Por Machado de Assis (1858)
Sempre graciosa!
ROSINHA
Se eu o acreditar, arrisca-se a perder a liberdade... tomando uma capa...
DURVAL
De marido, queres dizer (à parte) ou de um urso! (alto) Não tenho medo disso. Bem vês a alta posição... e depois eu prefiro apreciar-te as qualidades de fora. Talvez leve a minha amabilidade a fazer-te uma madrigal.
ROSINHA
Ora essa!
DURVAL
Mas, fora com tanto tagarelar! Olha cá! Eu estou disposto a perdoar aquela carta; Sofia vem sempre ao baile?
ROSINHA
Tanto como o imperador dos turcos... Recusa.
DURVAL
Recusa! É o cúmulo da... E por que recusa?
ROSINHA
Eu sei lá! Talvez um nervoso; não sei!
DURVAL
Recusa! Não faz mal... Não quer vir, tanto melhor! Tudo está acabado, Sra. Sofia de Melo! Nem uma atenção ao menos comigo, que vim da roça por sua causa unicamente! Recebe-me com agrado, e depois faz-me destas!
ROSINHA
Boa noite, Sr. Durval.
DURVAL
Não te vás assim; conversemos ainda um pedaço.
ROSINHA
Às onze horas e meia... interessante conversa!
DURVAL
(sentando-se)
Ora que tem isso? Não são as horas que fazem a conversa interessante, mas os interlocutores.
ROSINHA
Ora tenha a bondade de não dirigir cumprimentos.
DURVAL
(pegando-lhe na mão)
Mal sabes que tens as mãos, como as de uma patrícia romana; parecem calçadas de luva, se é que uma luva pode ter estas veias azuis como rajadas de mármore.
ROSINHA (à parte)
Ah! hein!
DURVAL
E esses olhos de Helena!
ROSINHA
Ora!
DURVAL
E estes braços de Cleópatra!
ROSINHA (à parte)
Bonito!
DURVAL
Apre! Queres que esgote a história?
ROSINHA
Oh! não!
DURVAL
Então por que se recolhe tão cedo a estrela d'alva?
ROSINHA
Não tenho outra coisa a fazer diante do sol.
DURVAL
Ainda um cumprimento! (vai à caixa de papelão) Olha cá. Sabes o que há aqui? um dominó.
ROSINHA
(aproximando-se)
Cor-de-rosa! Ora vista, há de ficar-lhe bem.
DURVAL
Dizia um célebre grego: dê-me pancadas, mas ouça-me! - Parodio aquele dito: - Ri, graceja, como quiseres, mas hás de escutar-me: (desdobrando o dominó) não achas bonito?
ROSINHA
(aproximando-se)
Oh! decerto!
DURVAL
Parece que foi feito para ti!... É da mesma altura. E como te há de ficar! Ora, experimenta!
ROSINHA
Obrigado.
DURVAL
Ora vamos! experimenta; não custa.
ROSINHA
Vá feito se é só para experimentar.
DURVAL
(vestindo-lhe o dominó)
Primeira manga.
ROSINHA
E segunda! (veste-o de todo)
DURVAL
Delicioso. Mira-te naquele espelho. (Rosinha obedece) Então!
ROSINHA
(passeando)
Fica-me bem?
DURVAL
(seguindo-a)
A matar! a matar! (à parte) A minha vingança começa, Sra. Sofia de Melo! (a Rosinha) Estás esplêndida! Deixa dar-te um beijo?
ROSINHA
Tenha mão.
DURVAL
Isso agora é que não tem graça!
ROSINHA
Em que oceano de fitas e de sedas estou mergulhada! (dá meia-noite) Meia-noite!
DURVAL
Meia-noite!
ROSINHA
Vou tirar o dominó... é pena!
DURVAL
Qual tirá-lo! fica com ele. (pega no chapéu e nas luvas)
ROSINHA
Não é possível.
DURVAL
Vamos ao baile mascarado.
ROSINHA
(à parte)
Enfim. (alto) Infelizmente não posso.
DURVAL
Não pode? e então por quê?
ROSINHA
É segredo.
DURVAL
Recusas? Não sabes o que é um baile. Vais ficar extasiada. É um mundo fantástico, ébrio, movediço, que corre, que salta, que ri, em um turbilhão de harmonias extravagantes!
ROSINHA
Não posso ir. (batem à porta) [à parte] É Bento.
DURVAL
Quem será?
ROSINHA
Não sei. (indo ao fundo) Quem bate?
BENTO
(fora com a voz contrafeita)
(continua...)
ASSIS, Machado de. Hoje avental, amanhã luva. In: ASSIS, Machado de. Teatro de Machado de Assis. São Paulo: Martins Fontes, 2003.