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#Dramas#Literatura Brasileira

Amor e Pátria

Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)

Velasco – Senhor, não procuro arrebatar-lhe um segredo; sei que um negro pesar atormenta o seu coração, e que um desejo ardente se agita no seu espírito. Plácido – Como?...que quer dizer?

Velasco – O pesar nasceu de uma denúncia caluniosa e malvada: o desejo é de saber o nome do miserável denunciante.

Plácido – É isso, é isso mesmo: quero saber esse nome...diga e ...

Velasco – Vou dizê-lo, senhor; antes, porém, é força que eu traga à sua memória os benefícios que lhe devo.

Plácido – Perderá assim um tempo muito precioso: diga-me o nome do meu denunciante.

Velasco – Ouça primeiro, senhor: cheguei, há três anos, da ilha do Faial, minha pátria, e desembarcando nas parias do Rio de Janeiro, achei-me só, sem pão, sem protetor, sem amparo; mas o senhor Plácido condoeu-se de mim, recebeu-me em sua casa, fez-me seu caixeiro, deu-me a sua mesa, deu-me o teto que me abrigou, e enfim abriu-me o caminho da fortuna: já estabelecido há um ano, chegarei um dia a ser talvez um rico negociante, graças unicamente ao seu patrocínio. A meus pais devi acidentalmente a vida; ao senhor Plácido devo tudo, tudo absolutamente, e portanto, é vossa mercê para mim ainda mais do que são meus pais.

Plácido – Senhor, antes dos pais, Deus, e a pátria somente; mas a que vem essa história?...

Velasco – Repeti-a para perguntar-lhe agora se um homem que lhe deve tanto poderia procurar enganá-lo?

Plácido – Senhor Velasco, nunca duvidei da sua honra, nem da sua palavra.

Velasco – E se eu, pronunciando agora o nome do seu denunciante, quebrar uma das fibras mais delicadas do seu coração? Se...

Plácido – Embora...eu devo, eu quero saber esse nome...

Velasco – Pois bem: o seu denunciante...foi...

Plácido – Acabe...

Velasco – O senhor Luciano.

Plácido – Mente!

Velasco – Senhor Plácido!...

Plácido – Perdoe-me...fui precipitado; mas Luciano...não...não é possível!

Velasco – E no entanto foi ele!

Plácido – Está enganado: Luciano é a honra...

Velasco – Tenho um patrício empregado na polícia, e dele recebi esta confidência: vi a denúncia escrita pela letra do senhor Luciano.

Plácido – Meu Deus! É incrível! (Reflete) Não... Luciano não pode ser; o noivo de minha filha...o meu filho adotivo...o meu...não, não: é falso.

Velasco – Cumpri o meu dever; o mais não pe da minha conta; rogo-lhe somente que não comprometa o meu amigo, que perderia o seu emprego se descobrisse que...

Plácido – Pode sossegar...não o comprometerei; mas Luciano!... com que fim cometeria ele uma ação tão indigna?

Velasco – Senhor Plácido, a sua pergunta não é difícil de ser satisfeita: o senhor Luciano há dois dias que não deixa a casa do ministro José Bonifácio: uma deportação pronta e imediata precipitaria o casamento desde tanto por ele suspirado, e ao mesmo tempo deixaria em suas mãos a riqueza imensa do deportado, ficando o segredo da traição oculto nas sombras da polícia.

Plácido – Quem poderia acreditá-lo!... Mas... realmente todas as presunções o condenam: há pouco ele tremeu e confundiu-se, ouvindo Prudêncio dizer que o tinha visto ontem entrar duas vezes na casa do ministro: a carta da mulher do intendente diz que o denunciante é um ingrato, que tudo me deve, que eu acolhi em meu seio, é de quem tenho sido o constante protetor... Oh! miséria da humanidade!...oh! infâmia sem igual! Foi ele! O caluniador, o infame; o denunciante foi Luciano!

Velasco – Ainda bem que a verdade brilha a seus olhos; mas... não se exaspere: a inocência triunfará e o crime deve ser condenado ao desprezo.

Plácido – Ao desprezo? Não: o seu castigo há de ser exemplar: juro, que um ingrato não será o esposo de minha filha; o demônio não se há de unir a um anjo de virtudes: oh! o céu me inspira ao mesmo tempo o castigo do crime e o prêmio do mérito. Senhor Velasco, há dois meses pediu-me o senhor a mão de minha filha, e eu lhe recusei, dizendo que Afonsina estava prometida em casamento a Luciano; pois bem, o motivo da recusa desapareceu: minha filha será sua esposa.

Velasco – Senhor...

Plácido – Recusa a mão de minha filha?...

Velasco – Oh! não, mas a senhora Dona Afonsina ama ao senhor Luciano.

Plácido – Aborrecê-lo-á dentro em pouco: minha filha ama somente a virtude, e um ingrato há de inspira-lhe horror.

Velasco – Mas eu nem mesmo assim serei amado: e em tal caso...

Plácido – Respondo pelo coração de Afonsina; não pretendo coagi-lo...

Velasco – Senhor, é a felicidade que me está oferecendo; abre-me as portas do céu: e pensa que eu hesitarei em beijar-lhe a mão, recebendo de sua boca o nome de filho?

(continua...)

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