Por Machado de Assis (1877)
Obrigado... Esperarei... Tenho a janela para olhá-las até perdê-las de vista... Depois tenho estes álbuns, estes livros...
EMÍLIA
(ao espelho)
Tem o espelho para se mirar...
TITO
Oh! isso é completamente inútil para mim!
Cena VI
Os mesmos, SEABRA
SEABRA
(a Tito)
Oh! Finalmente acordaste!
TITO
É verdade... Não me lembro de ter passado nunca tão belas noites como estas de Petrópolis. Já nem tenho pesadelos... Pois olha, eu era vítima... Agora não, durmo como um justo...
SEABRA
(às duas)
Estão de volta?
MARGARIDA
Ainda agora vamos!
SEABRA
Então tenho ainda de esperar?...
EMÍLIA
Um simples quarto de hora...
SEABRA
Só?
TITO
Um quarto de hora feminino... meia eternidade...
EMÍLIA
Vamos desmenti-lo...
TITO
Ah! Tanto melhor...
MARGARIDA
Até já... (saem as duas)
Cena VII
TITO, SEABRA
SEABRA
Ora, esperemos ainda...
TITO
Onde foste?
SEABRA
Fui passear... Compreendi que é preciso ver e admirar o que é indiferente, para apreciar e ver melhor aquilo que for a felicidade íntima do coração.
TITO
Ali! Sim? Bem vês que até a felicidade por igual fatiga! Afinal sempre a razão está do meu lado...
SEABRA
Talvez... Apesar de tudo quer-me parecer que já intentas entrar na família dos casados.
TITO
Eu?
SEABRA
Tu, sim.
TITO
Por quê?
SEABRA
Mas, dize; é ou não verdade?
TITO
Qual, verdade!
SEABRA
O que sei é que uma destas tardes, em que adormeceste lendo, não sei que livro, ouvi-te pronunciar em sonhos, com a maior ternura, o nome de Emília.
TITO
Deveras?
SEABRA
É exato. Concluí que se sonhavas com ela é que a tinhas no pensamento, e se a tinhas no pensamento é que a amavas.
TITO
Concluíste mal.
SEABRA
Mal?
TITO
Concluíste como um marido de cinco meses. Que prova um sonho?
SEABRA
Prova muito!
TITO
Não prova nada! Pareces velha supersticiosa...
SEABRA
Mas enfim alguma coisa há, por força... Serás capaz de me dizeres o que é?
TITO
Homem, podia dizer-te alguma coisa se não fosses casado...
SEABRA
Que tem que eu seja casado?
TITO
Tem tudo. Serias indiscreto sem querer e até sem saber. À noite, entre um beijo e um bocejo, o marido e a mulher abrem, um para o outro, a bolsa das confidências. Sem pensares, deitavas tudo a perder.
SEABRA
Não digas isso. Vamos lá. Há novidade?
TITO
Não há nada.
SEABRA
Confirmas as minhas suspeitas. Gostas de Emília.
TITO
Ódio não lhe tenho, é verdade.
SEABRA
Gostas. E ela merece. É uma boa senhora, de não vulgar beleza, possuindo as melhores qualidades. Talvez preferisses que não fosse viúva?...
TITO
Sim; é natural que se embeveça dez vezes por dia na lembrança dos dois maridos que já exportou para o outro mundo... à espera de exportar o terceiro.
SEABRA
Não é dessas...
TITO
Afianças?
SEABRA
Quase que posso afiançar.
TITO
Ah! meu amigo, toma o conselho de um tolo: nunca afiances nada, principalmente em tais assuntos. Entre a prudência discreta e a cuja confiança não é lícito duvidar, a escolha está decidida nos próprios termos da primeira. O que podes tu afiançar a respeito da Emília? Não a conheces melhor do que eu. Há quinze dias que nos conhecemos e eu já lhe leio no interior; estou longe de atribuir-lhe maus sentimentos; mas, tenho a certeza de que não possui as raríssimas qualidades que são necessárias à exceção. Que sabes tu?
SEABRA
Realmente, eu não sei nada.
TITO
(à parte)
Não sabe nada!
SEABRA
Falo pelas minhas impressões. Parecia-me que um casamento entre vocês ambos não vinha fora de propósito.
TITO
(pondo o chapéu)
Se me falas outra vez em casamento, saio.
SEABRA
Pois só a palavra?...
TITO
A palavra, a idéia, tudo.
SEABRA
Entretanto admiras e aplaude o meu casamento...
TITO
Ah! eu aplaudo nos outros muita coisa de que não sou capaz de usar... Depende da vocação...
Cena VIII
Os mesmos, MARGARIDA, EMÍLIA
EMÍLIA
O que é que depende de vocação?
TITO
(continua...)
ASSIS, Machado de. As forças caudinas. In: ___. Teatro de Machado de Assis. São Paulo: Martins Fontes, 2003. Publicado originalmente em 1877