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#Crônicas#Literatura Brasileira

História de quinze dias

Por Machado de Assis (1900)

Machado de Assis (1839–1908), maior nome da literatura brasileira, é autor de História de quinze dias, crônica em que observa com ironia e sutileza episódios do cotidiano, revelando hábitos sociais, vaidades e contradições humanas. O texto exemplifica o olhar crítico do autor sobre a vida urbana do século XIX e sua habilidade em transformar o banal em reflexão literária, convidando o leitor a perceber o extraordinário no comum.

[1] 

[1 julho] 

Dou começo à crônica no momento em que o Oriente se esboroa e a poesia parece expirar às mãos grossas do vulgacho. Pobre Oriente! Mísera poesia! 

Um profeta surgiu em uma tribo árabe, fundou uma religião, e lançou as bases de um império; império e religião têm uma só doutrina, uma só, mas forte como o granito, implacável como a cimitarra, infalível como o Alcorão. 

Passam os séculos, os homens, as repúblicas, as paixões; a história faz-se dia por dia, folha a folha; as obras humanas alteram-se, corrompem-se, modificam-se, transformam-se. Toda a superfície civilizada da terra é um vasto renascer de coisas e idéias. Só a idéia muçulmana estava de pé; a política do Alcorão vivia com os paxás, o harém, a cimitarra e o resto. 

Um dia, meia dúzia de rapazes libertinos iscados de João Jacques e de Benjamim Constant, ainda quentes do último discurso de Gladstone ou do mais recente artigo do Courrier de l'Europe; meia dúzia de rapazes, digo eu, resolveram dar com o monumento bizantino em terra, abrir o ventre ao fatalismo e arrancar de lá uma carta constitucional 

Pelas barbas do Profeta! Há nada menos maometano do que isto? Abdul-Aziz, o último sultão ortodoxo, quis resistir ao 89 turco; mas não tinha sequer o exército, e caiu; e, uma vez caído, deitou-se da janela da vida à rua da eternidade. 

O Alcorão fala de dois anjos negros de olhos azuis? que descem a interrogar os mortos. O ex-padixá foi naturalmente inquirido como os outros: 

—Quem é teu senhor? 

—Alá. 

__Tua religião? 

—lslã. 

—Teu profeta? 

__Maomé. 

—Há um só deus e um só profeta? 

—Um só. La illah il Allah, ve Muhameden ressul Allah. 

—Perfeito. Acompanha-nos. 

O pobre sultão obedeceu. 

Chegando à porta das delícias eternas achou o profeta sentado em coxins espirituais, resguardado por um guarda-sol metafísico. 

—Que vens cá fazer? —perguntou ele. 

Abdul explicou-se, referiu o seu infortúnio; mas o profeta atalhou-o, clamando: 

—Cala-te! És mais do que isso, és o destruidor da lei, o inimigo do Islã. Tu fizeste possível o gérmen corruptor das minhas grandes instituições, pior que a fé de Cristo, pior que a inveja dos russos, pior que a neve dos tempos; tu fizeste o gérmen constitucional. A Turquia vai ter uma câmara, um ministério responsável, uma eleição, uma tribuna, interpelações, crises, orçamentos, discussões, a lepra toda do parlamentarismo e do constitucionalismo. Ah! quem me dera Omar! ah! quem me dera Omar! Naturalmente Abdul, se o profeta chorou naquele ponto, ofereceu-Ihe o seu lenço de assoar, — o mesmo que na mitologia do serralho substitui as setas de Cupido; ofereceu-lho, mas é provável que o profeta lhe desse em troco o mais divino dos pontapés. Se assim foi, Abdul desceu de novo à terra, e há de estar aí por algum canto... Talvez aqui na cidade. 

Se cá viesse, é possível que a vista de alguns becos e certa quantidade de cães lhe fizessem crer que voltara a Constantinopla; ilusão que aumentaria se ouvisse falar no divã em que estou sentado e em várias mesquitas do meu conhecimento.

Mas o que eu apuro de tudo o que nos vem pelo cabo submarino e vapores transatlânticos é que o Oriente acabou e com ele a poesia. 

Só a abolição do serralho é uma das revoluções maiores do século.Aquele bazar de belezas de toda a casta e origem, umas baixinhas, outras altas, as louras ao pé das morenas, os olhos negros a conversar os olhos azuis, e os cetins, os damascos, as escumilhas, os narguilés, os eunucos... 

Oh! sobretudo os eunucos! Tudo isso é poesia que o vento do parlamentarismo dissolveu em um minuto de cólera e num acesso de eloquência. 

Vão-se os deuses e com eles as instituições. Dá vontade de exclamar com certo cardeal: Il mondo casca! 

II 

Ao menos, Abdul. se foi enterrado, foi morto e bem morto. Não aconteceu o mesmo àquele sujeito do Ceará, a quem quiseram dar a última casa, estando ele vivo, e mais que vivo.Um minuto mais, tinha ele cinco palmos de terra sobre o ventre, por outras palavras um suplício maior que o de todos os que inventou Dante. 

Acordou a tempo, com mágoa talvez de um ou mais oradores que levavam redigidas e lacrimejadas as virtudes do defunto, e acharam naturalmente pouca cortesia da parte do ressuscitado. 

Mas aqui vai o melhor. 

Dizem os jornais que o serviço foi preparado às pressas; que o escrivão do registro teve de interromper o alistamento dos votantes para ir registrar o óbito de Manuel da Gata. 

Ressuscitado este, desfez o enterro, mas não se desfez a nota do cemitério. 

(continua...)

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