santo convento

Este gordo toutiço criei;

E de lindas donzelas um cento

No altar da luxúria imolei.

Mas na vida beata de ascético

Mui contrito rezei, jejuei,

Té que um dia de ataque apoplético

Nos abismos do inferno estourei.

ESQUELETO

Por fazer aos mortais crua guerra

Mil fogueiras no mundo ateei;

Quantos vivos queimei sobre a terra,

Já eu mesmo contá-los não sei.

Das severas virtudes monásticas

Dei no entanto piedosos exemplos;

E por isso cabeças fantásticas

Inda me erguem altares e templos.

MULA-SEM-CABEÇA

Por um bispo eu morria de amores,

Que afinal meus extremos pagou;

Meu marido, fervendo em furores

De ciúmes, o bispo matou.

Do consórcio enjoei-me dos laços,

E ansiosa quis vê-los quebrados,

Meu marido piquei em pedaços,

E depois o comi aos bocados.

Entre galas, veludo e damasco

Eu vivi, bela e nobre condessa;

E por fim entre as mãos do carrasco

Sobre um cepo perdi a cabeça.

CROCODILO

Eu fui papa; e aos meus inimigos

Para o inferno mandei c’um aceno;

E também por servir aos amigos

Té nas hóstias botava veneno.

De princesas cruéis e devassas

Fui na terra constante patrono;

Por gozar de seus mimos e graças

(continua...)

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