Por Machado de Assis (1868)
Quando saíram, o deputado disse ao médico:
- Meu amigo, você é desleal comigo...
- Por quê? perguntou Estêvão meio sério e meio risonho, não compreendendo a observação do deputado.
- Sim, continuou Meneses; você esconde-me um segredo...
- Eu?
- É verdade: e um segredo de amor.
- Ah!. .. disse Estêvão; por que diz isso?
- Reparei há pouco que, ao passo que os mais conversavam em política, você pensava em uma mulher, e mulher... lindíssima...
Estêvão compreendeu que estava descoberto; não negou.
- É verdade, pensava em uma mulher.
- E eu serei o último a saber?
- Mas saber o quê? Não há amor, não há nada. Encontrei uma mulher que me impressionou e ainda agora me preocupa; mas é bem possível que não passe disto. Aí está. Éum capítulo interrompido; um romance que fica na primeira página. Eu lhe digo: há de me ser difícil amar.
- Por quê?
- Eu sei? custa-me a crer no amor.
Meneses olhou fixamente para Estêvão, sorriu, abanou a cabeça e disse:
- Olhe, deixe a descrença para os que já sofreram as decepções; o senhor está moço, não conhece ainda nada desse sentimento. Na sua idade ninguém é céptico... Demais, se a mulher é bonita, eu aposto que daqui a pouco há de dizer-me o contrário.
- Pode ser... respondeu Estêvão.
E ao mesmo tempo entrou a pensar nas palavras de Meneses, palavras que ele comparava ao episódio do Teatro Lírico.
Entretanto, Estêvão foi ao convite de Madalena. Preparou-se e perfumou-se como se fosse falar a uma noiva. Que sairia daquele encontro? Viria de lá livre ou cativo? Já seria amado? Estêvão não deixou de pensá-lo; aquele convite parecia-lhe uma prova irrecusável. O médico entrando num tílburi começou a formar vários castelos no ar.
Enfim chegou à casa.
Capítulo VI
Madalena estava na sala acompanhada de um filho.
Ninguém mais.
Eram nove horas e meia.
- Viria eu cedo demais? perguntou ele à dona da casa.
- O senhor nunca vem cedo.
Estêvão inclinou-se.
Madalena continuou:
- Se me acha só, é porque, tendo enfermado um pouco, mandei desavisar as poucas pessoas que eu havia convidado.
- Ah! mas eu não recebi...
- Naturalmente; eu não lhe mandei dizer nada. Era a primeira vez que o convidava; não queria por modo algum arredar de casa um homem tão distinto.
Estas palavras de Madalena não valiam cousa alguma, nem mesmo como desculpa, porque a desculpa é fraquíssima.
Estêvão compreendeu logo que havia algum motivo oculto.
Seria o amor?
Estêvão pensou que era, e doeu-se, porque, apesar de tudo, sonhara uma paixão mais reservada e menos precipitada. Não queria, embora lhe agradasse, ser objeto daquela preferência; e mais que tudo achava-se embaraçadíssimo diante de uma mulher a quem começava a amar, e que talvez o amasse. Que lhe diria? Era a primeira vez que o médico achava-se em tais apuros. Há toda a razão para supor que Estêvão naquele momento preferia estar cem léguas distante, e contudo, longe que estivesse pensaria nela.
Madalena era excessivamente bela, embora mostrasse no rosto sinais de longo sofrimento. Era alta, cheia, tinha um belíssimo colo, magníficos braços, olhos castanhos e grandes, boca feita para ninho de amores.
Naquele momento trajava um vestido preto.
A cor preta ia-lhe muito bem.
Estêvão contemplava aquela figura com amor e adoração; ouvia-a falar e sentia-se encantado e dominado por um sentimento que não podia explicar.
Era um misto de amor e de receio.
Madalena mostrou-se delicada e solícita. Falou no merecimento do rapaz e na sua nascente reputação, e instou com ele para que fosse algumas vezes visitá-la.
Às 10 horas e meia serviu-se o chá na sala. Estêvão conservou-se lá até às 11 horas.
Chegando à rua o médico estava completamente namorado. Madalena tinhao atado no seu carro, e o pobre rapaz nem vontade tinha de quebrar o jugo.
Caminhando para casa ia ele formando projetos: via-se casado com ela, amado e amante, causando inveja a todos, e mais que tudo feliz no seu interior.
Quando chegou à casa, lembrou-se de escrever uma carta que mandaria no dia seguinte a Meneses. Escreveu cinco e rasgou-as todas.
Afinal redigiu um simples bilhete nestes termos: Meu amigo.
Você tem razão; na minha idade crê-se; eu creio e amo. Nunca o pensei; mas é verdade.
Amo... Quer saber a quem? Hei de apresentá-lo em casa dela. Há de achá-la bonita. . . Se o é. . .!
A carta dizia muitas cousas mais; era tudo, porém, uma glosa do mesmo mote.
Estêvão voltou à casa de Madalena e as suas visitas começaram a ser regulares e assíduas.
(continua...)