Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
Pelos meus ouvidos pareceu-me estar ainda no Boulevard Carceller, porque era-me impossível não escutar risadas que mal se abafavam, ou que petulantes se desprendiam.
O meu nome era repetido em tom de compaixão por alguns, em tom de escárnio por outros. Evidentemente ninguém me considerava, como eu queria ser considerado, e tinha direito de sê-lo.
—Aí vai ele...
—E o maníaco...
—É o Simplício...
—Coitado...
Eis as palavras, as designações cruéis, condenadoras, terríveis que me chegavam aos ouvidos!
Eu continuava a caminhar apressado, furioso, fora de mim, pedindo ao céu um abismo, onde caísse de súbito, um raio que me fulminasse. . .
Eu ia indo... sempre... quase a correr: deviam na verdade julgar-me desvairado...
De repente parei: uma voz argentina, suave, melodiosa exclamara:
—Como corre o bom anjo! É pena que não me visse! Segundo a regra morreríamos de amor um pelo outro, e ele me pagaria o jantar. . .
Olhei... fixei com a minha luneta mágica o demônio que assim tão barbaramente me ridiculizava... encarei-o... observei-o com ódio.
Ah! . . .
Era uma jovem no mais belo frescor da idade: vinte anos não mais, dezoito anos não menos; cabeleira de ouro com enchentes de anéis a inundar-lhe as espáduas nuas e alvejantes... colo nu, e seios quase de todo à mostra; vestido de duas salas, e toilette com mais cores que o arco-íris, meia perna patente... botinas justas de laços com botões a brilhar e de saltos de duas ou três polegadas... olhos radiantes, e boca a rir, mostrando os dentes brancos... sublimes...
Ela tinha parado e olhava-me provocadora, insolente, como a pedir-me jantar...
Esperei três minutos contemplando-a bonita para aborrecê-la escandalosa e infame...
Meu Deus! a visão do bem mostrou-me o que ela era...
Ela era a formosura... a pudicícia... o recato... um anjo!...
Insensivelmente meus joelhos se iam curvando; eu estava quase na posição, em que os devotos adoram a divindade, quando de todos os lados estrondaram gargalhadas...
A criatura angélica, gargalhando também saltou para dentro de um carro puxado por magnífica parelha, e fugiu-me...
As gargalhadas continuavam... era como uma pateada que me davam. . .
Em desespero, em frenesi, em fúria, corri, fugindo e fui encerrar-me no hotel.
XXVIII
Não sai mais nesse dia e dei ordem aos empregados do hotel para que despedissem a todos quantos me procurassem, pretextando ou incômodo ou ausência de minha pessoa.
Consumi a tarde, a noite e a manhã seguinte em teimosas, amarguradas, mas estéreis reflexões.
Eu estava precisamente na mesma situação, nas mesmas circunstâncias, em que me achava nos últimos dias da posse e uso da primeira luneta mágica.
Se alguma diferença havia entre as duas épocas e as duas aflições era agora para muito pior; porque agora se me quebrarem a luneta mágica da visão do bem, já sei que não poderei conseguir outra luneta.
E a sentença está lavrada e é irrevogável: o mano Américo, em sua extrema bondade e pelo grande interesse que toma por mim, receoso de que eu esbanje o resto de minha fortuna, me privará da luneta mágica que dá a visão do bem.
E é amanhã o dia em que por bem ou por mal serei recolhido a casa ou ao cárcere de minha família, e sujeito ao meu curador.
Deverei submeter-me?...
Estudei por todos os lados e em todas as suas conseqüências possíveis o caso, e conclui que o partido que me restava era fugir, e fugir imediatamente.
Para onde? Pouco importa; correrei o mundo; com dinheiro e boa vontade não se vive mal em parte alguma.
Examinei a minha carteira: restavam-me trinta e tantos mil réis!... fiquei desagradavelmente surpreendido; lembrou-me porém que na antevéspera tinha emprestado quatrocentos mil-réis a um dos amigos que jantaram comigo, e que na véspera assinara em duas subscrições para alforria de escravos.
A falta de dinheiro não podia embaraçar a execução do meu plano; eu contava tantos amigos que facilmente arranjaria quatro ou seis contos de réis.
Paguei o que devia no hotel e fui logo procurar o velho Nunes, e em seguida ao bom Damião e a mais quinze ou vinte, a todos os quais patenteei a minha situação, confiei o meu plano, e pedi algum dinheiro ou a titulo de empréstimo, ou em pagamento do que me deviam.
Triste observação!. . Não achei em todos esses excelentes amigos um só que me acudisse com alguma e ainda diminuta quantia!... mas os pobres e honradíssimos homens asseguraram-me que em quinze dias ou um mês me levariam a casa trinta ou quarenta contos de réis.
É pena que somente para tão tarde possa eu contar com esse recurso que fora hoje tão poderoso, e que então será inútil para o meu plano.
(continua...)