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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

A suavidade das auras, a pureza do ar que banhavam docemente meu rosto e meus pulmões, o vivificante calor dos raios do sol venceram pouco a pouco a superexcitação nervosa que me ficara da tentativa de suicídio, do salto que eu dera, e da suspensão no espaço, na horrível boca do abismo.

Estirado no chão e em convulsivo tremor eu conservava a consciência de que vivia pela ativa lembrança das sensações instantâneas, mas violentas que me tinham torturado a alma; primeiro o adeus, extremo adeus deixado ao mundo, depois, dado o salto, o arrependimento súbito e vão; logo o socorro imediato e não esperado, e enfim a esperança, as ânsias e o terror desses instantes supremos, indizíveis em que me achei entre a vida e a morte, entre o suicídio que parecia absorver-me, e as mãos da providência que me continha pelas orelhas.

Passada uma longa hora, senti que me voltavam as forças.

Ajoelhei-me, e repeti em voz baixa breve oração.

Depois levantei-me e disse, procurando debalde com os olhos o armênio:

—Obrigado!

—Bom sinal! observou este; o teu coração voltou-se para Deus, e depois de render-lhe graças, a tua voz disse na primeira palavra um voto de gratidão ao homem que te salvou: morreste louco, e renasceste ajuizado.

Eu desatara a chorar, e chorei longamente.

O armênio tornou-me, depois de deixar muito tempo livre curso a meu pranto.

—Criança adoidada: já te puxei bastante as orelhas; mancebo infeliz, quero agora consolar-te. Enxuguei com precipitação as lágrimas, e lancei os olhos quase sem luz para o lado, donde me vinha a voz do armênio.

Ele riu-se e acrescentou

—Adivinhei o teu criminoso intento e vim aqui salvar-te do suicídio, e dar-te nova, terceira e última luneta mágica.

—Oh! .. e onde? e quando?

—Aqui mesmo e em breve.

—Que felicidade!

—Vou proceder à operação mágica.

—Eu a espero ansioso.

—E não tens medo? .. aqui.. neste lugar deserto... a sós comigo. . .

—Não.

—Confias pois muito em mim?

—Muito.

—Não há confiança sem fundamento que ao menos se suponha seguro, e tu nem sequer sabes como me chamo, o que não me admira, porque nem sabes o teu verdadeiro nome.

—Eu o conheço pelo armênio, o mais sábio dos mágicos, e sei que recebi na pia batismal o nome de Simplício.

—Erro duplo! não há aqui armênio nem Simplício.

—Então como nos chamamos?

—Eu me chamo Lição.

—E eu?

—Tu te chamas Exemplo.

— Ah!

—Escuta-me.



II

O armênio começou a falar.

—A exageração degenera os sentimentos, desvirtua os fatos, desfigura a verdade.

"Exagerar é mentir.

"No mundo há o bem e o mal, como há na vida o prazer e a dor.

"Mas o bem é o bem, o mal é o mal como eles são e não podem deixar de ser para a humanidade que e imperfeita: perfeito bem, absoluto mal não há para ela.

"O bem absoluto é Deus; mal absoluto não existe, não pode existir; porque seria o mal sem arrependimento, e sem perdão e portanto um limite à onipotência de Deus, o absurdo na verdade eterna.

"Assim pois acontecimento, ser da criação, homem absolutamente maus ou absolutamente bons não são possíveis, nem se compreendem.

"Estudar o mundo e os homens, observando-os pela enfezada lente as doutrinas, ou prevenções, as tuas duas lunetas exageraram.

"Ora exagerar é mentir.

"Mancebo, a verdadeira sabedoria ensina e manda julgar os homens, aceitar os homens, aproveitar os homens, como os homens são.

"A imperfeição e a contingência da humanidade são as únicas idéias que podem fundamentar um juízo certo sobre todos os homens.

"Fora dessa regra não se pode formar sobre dois homens o mesmo juízo.

"Cada qual é o que é; cada qual tem as suas qualidades, e seus defeitos.

"A sociedade que aceite cada homem com as suas qualidades e os seus defeitos, explorando umas e outras em seu proveito.

"As próprias plantas venenosas são úteis: a ciência faz do veneno mais violento um meio destruidor de moléstias, regenerador da saúde, conservador da vida.

"A educação do homem que é a base mais importante e a essencial da ciência social pode explorar em beneficio da sociedade, dirigindo-os convenientemente, os próprios defeitos correspondentes às qualidades estimáveis de cada um.

"Mancebo! para te levar à verdade já te lancei duas vezes no caminho do erro.

"Erraste acreditando no mal, erraste acreditando no bem, que te mostraram tuas duas lunetas, que exageraram o mal e o bem, ostentando cada uma o exclusivismo falaz do seu encantamento especial.

"Erraste pelo exclusivismo; porque o exclusivismo é o absurdo do absoluto no homem.

"Erraste pela exageração; porque exagerar é mentir."



III

Eu escutara com respeitoso silêncio o armênio que, tendo descansado alguns momentos, disse-me:

—Resolvi dar-te hoje a mais preciosa, mas também a última das lunetas mágicas que de mim terás.

—Qual?...

—Aquela que te fará gozar a visão do bom senso.

—Oh! a visão da sabedoria...

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