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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

O bom velho expôs as proporções da minha miopia física e pediu remédio para ela; ouvi logo abrir gavetas, e em breve começou o ensaio das mais fortes lunetas de vidro côncavo.

Reis desprezou os vidros dos números mais altos das vinte e duas forças: principiou por fazer-me experimentar um do grau quatro e perdeu completamente o seu tempo: deixou de lado os vidros côncavos do grau três e deu-me uma luneta da forca número dois, e ainda assim não pude ler o titulo de um livro que me apresentou, senão depois que cheguei o livro a duas polegadas de distancia dos olhos.

—É muito míope disse ele.

E desceu enfim ou antes subiu ao vidro do grau número um, o último, o non plus ultra dos vidros côncavos, e recuou espantado, ouvindo-me dizer que não via mais nem menos. —É incrível! exclamou.

—É portanto?... perguntei tão abatido que nem pude acabar a frase.

—Não tenho recurso que lhe aproveite, respondeu-me com tristeza profunda.

Deixei cair a cabeça sobre o peito: a extrema esperança que eu concebera poucas horas antes, acabava de apagar-se completamente; tive vontade de chorar e murmurei em tom queixoso:

—E todavia eu vinha tão cheio de confiança! esperava tanto!

—Que quer?... o poder humano que é o poder da ciência, ainda não foi além dos instrumentos que inutilmente experimentou.

—Ah! é que o meu amigo chegou a fazer-me acreditar que o senhor era mais do que um simples homem, era uma espécie de ente sobrenatural, um mago, um realizador de impossíveis principalmente em matéria de instrumentos óticos.

—O seu amigo que é também meu, exagerou muito as minhas pobres condições; eu não creio na magia; mas se lhe apraz consultar um pretendido mágico, é coisa fácil.

—Como?...

—Mandei contratar na Europa um artista de merecimento superior para os trabalhos das minhas oficinas, e chegou-me no ultimo paquete um armênio de habilidade extraordinária; mas que me desagrada por ter pretensões a muito sabido em magia.

—Ainda uma esperança! exclamei; eu me abraço com a mais tênue, com a mais dúbia, e até mesmo com a mais louca. Onde está o armênio?...

—Em um pequeno gabinete no fundo da casa, e ai dorme de dia e trabalha de noite e sempre só: é um maníaco.

—Poderia eu falar-lhe?

—Vou mandá-lo chamar.

—Entender-me-á ele?...

—Fala perfeitamente todas as línguas em que lhe falam.



X

Entramos para a casa das oficinas; porque o armênio não gostava de mostrar-se no armazém.

Vou dizer com inteira verdade o que ouvi e o que o bom velho meu amigo viu e me referiu miudamente tanto nesta ocasião, como à hora da meia-noite no gabinete misterioso, Passados apenas alguns minutos o armênio apareceu.

Era um homem alto, magro e com os ossos muito salientes: trazia os cabelos crescidos, o rosto contraído, a face macilenta enegrecida pela fumaça; suas mãos enormes estavam empoeiradas, e seus dedos coroados por grandes unhas pareciam garras; vestia calças e blusa de pano vermelho.

—Que pretendem de mim? perguntou ele em português.

Não me animei a falar; o bom velho, meu amigo, também não ousou fazê-lo: foi o Reis quem falou por mim, expondo a minha Infelicidade, e a desesperada esperança que eu concebera.

O armênio se aproximou de mim, considerou-me durante alguns instantes, examinou-me os olhos, apalpou-me os ossos do crânio, e mostrando-se compadecido, disse: —Não te quero mal, e o dia é mau; hoje é sábado, e os gênios sinistros predominam: escolhe outro dia, e eu te darei a vista. O Reis fez um movimento denunciador da sua incredulidade.

O armênio encarou-o fixamente, e depois perguntou-lhe:

—Duvida sempre?

—Não duvido, tenho a certeza de que a sua magia não é impostura somente porque é lamentável mania.

O armênio desatou a rir; devia ser um rir medonho, porque foi longa e estridente gargalhada, e porque, segundo me disse o velho, ele não tinha um único dente.

—De que ri assim?... inquiriu o Reis.

—Do triunfo e do mal: duvidam do meu poder, e vou prová-lo: eis o triunfo; infiltrarei o ceticismo na alma de um inocente mancebo eis o mal.

Tive um ímpeto de coragem, avancei um passo e perguntei-lhe:

—Dar-me-ás a vista?...

—Sim, e mais penetrante do que a desejas.

—Como?

—A experiência te responderá.

—E tu por que não?...

—Que te importa?... já o disse: terás vista mais penetrante do que desejas e pensas; queres? —Por que modo a terei?

—Dando-te eu uma luneta mágica.

—Quando?

—Hoje mesmo e amanhã, na hora em que acabará o dia de hoje para começar o dia de amanhã, à meia-noite;

—E o teu prêmio?

—Será a tua próxima convicção de que é melhor ser cego, do que ver demais.

—Aceito.

—É o mal.

—Aceito.

—É o gelo no coração!

—Aceito.

—E o ceticismo na vida!

—Aceito.

—Por que, criança?...

—Porque eu quero ver.

—Veras demais!

(continua...)

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