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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

— Por que lhe falaste nesse tom? Naturalmente a trataste por senhora como da primeira vez; e lhe fizeste duas ou três barretadas. Essas borboletas são como as outras, Paulo; quando lhes dão asas, voam, e é bem difícil então apanhá-las. O verdadeiro, acredita-me, é deixá-las arrastarem-se pelo chão no estado de larvas. A Lúcia é a mais alegre companheira que pode haver para uma noite, ou mesmo alguns dias de extravagância. 

 

Acabamos de jantar e não tocamos mais no assunto. 

 

— Tens que fazer sábado depois do teatro? perguntou-me Sá com um sorriso maligno. 

 

— Nada, senão dormir.  

 

— Pois vá cear comigo. Dormirás durante o dia. Asseguro-te que não perderás o teu tempo. 

 

— Até sábado, então. 

 

Esta conversa desgostou-me; porque me fez parecer ainda mais ridículo aos meus olhos. 

 

Tinha uma vaga desconfiança, pelo tom do convite, de que Lúcia iria à casa do Sá; e protestei que antes disso me reabilitaria de minha estúrdia ingenuidade. 


IV 

 

No dia seguinte à mesma hora voltei à casa de Lúcia; achei-a ao piano. 

 

— O que estava tocando? 

 

— Nem sei!... Uma valsa que aprendi de ouvido. 

 

— Continue! 

 

— Não sei tocar, não! Estava brincando; não tinha que fazer. Como passou de ontem? 

 

— Bem, obrigado. Já vê que a minha segunda visita não se demorou muito. 

 

— Ainda assim não compensa a demora da primeira. 

 

— Sentiu essa demora?... Qual! ontem nem me conheceu. 

 

— Tanto como na Glória. Ainda que se tivessem passado anos, creio que em qualquer parte onde me encontrasse com o senhor, o reconheceria. 

 

— Por que motivo então fingiu ontem não se lembrar de mim, logo que entrei? 

 

— Por quê?... Queria ver uma coisa. 

 

— E não se pode saber o que era? 

 

— Não é preciso! 

 

— Há de me dizer!... 

 

E tomei-lhe as mãos que estavam frias e trêmulas. 

 

— Pois bem, eu lhe digo. Queria ver se ainda se lembrava do nosso primeiro encontro, respondeu ela furtando o corpo ao meu abraço. 

 

— Duvidava?... Não tinha razão; talvez fosse eu o que melhor guardasse essa lembrança. 

 

Lúcia abanou a cabeça lentamente: 

 

— Que vestido levava eu naquela tarde? perguntou sorrindo. 

 

A pergunta embaraçou-me. Quando admiro uma mulher bonita, a impressão que ela produz em mim não me deixa ver mais que a sua beleza. 

 

— Nem se recorda! 

 

— É um defeito meu. Não reparo na toilette das moças bonitas pela mesma razão por que não se repara na moldura de um belo quadro. 

 

— Que desculpa!... E eu por que reparei no seu traje, na cor de sua sobrecasaca, em tudo; até na sua bengala? Não é esta; a outra era mais bonita; tinha o castão de marfim. Está vendo que me lembro perfeitamente, e entretanto não tenho esses objetos diante dos olhos! 

 

— Ah! É este o vestido? 

 

— O vestido, as jóias, o penteado, o leque, aquele que o senhor apanhou. Nem desse se lembrava! Só falta o chapéu! Quer vê-lo? 

 

Lúcia saiu um instante e voltou. Ou porque a minha memória se avivasse, ou porque a ausência desse gentil chapéu, que parecia fugir-lhe da cabeça, tão de leve a cingia, mutilasse a graciosa imagem que eu vira na tarde de minha chegada; o fato é que a aparição já desvanecida surgira de repente aos meus olhos. 

 

— Agora lembro-me! Estou vendo-a como a vi da primeira vez! 

 

— Como daquela vez não me verá mais nunca! 

 

— O que lhe falta? 

 

— Falta o que o senhor pensava e não tornará a pensar! disse ela com a voz pungida por dor íntima! 

 

Não compreendi então aquelas palavras, nem o tom com que foram proferidas; procurei-lhes o sentido, acompanhando com os olhos a Lúcia que tirava lentamente o chapéu, e fitava na sua imagem refletida pelo espelho um triste olhar. 

 

— Ah! já sei! O que eu pensava?... Mas ainda penso: acho-a hoje tão bonita ou mais do que naquela tarde. 

 

— Não é isto! 

 

— O que é então? Venha dizer-me. 

 

(continua...)

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