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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

Sobretudo senti que as senhoras me contemplavam embevecidas e perdidas de amor; eu ardia no fogo de vinte novas paixões!

Que sensações deliciosas!... todas essas criaturas angélicas riam-se olhando para mim, e encontrando o meu olhar, e no riso de cada uma delas eu encontrava um céu aberto, um romper de aurora no paraíso.

De súbito chegou-se a mim um mancebo com o semblante abatido, e repassado de dor, e mal podendo falar, expôs-me a sua situação que era das mais pungentes sem dúvida, e acabou, pedindo-me o óbulo da minha caridade para enterrar o filhinho, o filho único, que deixara em casa morto no colo da consternada esposa.

Vi que o mancebo, mísero pai, falava a verdade, e às ocultas dei-lhe algum dinheiro. Seguiram-se logo ao infeliz jovem uma imediatamente depois de outra três moças que se chegaram a mim, esmolando para missas pedidas.

Essas esmolavam, rindo-se, e eram raparigas elegantes, espertas, e francamente alegronas e travessas, devendo ser conhecidas de muitos que ali estavam, pois que com muitos trocavam gracejos; chegadas porém a mim vi-as confundidas de pelo, e abrasadas de amor; fitei bastante com a minha luneta cada uma delas, e extasiei-me, encontrando em seus corações a mais santa piedade, e profundo sentimento religioso.

É claro que concorri, como devia, para as três missas pedidas. Não podia ser de outro modo.

O que me valia, considerando as três moças, e as outras senhoras, era o seu número, e a semelhança e força igual que produziam em mim tantas belezas e tão preciosas qualidades; porque eu estava doido de paixão por todas elas, e todas elas também por mim, coitadinhas!

Como isso era não posso razoavelmente explicar; era porém assim.

Todavia em seguida as moças veio logo uma velha que me confessou ser viúva pobre, tendo seis filhos, que até aquela hora não tinham almoçado... dei-lhe esmola.

Depois da velha correu a ter comigo um cavalheiro de maneiras muito distintas, e da mais perfeita cortesia, a quem acontecera um desses pequenos infortúnios, a que todos estamos sujeitos: acabando de comer pastéis, e de beber uma garrafa de cerveja, reconhecera haver esquecido a carteira, e achava-se naturalmente muito contrariado. Fiz o que qualquer outro faria no meu caso: reconhecendo a capacidade e merecimento do cavalheiro, que me pareceu trigo sem joio, entreguei-lhe a quantia necessária para pagar a despesa que fizera.

Mas após o nobre cavalheiro avançavam lá para mim dez ou doze rapazes ao mesmo tempo, quando um venerando ancião, tomando-lhes os passos, e censurando-os com algumas breves, mas severas palavras, chegou-se ao banco que eu ocupava e disse-me:

—Mancebo inexperiente! Não vê, não sente, que está sendo vítima da zombaria de gente sem generosidade ou de maus costumes?... Para que deita fora o seu dinheiro?... Aqueles e aquelas que lho tomaram, simulando morte de filho, missas pedidas, fome de família, esquecimento de carteira, estão ali dentro da confeitaria, rindo às gargalhadas da sua inverossímil credulidade, comendo e bebendo à sua custa.

Fixei a luneta e vi: o velho era respeitável como as suas cãs, puro como os mártires da fé, verdadeiro como um axioma, severo como a lei, austero como a própria virtude, justo como a sentença da sabedoria.

—Que me diz, meu amigo?

—Eu não sou seu amigo, pois que nem o conheço; dói-me porém vê-lo deixar-se depenar por mulheres perdidas, e homens sem brio.

—É demais... tenho razão para reputá-las, e reputá-los dignos de toda a consideração...

—Infeliz moço! murmurou o ancião.

E logo depois tomando-me pelo braço, e obrigando-me a deixar o banco, acrescentou:

—Retire-se; recolha-se a casa; diga a seus parentes que cuidem mais e melhor do senhor.

—Os meus parentes!... esses declararam-me guerra... são ótimas pessoas, e muito me amam; mas alucinados perseguem-me...

—Como?

—Acreditam que sou... talvez maníaco, e querem nomear-me curador.

—Deixa-me dizer-lhe a verdade?

—Sem dúvida...

—Seus parentes tem razão.

Quase que me rompeu da garganta o grito de misericórdia! Fiquei como assombrado. O ancião repetiu:

—Pobre moço! Recolha-se a casa.

E empurrando-me suavemente pelos ombros, foi sentar-se.

Eu apartei-me do Boulevard Carceller aflito, quase desesperado, e tanto mais que escutava atrás de mim, e no lugar donde me retirava, observações epigramáticas, tristes apreciações do meu estado, e até risadas de escárnio.

Minha situação piorava, o meu espírito se obumbrava cada vez mais, e as mais turvas e sinistras idéias começavam a invadi-lo.

Entrei com precipitados passos na Rua do Ouvidor: era a hora de mais costumada concorrência.

Eu mantinha a minha luneta sempre fixada; mas fixada sem consciência porque não queria ver, e não via; também não desejava ouvir, porém ouvia.

(continua...)

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