Por Adolfo Caminha (1893)
Em “A Normalista”, a história gira em torno de uma jovem estudante que vive entre as exigências da educação formal e os conflitos de sua vida pessoal. Ao longo da narrativa, surgem críticas à moral conservadora e às pressões impostas às mulheres, revelando tensões entre desejo, aparência social e as limitações impostas pelo ambiente em que vive.
CAPÍTULO I
João Maciel da Mata Gadelha, conhecido em Fortaleza por João da Mata, habitava, há anos, no Trilho, uma casinhola de porta e janela, cor de açafrão, com a frente encardida pela fuligem das locomotivas que diariamente cruzavam defronte, e de onde se avistava a Estação da linha férrea de Baturité. Era amanuense, amigado, e gostava de jogar víspora em família aos domingos.
Nessa noite estavam reunidas as pessoas do costume. Ao centro da sala, em torno de uma mesa coberta com um pano xadrez, à luz parca de um candeeiro de louça esfumado, em forma de abajur, corriam os olhos sobre as velhas coleções desbotadas, enquanto uma voz fina de mulher flauteava arrastando as sílabas numa cadência morosa: — Vin...te e quatro! Sessen...ta e nove!... Cinqüen...ta e seis!...
Havia um silêncio morno e concentrado em que destacava o rolar abafado das pedras no saquinho da baeta verde.
A sala era estreita, sem teto, chão de tijolo, com duas portas para o interior da casa, paredes escorridas pedindo uma caiação geral. À direita, defronte da janela, dormia um velho piano de aspecto pobre, encimado por um espelho não menos gasto. O resto da mobília compunha-se de algumas cadeiras, um sofá entre as duas portas do fundo, a mesa do centro, e uma espécie de console, colocada à esquerda, onde pousavam dois jarros com flores artificiais.
De onde em onde zunia o falsete do amanuense:
— Quadra! Ou caçoava: — Os anos de Cristo!... Os óculos do Padre Eterno!
Risadinhas explodiam a espaços, gostosas, indiscretas — uma pilhéria ricocheteava nos quatro ângulos da mesa.
— É boa! É boa! fazia João da Mata erguendo a cabeça, mostrando a dentuça.
Depois voltava o silêncio, e a voz fina de mulher continuava a cantar os números solenemente.
— Víspora! saltou de repente um rapazola de óculos, bigodinho fino, flor na botoeira do fraque de casimira clara.
Toda gente o conhecia — era o Zuza, quintanista de direito, filho do coronel Souza Nunes.
— Podem conferir, disse erguendo-se, risonho — segunda linha.
E estendeu o braço, passando o cartão para o amanuense.
— Não desmarquem, não desmarquem, recomendou este espalmando a mão. Pode ter sido engano. Errare humanum est...
Houve um ligeiro sussurro de vozes e de caroços rolando sobre a mesa com um surdo ruído de contas desfiadas. Todos desfizeram as marcações.
Numa das extremidades sentava-se João da Mata, de paletó de fazenda parda sobre a camisa de meia, costas para a rua.
À direita mexia-se uma senhora gorducha, de seus trinta anos, metida num casaco frouxo de rendas, cabelo penteado em cocó, estampa insinuante, bons dentes: era a mulher do amanuense, que passava por sua legítima esposa não obstante as insinuações malévolas da alcovitice vilã que entrevira escândalos na vida privada de D. Terezinha. Contudo, era tida em conta de excelente dona-decasa, honesta, dizendo-se relacionada com as principais famílias de Fortaleza.
Ninguém ousava mesmo dirigir-lhe um gracejo de mau gosto, uma pilhéria calculada. Inventava-se — calúnias do populacho — que se correspondia ocultamente com o presidente da província. Ela, porém, gabava, batendo no peito com orgulho, que tinha uma vida limpa, graças a Deus; que isso de patifarias não lhe entrava em casa, não, mas era o mesmo. Estava ali o Janjão que não a deixava mentir.
Ao pé de D. Terezinha aprumava-se Maria do Carmo, afilhada de João, uma rapariga muito nova, com um belo arzinho de noviça, morena-clara, olhos cor de azeitonas, carnes rijas, e cuja atenção volvia-se insistentemente para o Zuza.
As outras pessoas eram também da intimidade: o Loureiro, guarda-livros da firma Carvalho & Cia., o Dr. Mendes, juiz municipal, mais a senhora, a Lídia Campelo, filha da viúva Campelo, e o estudante. Às vezes ia mais gente e o víspora prolongava-se até meia-noite.
João da Mata era um sujeito esgrouvinhado, esguio e alto, carão magro de tísico, com uma cor hepática denunciando vícios de sangue, pouco cabelo, óculos escuros através dos quais boliam dois olhos miúdos e vesgos. Usava pêra e bigode ralo caindo sobre os beiços, tesos como fios de arame; a testa ampla confundia-se com a meia calva reluzente. Falava depressa, com um sotaque abemolado, gesticulando bruscamente, e, quando ria, punha em evidência a medonha dentuça postiça. Noutros tempos fora mestre-escola no sertão da província, de onde se mudara para a capital por conveniências particulares. Era então simplesmente o professor Gadelha, o terror dos estudantes de gramática. O sertão foi-lhe aborrecendo; estava cansado de ensinar a meninos, era preciso fazer pela vida noutro meio mais vasto onde as suas qualidades, boas ou más, fossem aquilatadas com justiça. Estava perdendo-se, inutilizando-se e fossilizando-se, por assim dizer, entre um vigário seboso e pernóstico e um delegado de polícia ignorante: — “Não era um águia, um Abílio Borges, um Macedo... mas reconhecia que também não era burro. Até podia fazer figura em Fortaleza.”
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)CAMINHA, Adolfo. A normalista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16512 . Acesso em: 27 mar. 2026.