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#Contos#Literatura Brasileira

A Pianista

Por Machado de Assis (1886)

Tomás pôs em atividade tudo quanto podia tornar à vida o autor dos seus dias. Dias e dias passava junto do leito do velho, muitas vezes sem comer e sem dormir. Um dia, em que voltava para casa, após longas horas de insônia, veio Malvina saindo-lhe ao encontro e abraçá-lo, como de costume, mas com ar de ter alguma coisa a pedir-lhe. Com efeito, depois de abraçá-lo, e indagar do estado de Tibério Valença, pediu-lhe que desejava ir, poucas horas que fossem, cuidar como enfermeira do sogro. Tomás acedeu a esse pedido.

No dia seguinte Tomás disse ao pai quais eram os desejos de Malvina. Tibério Valença ouviu com sinais de satisfação as palavras do filho, e, depois de este concluir, respondeu lhe que aceitava contente a oferta dos serviços da nora.

Malvina foi no mesmo dia começar os seus serviços de enfermeira.

Tudo em casa mudou como por encanto.

A doce e discreta influência da mulher deu nova direção aos arranjos necessários à casa e à aplicação dos medicamentos.

Tinha crescido a gravidade da moléstia de Tibério Valença. Era uma febre que o trazia constantemente, ou delirante, ou sonolento.

Por isso durante os primeiros dias da estada de Malvina em casa do doente, este de nada pôde saber.

Foi só depois que a força da ciência conseguiu restituir a Tibério Valença as esperanças de vida e alguma tranqüilidade, que o pai de Tomás descobriu a presença da nova enfermeira.

Em tais circunstâncias os preconceitos só dominam os espíritos inteiramente pervertidos. Tibério Valença, apesar da exageração dos seus sentimentos, não estava ainda no caso. Acolheu a nora com um sorriso de benevolência e de gratidão.

— Muito obrigado, disse ele.

— Está melhor?

— Estou.

— Ainda bem.

— Há muitos dias que está aqui?

— Há alguns.

— Nada sei do que se tem passado. Parece que acordo de um longo sono. Que tive eu? — Delírios e constantes sonolências.

— Sim?

— É verdade.

— Mas estou melhor, estou salvo?

— Está.

— Dizem os médicos?

— Dizem e vê-se logo.

— Ah! graças a Deus.

Tibério Valença respirou como um homem que aprecia a vida no grau máximo. Depois, acrescentou:

— Ora, quanto trabalho teve comigo!...

— Nenhum...

— Como nenhum?

— Era preciso haver alguém que dirigisse a casa. Bem sabe que as mulheres são essencialmente donas de casa. Não quero encarecer o que fiz; eu pouco fiz, fi-lo por dever. Mas quero ser leal declarando qual foi o pensamento que me trouxe aqui. — A senhora tem bom coração.

Tomás entrou neste momento.

— Oh! meu pai! disse ele.

— Adeus, Tomás.

— Está melhor?

Estou. Sinto e dizem os médicos que estou melhor.

— Está, sim.

— Estava a agradecer à tua mulher...

Malvina acudiu logo:

— Deixemos isso para depois.

Desde o dia em que Tibério Valença teve este diálogo com a nora e o filho a cura foi-se operando gradualmente. No fim de um mês entrou Tibério Valença em convalescença. Estava excessivamente magro e fraco. Só podia andar apoiado a uma bengala e ao ombro de um criado. Tomás substituiu muitas vezes o criado a chamado do próprio pai. Neste ínterim foi Tomás contemplado na pretensão que tinha a um emprego público. Progrediu a convalescença do velho, e os facultativos aconselharam uma mudança para o campo.

Faziam-se os preparativos da mudança quando Tomás e Malvina anunciaram a Tibério Valença que, dispensando-se agora os seus cuidados, e devendo Tomás entrar no exercício do emprego que obtivera, tornava-se necessária a separação. — Então não me acompanham? perguntou o velho.

Ambos repetiram as razões que tinham, procurando do melhor modo não ofender a suscetibilidade do pai e do enfermo.

Pai e enfermo cederam às razões e efetuou-se a separação no meio dos protestos reiterados de Tibério Valença que agradecia d’alma os serviços que os dois lhe haviam prestado.

Tomás e Malvina seguiram para casa, e o convalescente partiu para o campo. * * *

A convalescença de Tibério Valença não teve incidente algum.

No fim de quarenta dias estava pronto para outra, como se diz popularmente, e o velho com toda a criadagem voltou para a cidade.

Não fiz menção de visita alguma da parte dos parentes de Tibério Valença durante a moléstia deste, não porque eles não tivessem visitado o parente enfermo, mas porque essas visitas não trazem circunstância alguma nova no caso.

Todavia pede a fidelidade histórica que eu as mencione agora. Os parentes, últimos que restavam à família Valença, reduziam-se a dois velhos primos, uma prima e um sobrinho, filho desta. Estas criaturas foram algum tanto assíduas durante o perigo da moléstia, mas escassearam as visitas desde que tiveram ciência de que a vida de Tibério não corria risco.

Convalescente, Tibério Valença não recebeu uma só visita desses parentes. O único que o visitou algumas vezes foi Tomás, mas sem a mulher.

Estando completamente restabelecido e tendo voltado à cidade, a vida da família continuou a mesma que anteriormente à moléstia.

(continua...)

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