Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
Não desanimei e me dirigi ao meu banqueiro; este porém apenas percebeu o que eu queria, tomou o Jornal do Comércio que estava sobre a mesa de seu escritório, e mostrou-me um anúncio assinado por meu irmão, em que protestava não seria paga divida alguma contraída por mim. Retirei-me desesperado; todas as minhas esperanças tinham falhado, todos os meios me faltavam para obter dinheiro...
Ninguém pode fazer idéia da dor que me despedaçava o coração . . .
Recorri ainda a dois outros amigos que me deviam também somas importantes... um deles voltou-me as costas sem me responder, e o outro não me conheceu!!!
Fixei a minha luneta mágica sobre cada um desses dois miseráveis... ah! nenhum deles era mau: o primeiro voltava-me as costas cheio de vergonha e de pesar por não poder servir-me, e sem dúvida ao ver-me partir, desatara a chorar... o outro, pobre infeliz, afetado de uma moléstia cérebro-espinhal, tinha perdido a memória; pelo menos foi isto o que reconheci pela visão do bem.
Perdida a última esperança, sentindo profundo, moralmente mortal o golpe da desgraça, prevendo o raio infalível que ia fulminar-me no dia seguinte, pus-me a andar sem destino, mas apressado, quase a correr não sei por quais ruas da cidade; sei porém que de improviso parei na quina, ou ângulo formado por duas ruas que se cortavam.
Aproximava-se numeroso préstito de carruagens; quis vê-lo passar.
Era o préstito lúgubre de um finado. Era um enterro.
XXIX
Tive um pensamento que estava naturalmente em relação com a negra tristeza do meu espírito.
Desejei estudar o cadáver, que se ia sepultar.
Fixei a minha luneta mágica no féretro.
Eis o que vi:
Primeiro um caixão de madeira coberto de ricos estofos pretos e de galões de ouro, dentro um cadáver já em corrupção, fétido, repugnante... Iodo e pó da terra e nada mais.
Logo depois a memória das singulares virtudes do finado e... oh!... a felicidade, a incomparável felicidade da morte!...
Eu vi, senti, compreendi a morte, que se patenteou tal qual é, a visão do bem!
Eu vi a morte—mal julgada, caluniada pelos homens — sono plácido, suavíssimo que começa à última dor, ao extremo transe da vida, e que acaba ao despertar nas delicias da eternidade; paz sem cuidados, sossego sem a mais leve perturbação—véspera instantânea da verdadeira vida—porta do fim que é luz celeste. — Oh! que gozos na morte! a podridão e o fétido do cadáver em sublime contraste muito de longe dariam idéia da pureza e do angélico aroma da alma que se desprende do pó! Que gozos na morte! O mais vaidoso dos reis sente-se pela primeira vez verdadeiramente grande e exaltado elevando-se à esfera onde se encontra igual ao mais humilde e rude dos vassalos ou escravos que tivera!... Não há dor, nem ânsias, nem moléstias, nem privações, nem miopia na imensa e refulgente região da morte! Aquela frieza enregelada do cadáver significa esquecimento absoluto das penas da vida efêmera e mundana.
Pela morte o escravo é livre, a criança e a virgem são anjos, a esposa jovem, a matrona e a velha santas, a mundanaria é Madalena purificada, o malvado, o celerado são arrependidos que se regeneram, o desgraçado é feliz, o mudo tem voz, o paralítico voa, o surdo ouve segredos, o cego vê nas trevas, o desgraçado é perfeitamente feliz!...
A morte é Jordão que lava as culpas...
A morte é glória...
A morte é luz...
Só a morte é que dá principio à vida.
Eis um pouco do muito que a visão do bem me fez descobrir e apreciar na morte. O préstito já tinha passado.
Deixei cair a luneta mágica.
Abismei-me em profunda introversão, no estado da minha intima consciência, no estado novo e extraordinário do meu espírito...
Achei-me consolado, forte, invencível, contente, feliz...
Eu desejava, almejava morrer...
Morrer era começar a viver... e a viver que vida de delícias!...
Eu acabava de conceber a idéia, e de abraçar-me com a idéia do suicídio.
XXX
Examinei o ponto da cidade onde me achava, e logo conheci que havia parado para ver passar o préstito fúnebre no lugar, que é corte da Rua dos Barbonos, fim da das Mangueiras. e principio da dos Arcos.
A breve distancia estava pois mais adiante a ladeira do morro dantes chamado do Desterro, e desde o século passado de Santa Teresa.
Mais de um suicídio se tem realizado no alto, e nos desertos abismos daquele monte.
Instintivamente mas sem dúvida com a idéia da morte, dirigi-me para a ladeira, e comecei a subi-la passo a passo, com vagar e tranqüilidade, com ânimo sereno, e com o firme propósito de pôr termo a minha vida.
Eu não tinha comigo nem punhal, nem veneno, nem revólver, não levava pois arma, ou instrumento, ou meio de morte, e contudo subia a ladeira com intento de me matar. A visão do bem me levava à morte.
(continua...)