Por Machado de Assis (1900)
Certamente é belo que Lucrécia haja dado um exemplo de castidade às senhoras de todos os tempos; mas se os escavadores modernos me provarem que Lucrécia é uma ficção e Tarquínio uma hipótese, nem por isso deixa de haver castidade...e pretendentes.
Mas isso é história antiga.
O caso do Ipiranga data de ontem. Durante cinqüenta e quatro anos temos vindo a repetir uma coisa que o dito meu amigo declara não ter existido.
Houve resolução do Príncipe D. Pedro, independência e o mais; mas não foi positivamente um grito, nem ele se deu nas margens do célebre ribeiro.
Lá se vão as páginas dos historiadores; e isso é o menos.
Emendam-se as futuras edições. Mas os versos? Os versos emendam-se com muito menos facilidade.
Minha opinião é que a lenda é melhor do que a história autêntica. A lenda resumia todo o fato da independência nacional, ao passo que a versão exata o reduz a uma coisa vaga e anônima. Tenha paciência o meu ilustrado amigo. Eu prefiro o grito do Ipiranga; é mais sumário, mais bonito e mais genérico.
III
Não foi igualmente bonito nem sumário o rolo do Largo de São Francisco, no dia 8. O referido rolo, verdadeiro hors-d'oeuvre na festa, foi uma representação da guerra do Oriente. Os urbanos fizeram de sérvios e os imperiais marinheiros de turcos.
A estação do largo foi a Belgrado.
Assim distribuídos os papéis, começou a pancadaria, que acabou por deixar 19 homens fora de combate.
Não tendo havido ensaio, foi a representação excelente pela precisão dos movimentos, naturalidade do alvoroço, e verossimilhança dos ferimentos.
Só numa coisa a reprodução não foi perfeita: é que os telegramas da Belgrado de cá confessam as perdas, coisa que os da Belgrado de lá nem à mão de Deus Padre querem confessar.
IV
Quem se não importa com saber se os urbanos ou seus adversários perderam ou não, e se o grito da Independência foi ou não soltado à margem do Ipiranga, é a companhia lírica.
A companhia lírica despreocupa-se de problemas históricos ou bélicos; ela só pensa nos problemas pecuniários, aliás resolvidos desde que se anunciou. Pode dizer que chegou, viu e... embolsou os cobres.
Efetivamente, o delírio de Buenos Aires chegou até cá, e o erro fatal de não termos quarentena para os navios procedentes de portos infeccionados deu em resultado acharmo-nos todos delirantes.
Que insânia, cidadãos! como dizia o poeta da Farsália.
Cadeiras a 40 bicos! Camarotes a 200 paus! Ainda se fosse para ver o Micado do Japão, que nunca aparece, compreende-se; mas para ouvir no dia 1.° alguns cantores, aliás bons, que a gente pode ouvir no dia 12 pelo preço de casa...
Eu disse o Micado, como coisa rara, e podia dizer também os olhos da Sra. Elena Samz, que são mais raros ainda. Confesso que são os maiores que os meus têm visto. Ou os olhos da contralto, ou os bispos da Africana. Não são bispos aqueles sujeitos, não são; não passam de meia dúzia de mendigos, assalariados para espeitorar algumas notas, a tantos réis cada um. Ou são bispos disfarçados. Se não são bispos disfarçados, são caixeiros do Pobre Jaques, que andam mostrando as alfaias do patrão. Bispos, nunca.
Na hora em que escrevo, tenho à minha espera as luvas para ir aos Huguenotes. Acho que a coisa há de sair boa; entretanto veremos.
V
Admirei-me algumas linhas atrás, da prodigalidade do público em relação à companhia Ferrari. Pois não havia de que, visto que, apesar dela, aí está a do Sr. Torresi, cujas assinaturas estão tomadas todas.
Dentro de poucos dias não haverá meio de dar os bons dias, pagar uma letra ou pedir uma fatia de presunto, sem ser por música.
A vida fluminense vai ser uma partitura. a imprensa uma orquestra, a maçonaria um coro de punhais.
Amanhã almoçaremos em lá menor; calçaremos as botas em três por quatro, e as ruas a três por dois. O Sr. Torresi promete dar tudo o que o Sr. Ferrari nos der, e mais o Salvador Rosa. Também promete moças bonitas, cujos retratos já estão na casa do Sr. Castelões, em frente às suas rivais.
Pela imprensa disputa-se a questão de saber qual é o primeiro teatro da capital, se o de S. Pedro, se o Dom Pedro II.
De um e outro lado afirma-se com a mesma convicção que o teatro do adversário é inferior.
Está-me isto a parecer a mania dos primeiros atores; o 1.° ator Fulano, o 1.° ator Sicrano, o 1.° ator Paulo, o 1.° ator Sancho, o 1.° ator Martinho.
O que sairá daqui não sei; mas se a coisa não prova entusiasmo lírico, não sei que mais querem os empresários.
VI
(continua...)
ASSIS, Machado de. História de quinze dias. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, s.d.