Por Aluísio Azevedo (1880)
“Uma Lágrima de Mulher” apresenta uma narrativa sensível centrada nos sentimentos e conflitos de uma personagem feminina, explorando temas como amor, sofrimento e desilusão. Ao acompanhar suas emoções e experiências, o texto revela as pressões sociais e afetivas que marcam sua trajetória, compondo um retrato delicado das relações e da condição da mulher na época.
PRIMEIRA PARTE
CAPÍTULO I
Numa das formosas ilhas de Lipari, branquejava solitária uma casinha térrea, meio encravada nos rochedos, que as águas do mar da Sicília batem constantemente.
Ao lado esquerdo da modesta habitação, corria uma farta alameda de oliveiras, que, juntamente com os resultados da pesca do coral, constituía os meios escassos de vida de Maffei e sua família.
O pescador enviuvara cedo.
Do amor ardente e rude com que o embalara por dez anos uma formosa procitana por quem se apaixonara, restava-lhe, com recordação viva da extinta mocidade, como um beijo animado da felicidade que passou, uma alegria de quinze anos, uma filha querida, meiga e delicada como o afago de uma criancinha.
Ela adorava-o. Enchia-o de beijos e ternuras; era como um rouxinol a acariciar um tigre. Nas tardes melancólicas do outono, quando se assentavam ao sol no terreiro, contrastava com a bruteza do peito largo do pescador a engraçada cabeça de Rosalina, que se debruçava sobre ele.
Completava a pequena família de Lipari uma boa e religiosa velha dos seus cinqüenta anos, ama, criada e amiga; Ângela era, ao mesmo tempo, a mãe adotiva da filha de Maffei.
Rosalina era encantadora. Como em quase todas as meninas italianas, adivinhavam-se-lhe os elementos de uma mulher bela. Difícil seria vê-la alguém, sem prender o coração naquela graciosa liberdade de movimentos; ouvi-la, sem guardar na memória, como uma relíquia sagrada, o seu falsete de criança.
Há quinze anos, adormecia e levantava-se antes da alva, sempre rindo e cantando; nunca uma tristeza real lhe havia nublado a transparência azul de sua alegria, parado em meio uma das suas sadias gargalhadas. Amor, que não o da Madona ou da família, jamais lhe entrara no coração; e contudo, nos últimos meses dos seus quinze anos, caía, às vezes, num cismar de tristeza indefinível, quando, de sobre a penedia, contemplava sozinha a extensão melancólica do mar; sentia em tais momentos como vagas inquietações, que se lhe debatiam por dentro e procurava, tolinha! com insistência pueril, arrancar do oceano o segredo de tudo aquilo; parecia-lhe que o ar misterioso das águas vedava ao seu entendimento o verdadeiro motivo dos seus anelos.
Inexperiente, atribuía-os à vontade de viajar; nunca saíra de sua pequena ilha, e essa, apesar da beleza do céu, dos perfumes, das florestas, das sombras das oliveiras, do amor paterno e da dedicação de Ângela enchia-a de tristeza e melancolia.
Aos domingos costumava ir à missa e embalde o aprendiz ou o operário se paramentava com seu gorro novo; a filha do pescador, logo em deixando os trajos domingueiros, nem mais se lembrava do moço, que a cortejara sorrindo, ou do singelo galanteio de alguns dos do mesmo ofício de seu pai
Nem por isso deixavam de querer-lhe, pois nas rodas divertidas dos alpendres, enquanto dançavam e riam cantando a Tarantella, ao som das gaitas de foles, Rosalina não era esquecida, e até muito de coração lamentavam a mania do velho Maffei de não consentir que a pequena fosse aos domingos bailar e brincar nos seus folguedos.
CAPÍTULO II
Principiava a declinar o mês de outubro, e já o inverno abria cedo os portões da noite.
O céu, betumado por igual de um cinzento chumbado e sujo, peneirava de vez em quando uma poeira d’água, que se precipitava na lâmina polida do mar, como se milhões de flechazinhas microscópicas crivassem o escudo enorme do fabuloso gigante marinho.
Das águas, mortas e sombreadas pelo azul escuro da noite, levanta-se o torrão vulcânico, da ilha, desenhando fantasticamente no fundo plúmbeo do céu os contornos negros das oliveiras.
As duas vidraças iluminadas da casa de Maffei fitavam da treva as ilhas vizinhas.
Do lado oposto da ilha, os pescadores lançavam, cantando as redes ao mar, e o som monótono das cantigas chegava esfacelado e trêmulo, como o reflexo dos seus archotes nas vagas.
CAPÍTULO III
Ia adiantada a noite.
A serenidade aparente da casinha branca contrastava com a agitação interior. Extraordinário deveria ser o fato que tinha, tão desacostumadamente, despertos até tarde os seus pacíficos moradores. Entanto, o bulício crescia lá dentro; iam e vinham de um para outro lado, procurando, influenciados pelo silêncio, que a noite só por si impõe, abafar o som dos passos e das vozes, como se tivessem vizinhos ou pudessem incomodar alguém.
Em tudo, respirava uma impaciência surda; as andorinhas, pouco habituadas com o rumor, espreitavam curiosas e assustadas por entre as ripas com as suas cabecinhas pretas.
Apesar de velha e magra, Ângela era forte e sadia; atarefada emalava ferramentas e movia fardos com facilidade; Rosalina por outro lado, dobrava e empacotava roupas e afivelava malas prontas.
Tratava-se sem dúvida de alguma viagem.
Maffei era o único que não parecia preocupado com o que se passava; de natural sombrio e reservado não se mostrava inquieto; imóvel, numa cadeira de pau, como dedo grosseiro entre os dentes, dividia e somava mentalmente umas parcelas imaginárias.
(continua...)
Baixar texto completo (.txt)AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.