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#Romances#Literatura Brasileira

O Missionário

Por Inglês de Sousa (1891)

“O Missionário” acompanha a trajetória de um padre enviado ao interior amazônico, onde enfrenta conflitos entre sua fé e os impulsos humanos. Em meio ao ambiente isolado e às tensões locais, a narrativa expõe dilemas morais, hipocrisias e fragilidades, revelando, com traços naturalistas, como o meio e as circunstâncias influenciam o comportamento.

CAPÍTULO I

Padre Antônio de Morais devia chegar a Silves naquela esplêndida manhã de fevereiro.

A carta que escrevera ao Macário sacristão anunciava o dia da partida, designando o paquete, e pedia uma casa modesta e mobiliada simplesmente. Macário fizera o cômputo do tempo necessário à viagem, rio acima até Silves, e espalhara por toda a vila, havia exatamente quinze dias, a notícia da próxima vinda do vigário enviado pelo Sr. D. Antônio “na solicitude paterna de pastor que não descura a salvação das suas mais obscuras ovelhas”, conforme lera o professor Aníbal na Boa nova da última semana. A casa não fora difícil de arranjar, bem perto da Matriz, na melhor situação, olhando para o lago. Era pequena, mas muito arejada e estava caiadinha de novo. Cedera-a por seis mil-réis mensais o presidente da Câmara, que a mandara preparar para si, com umas veleidades de deixar o sítio ao rio Urubus e vir morar para a vila; mas a força do hábito o fizera desistir do projeto, e depois... a D. Eulália... coitada! não queria ouvir falar em tal mudança, por causa dos seus queridos xerimbabos. Assim o Neves Barriga preferira alugar a casinha, branca e asseada, e resignara-se a continuar enterrado naquele sertão do Urubus, matando carapanãs e fazendo farinha de mandioca. O Antônio Capina, por muito empenho, só pudera fornecer uma mesa de pinho, envernizada e decente e a marquesa de palhinha que fora do último juiz municipal, reformada para servir a “algum desses esquisitos lá de fora que não gostam de dormir em rede”. As cadeiras, a mesa de jantar, o lavatório, a bacia de banho, tinha-os o Macário pedido emprestado ao capitão Mendes da Fonseca, que, em toda a vila, possuía as melhores coisas desse gênero. Para ornar a parede do fundo da sala, o professor Aníbal emprestara uma grande gravura, representando a batalha de Solferino, e retratos de Pio IX, de Antonelli, de Cavour, da princesa Estefânia e do conselheiro Paranhos. A louça, tanto a de mesa como a de cozinha, compunha-se do que o Macário pudera arrancar à cobiça da Chiquinha do Lago, restos do espólio do finado padre José, e do que comprara na casa do Costa e Silva. Estava tudo decente.

Depois de aprontar a casa e arranjar a mobília, Macário assumira as funções de diretor da recepção do novo pároco e, naquele dia, ao romper da alva, envergara a sobrecasaca de lustrina, pusera na cabeça o seu boliviano de seis patacas, engolira, a ferver, uma tigela de chá de folhas de cafeeiro adoçado com rapadura, e saíra para a rua, não se podendo ter dentro de quatro paredes, cheio de ansiedade, receando o surpreendesse o apito do vapor, ardentemente esperado.

Era ainda muito cedo. Macário deteve-se à porta, olhos na rua, desejando avistar um amigo, um vizinho, uma criatura qualquer com quem desabafasse a extraordinária emoção da hora, até ali nunca esperada, de ser o diretor da recepção, o organizador da festa, a fonte de informações, o único homem da vila que entretinha relações com S. Rev.ma, a quem S. Rev.ma escrevia.

A rua estava deserta e as casas fechadas. Macário, passeando a sapata de pedras desiguais, esburacada e velha, não podia expandira agitação intestina que lhe escaldava o sangue e bulia com os nervos; só oferecia derivativo à atividade a que se entregava a passos incertos, ziguezagueando às vezes como um ébrio, dando topadas que lhe irritavam os calos e despelavam o bezerro novo das botinas de rangedeira.

O sol subia lentamente no azul esbranquiçado do céu, banhando a frente das casas e dando pinceladas verdes na massa escura da floresta da outra banda. Sobre a superfície do lago Sacracá deslizava pequena montaria, tripulada por um tapuio de movimentos automáticos e vagarosos, que com o remo chato cortava a água cuidadosamente, para não acordar o peixe. Na vila ladravam cães e cantavam galos, e da próxima capoeira vinham vozes confusas de pássaros e de bichos.

Sentindo-se só, Macário concentrava o espírito, sem se deter no espetáculo daquela manhã de sol. O alvoroço da novidade esperada amortecia-lhe a faculdade contemplativa, alheando-o de tudo mais. O seu pensamento estava absorvido naquela idéias, a que lentamente foi relacionando outras, sujeitando ao exame todas as faces da questão. À medida que a consciência assenhoreava-se dum lado do problema, e esclarecia a solução do problema todo. Depois, para bem pesar os resultados, a necessidade da comparação surgia, e então, num tropel confuso, que se ia clareando e ordenando pouco a pouco, vibrando as fibras cerebrais que guardavam a impressão das emoções passadas, as lembranças afluíam, a princípio vagas, depois precisas, exatas, reproduzindo em grandes quadros coloridos os menores episódios, como se fossem da véspera.

(continua...)

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