Por Machado de Assis (1858)
Machado de Assis (1839–1908) escreveu Hoje avental, amanhã luva em 1859. A comédia em um ato, ambientada no Rio de Janeiro durante o Carnaval, satiriza as hierarquias sociais, o arrivismo e as convenções do amor burguês. Com humor e crítica social, o texto antecipa temas caros ao autor e convida o leitor a refletir sobre mobilidade social e aparência.
Comédia em um ato imitada do francês por Machado de Assis.
PERSONAGENS:
DURVAL
ROSINHA
BENTO
Rio de Janeiro - Carnaval de 1859.
(Sala elegante. Piano, canapé, cadeiras, uma jarra de flores em uma mesa à direita alta. Portas laterais no fundo.)
Cena I
ROSINHA (adormecida no canapé);
DURVAL (entrando pela porta do fundo)
DURVAL
Onde está a Sra. Sofia de Melo?... Não vejo ninguém. Depois de dois anos como venho encontrar estes sítios! Quem sabe se em vez da palavra dos cumprimentos deverei trazer a palavra dos epitáfios! Como tem crescido isto em opulência!... mas... (rendo Rosinha) Oh! Cá está a criadinha. Dorme!... excelente passatempo... Será adepta de Epicuro? Vejamos se a acordo... (dá-lhe um beijo)
ROSINHA
(acordando)
Ah! Que é isto? (levanta-se) O Sr. Durval? Há dois anos que tinha desaparecido... Não o esperava.
DURVAL
Sim, sou eu, minha menina. Tua ama?
ROSINHA
Está ainda no quarto. Vou dizer-lhe que V. S. está cá. (vai para entrar) Mas, espere; diga me uma coisa.
DURVAL
Duas, minha pequena. Estou à tua disposição. (à parte) Não é má coisinha!
ROSINHA
Diga-me. V. S. levou dois anos sem aqui pôr os pés: por que diabo volta agora sem mais nem menos?
DURVAL
(tirando o sobretudo que deita sobre o canapé)
És curiosa. Pois sabe que venho para... para mostrar a Sofia que estou ainda o mesmo.
ROSINHA
Está mesmo? moralmente, não?
DURVAL
É boa! Tenho então alguma ruga que indique decadência física?
ROSINHA
Do físico... não há nada que dizer.
DURVAL
Pois do moral estou também no mesmo. Cresce com os anos o meu amor; e o amor é como o vinho do porto: quanto mais velho, melhor. Mas tu! Tens mudado muito, mas como mudam as flores em botão: ficando mais bela.
ROSINHA
Sempre amável, Sr. Durval.
DURVAL
Costume da mocidade. (quer dar-lhe um beijo)
ROSINHA
(fugindo e com severidade)
Sr. Durval!...
DURVAL
E então! Foges agora! Em outro tempo não eras difícil nas tuas beijocas. Ora vamos! Não tens uma amabilidade para este camarada que de tão longe volta!
ROSINHA
Não quero graças. Agora é outro cantar! Há dois anos eu era uma tola inexperiente... mas hoje!
DURVAL
Está bem. Mas...
ROSINHA
Tenciona ficar aqui no Rio?
DURVAL
(sentando-se)
Como o Corcovado, enraizado como ele. Já me doíam saudades desta boa cidade. A roça, não há coisa pior! Passei lá dois anos bem insípidos – em uma vida uniforme e matemática como um ponteiro de relógio: jogava gamão, colhia café e plantava batatas. Nem teatro lírico, nem rua do Ouvidor, nem Petalógica! Solidão e mais nada. Mas, viva o amor! Um dia concebi o projeto de me safar e aqui estou. Sou agora a borboleta, deixei a crisálida, e aqui me vou em busca de vergéis. (tenta um novo beijo)
ROSINHA
(fugindo)
Não teme queimar as asas?
DURVAL
Em que fogo? Ah! Nos olhos de Sofia! Está mudada também?
ROSINHA
Sou suspeita. Com seus próprios olhos o verá.
DURVAL
Era elegante e bela há bons dois anos. Sê-lo-á ainda? Não será? Dilema de Hamleto. E como gostava de flores! Lembras-te? Aceitava-mas sempre não sei se por mim, se pelas flores; mas é de crer que fosse por mim.
ROSINHA
Ela gostava tanto de flores!
DURVAL
Obrigado. Dize-me cá. Por que diabo sendo uma criada, tiveste sempre tanto espírito e mesmo...
ROSINHA
Não sabe? Eu lhe digo. Em Lisboa, donde viemos para aqui, fomos condiscípulas: estudamos no mesmo colégio, e comemos à mesma mesa. Mas, coisas do mundo!... Ela tornou-se ama e eu criada! É verdade que me trata com distinção, e conversamos às vezes em altas coisas.
DURVAL
Ah! é isso? Foram condiscípulas. (levanta-se) E conversam agora em altas coisas!... Pois eis-me aqui para conversar também; faremos um trio admirável.
ROSINHA
Vou participar-lhe a sua chegada.
DURVAL
Sim, vai, vai. Mas olha cá, uma palavra.
ROSINHA
Uma só, entende?
DURVAL
Dás-me um beijo?
ROSINHA
Bem vê que são três palavras. (entra à direita)
(continua...)
ASSIS, Machado de. Hoje avental, amanhã luva. In: ASSIS, Machado de. Teatro de Machado de Assis. São Paulo: Martins Fontes, 2003.