Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
Pouco depois iluminou-se de novo o gabinete do armênio, que lançando algumas gotas de um liquido perfumado sobre o vidro que expusera à operação cabalística, retirou este completamente frio do anel de ouro, onde o havia colocado.
Sem dizer-nos uma só palavra, sem parecer ocupar-se da nossa presença, o armênio armou o vidro em um aro de ouro, e no ponto em que o aro circular se liga ao anel destinado ao cordão pendurador, imprimiu sinistro selo, uma letra cabalística, com um sinete de forma triangular, e enlaçou no anel da luneta um cordão finíssimo, em que se entrançavam cabelos de todas as cores, e de diversos animais.
Estava terminada a mágica operação. O armênio me entregou a luneta, e disse-me então:
—Triunfo, e faço mal; mas posso prevenir o mal: criança! tu és inocente e bom, eu me compadeço de ti; escuta.
Recebi tremendo, a luneta, que ainda apenas sentia pelo tacto e não tinha visto pelos olhos, e escutei o armênio, que continuou a falar-me:
—Dou-te uma luneta mágica; veras por ela, quanto desejares ver, verás muito: mas poderás ver demais. Criança! dou-te um presente que te pode ser funesto: ouve-me bem! não fixas esta luneta em objeto algum, e sobretudo em homem algum, em mulher alguma por mais de três minutos; três é o número simbólico, e para ti será o número simples, o da visão da superfície e das aparências; não a fixes por mais de três minutos sobre o mesmo objeto, ou aborrecerás o mundo e a vida.
Eu estava todo trêmulo, e não sabia que dizer.
O armênio disse ainda:
—Esta luneta é a maravilha da magia: por ela verás demais no presente, e poderias ler no futuro; mas o teu coração é bom, e a tua alma é pura, criança; além do número de três minutos está a visão do mal, que o meu poder de mágico não te pode impedir; porque a visão do mal é a vingança da salamandra escrava; mas a fixidade dessa luneta além do número de treze minutos é a vidência do futuro, e essa eu ta impeço, Cashiel! Schaltiell Aphiel! Zarabiel! eu ta impeço, criança louca: essa luneta fixada além de treze minutos se quebrará em tuas mãos!
E tendo assim falado, empurrou-nos rudemente para fora do gabinete, e trancou-nos a porta.
Voltamos espantados e mudos pelo extenso corredor; o que se tinha passado era tão maravilhoso que nos estava impondo a eloqüência sublime do silêncio.
Chegados ao armazém os meus dois amigos, o bom velho e o Reis, convidaram-me a experimentar logo, ali mesmo, e à luz do gás a minha luneta mágica.
—Não, disse-lhes eu; esta luneta é a minha extraordinária esperança de luz, a luz da noite, se a dá a lua, é emprestada, se a dá a arte dos homens, é artificial; quero, devo esperar o dia, a luz da natureza, quero esperar a aurora, e o sol.
Um homem que espera pela luz, espera pela vida. Eu ainda duvidava do poder mágico do armênio; não quis apagar minha dúbia esperança na mesma hora, na mesma noite em que ela nascera.
Despedi-me do Reis e sai com o bom velho, que ainda se prestou a acompanhar-me.
Quando entrei em minha casa, davam os sinos o sinal de três horas da madrugada.
Pouco falta para romper a aurora e brilhar o sol.
Em breve experimentarei se vejo, como e quanto vejo.
Agora vou fazer por dormir, se puder dormir.
FIM DA INTRODUÇÃO À PRIMEIRA PARTE
VISÃO DO MAL
I
Não me foi possível dormir. Fiquei velando ansioso a esperar pelo dia, como o preso que espera ouvir soar a hora, em que lhe assegurarão a liberdade.
Procurei abreviar o tempo, ocupando o meu espírito naturalmente lembraram-me os conselhos que me dera o armênio.
Refleti.
O mágico me recomendara que me abstivesse de fixar a minha luneta sobre o mesmo objeto por mais de três minutos; porque além de três minutos ela me daria a visão do mal, em que a salamandra cevaria a vingança da sua escravidão encantada.
Deverei eu obedecer neste ponto o conselho do armênio?... compreendo que pobre de espírito como sou, arrisco-me a errar gravemente, querendo deliberar por meu próprio entendimento, e por isso até hoje o mano Américo, que é sábio e justo, sempre tem pensado por mim.
Todavia está me parecendo que ver o mal que se contém em um homem, em uma mulher ou em qualquer objeto pode antes ser útil do que nocivo, porque em todo o caso me servirá para fugir do mal.
Eu não entendo bem o que o armênio chama visão do mal; se porém é simplesmente o que significam as duas palavras, chego a presumir, que a visão do bem há de por força ser mais suave; mas a visão do mal necessariamente mais proveitosa ao homem que faz na terra a viagem difícil e perigosa da vida.
(continua...)