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#Comédias#Literatura Brasileira

Hoje avental, amanhã luva

Por Machado de Assis (1858)

O hidalgo Don Alonso da Sylveira y Zorrilla y Gudines y Guatinara y Marouflas de la Vega! 

DURVAL 

(assustado) 

É um batalhão que temos à porta! A Espanha muda-se para cá? 

ROSINHA 

Caluda! não sabe quem está ali? É um fidalgo da primeira nobreza de Espanha. Fala à rainha de chapéu na cabeça. 

DURVAL 

E que quer ele? 

ROSINHA 

A resposta daquele ramalhete. 

DURVAL 

(dando um pulo) 

Ah! foi ele... 

ROSINHA 

Silêncio! 

BENTO 

(fora) 

É meia-noite. O baile vai começar. 

ROSINHA 

Espere um momento. 

DURVAL 

Que espere! Mando-o embora. (à parte) É um fidalgo! 

ROSINHA 

Mandá-lo embora? pelo contrário; vou mudar de dominó e partir com ele. 

DURVAL 

Não, não; não faças isso!

BENTO 

(fora) 

É meia-noite e cinco minutos. Abre a porta a quem deve ser teu marido. 

DURVAL 

Teu marido! 

ROSINHA 

E então! 

BENTO 

Abre! abre! 

DURVAL 

É demais! Estás com o meu dominó... hás de ir comigo ao baile! 

ROSINHA 

Não é possível; não se trata a um fidalgo espanhol como a um cão. Devo ir com ele. 

DURVAL 

Não quero que vás. 

ROSINHA 

Hei de ir. (dispõe-se a tirar o dominó) Tome lá... 

DURVAL 

(impedindo-a) 

Rosinha, ele é um espanhol, e além de espanhol, fidalgo. Repara que é uma dupla cruz com que tens de carregar. 

ROSINHA 

Qual cruz! E não se casa ele comigo? 

DURVAL 

Não caias nessa! 

BENTO 

(fora) 

Meia-noite e dez minutos! então vem ou não vem? 

ROSINHA 

Lá vou. (a Durval) Vê como se impacienta! Tudo aquilo é amor! 

DURVAL 

(com explosão) 

Amor! E se eu te desse em troca daquele amor castelhano, um amor brasileiro ardente e apaixonado? Sim, eu te amo, Rosinha; deixa esse espanhol tresloucado! 

ROSINHA 

Sr. Durval! 

DURVAL 

Então, decide!

ROSINHA 

Não grite! Aquilo é mais forte do que um tigre de Bengala. 

DURVAL 

Deixa-o; eu matei as onças do Maranhão e já estou acostumado com esses animais. Então? vamos! eis-me a teus pés, ofereço-te a minha mão e a minha fortuna! 

ROSINHA 

(à parte) 

Ah... (alto) Mas o fidalgo? 

BENTO (fora) 

É meia-noite e doze minutos! 

DURVAL 

Manda-o embora, ou senão, espera. (levanta-se) Vou matá-lo; é o meio mais pronto. 

ROSINHA 

Não, não; evitemos a morte. Para não ver correr sangue, aceito a sua proposta. 

DURVAL 

(com regozijo) 

Venci o castelhano! É um magnífico triunfo! Vem, minha bela; o baile nos espera! 

ROSINHA 

Vamos. Mas repare na enormidade do sacrifício. 

DURVAL 

Serás compensada, Rosinha. Que linda peça de entrada! (à parte) São dois os enganados - o fidalgo e Sofia (alto) Ah! ah! ah! 

ROSINHA 

(rindo também) 

Ah! ah! ah! (à parte) Eis-me vingada! 

DURVAL 

Silêncio! (vão pé ante pé pela porta da esquerda. Sai Rosinha primeiro, e Durval, da soleira da porta para a porta do fundo, a rir às gargalhadas) 


Cena última 


BENTO 

(abrindo a porta do fundo) 

Ninguém mais! Desempenhei o meu papel: estou contente! Aquela subiu um degrau na sociedade. Deverei ficar assim? Alguma baronesa não me desdenharia decerto. Virei mais tarde. Por enquanto, vou abrir a portinhola. (vai a sair e cai o pano) 


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