Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

História de quinze dias

Por Machado de Assis (1900)

A ópera, segundo este meu amigo, intitula-se Os três Sultões ou o Sonho do Grão-Vizir, música de Wagner e libreto de Gortchakoff. Tem numerosos quadros. A introdução no estilo herzegoviano é um primor, conquanto fosse ouvida sem grande atenção por parte do público. A atenção começou quando rompeu o dueto entre Milano e Abdul-Aziz, e depois o coro do softas , que derrocam Abdul... O mais sabemos todos. A este meu amigo, replico eu dizendo que a coisa não é ópera, mas guerra; sendo prova disso o telegrama há dias publicado ,que trouxe a notícia de achar-se em começo de paz. Respondeu-me que é ilusão minha. "há decerto um coro que entra cantando: Pace, pace, mas é um coro. Que queres tu? 

Antigamente as óperas eram música, hoje são isso e muita coisa mais. Vê os Huguenotes, com a descarga de tiros no fim. Pois é a mesma coisa a nova composição de Wagner. Há tiros, batalhões , mulheres estripadas, crianças partidas ao meio, aldeias reduzidas a cinzas, mas é tudo ópera. 

IV 

Daquela ópera ao Salvador Rosa a transição é fácil; mas, enquanto meu talentoso colega dos teatros falará mais detidamente da composição de Carlos Gomes e da companhia, eu quero daqui dar um aperto de mão ao inspirado maestro brasileiro, cujo nome cresce na estima e na veneração da Itália e da Europa. 

Não se iludam os que desde os primeiros dias confiaram nele. Ele paga hoje essa confiança com os louros de que cerca o nome brasileiro. 

Sinto não poder manifestar iguais sentimentos à companhia Torresi, mas tenho aqui um calo no pé... Ui! 

Começaram a aparecer mulheres santas e milagrosas. 

Na Bahia aparece uma que não come. Não comer é sinal vivo da santidade, donde eu concluo que o hotel é estrada real do inferno. 

A mulher de que se trata tem-se visto tonta com as romarias dos seus devotos, que já são muitos. Dizem os jornais que a polícia foi obrigada a mandar soldados para pôr alguma ordem nas visitas espirituais à mulher santa. Algumas supõem que a mulher não come por moléstia, e não falta quem diga que ela come às escondidas. 

Pobre senhora! 

De outro lado, não me lembra em que província, apareceu uma velha milagrosa. Cura doenças incuráveis com ervas misteriosas. Isto com alguns coros e um tenor dá meio ato de uma ópera à Meyerbeer. Só a entrada da velha, que deve ter por força queixo comprido, visto que as velhas fantásticas não usam queixo curto, só a entrada era de arrepiar as carnes e enlevar os espíritos. 

Io sono una gran mèdica 

Dottora enciclopèdica.

Há quem diga que também essa mulher é santa. Eu não gosto de ver as mulheres santas e os milagres a cada canto; eles e elas têm suas ocasiões próprias. 

VI 

Agora, o que é ainda mais grave que tudo, é a eleição, que a esta hora se começa a manipular em todo este vasto império. 

Em todo. . . é uma maneira de falar. Há soluções de continuidade, abertas pelas relações. Na Corte, por exemplo, não teremos desta vez a festa quatrienal. Tal como Niterói que também faz relache par ordre. 

Dois espetáculos de menos. Dois? Oito ou dez em todo o país. 

Não sei se o leitor em alguma vez refletido nas coisas públicas, e se lhe parece que seria a magna descoberta do século, aquela que nos desse um meio menos incômodo e mais pacífico de exercer a soberania nacional. 

A soberania nacional é a coisa mais bela do mundo, com a condição de ser soberania e de ser nacional. Se não tiver essas duas coisas, deixa de ser o que é para ser uma coisa semelhante aos Três Sultões, de Wagner, quero dizer muito superior, porque o Wagner, ou qualquer outro compositor apenas nos dá a cabaletta, diminutivode cabala, que é o primeiro trecho musical da eleição. Os coros são também muito superiores, mais numerosos, mais bem ensaiados, o ensemble mais estrondoso e perfeito. 

Cá na corte não temos desta vez cor nem cabala nem finais. Não há companhia. Por isso os diletantes emigram em massa para a província onde se prepara grande ovação aos cantores. 

VII 

Parece que começa a ser calçada... dou-lhe em cem, dou-lhe em mil... a Rua das Laranjeiras... Mas silêncio! isto não é assunto de interesse geral. 

VIII 

De interesse geral é o fundo da emancipação, pelo qual se acham libertados em alguns municípios 230 escravos. Só em alguns municípios! 

Esperemos que o número será grande quando a libertação estiver feita em todo o império. 

A lei de 28 de setembro fez agora cinco anos. Deus lhe dê vida e saúde! Esta lei foi um grande passo na nossa vida. Se tivesse vindo uns trinta anos antes estávamos em outras condições. 

Mas há 30 anos, não veio a lei, mas vinham ainda escravos, por contrabando, e vendiam-se às escancaras no Valongo. Além da venda, havia o calabouço. Um homem do meu conhecimento suspira pelo azorrague.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...7891011...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →