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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

Ana adiantou-se para mim, e dando-me a mão como costumava, apresentou rubescente a fronte pura e angélica. Admirado não sabia o que fizesse, quando por cima da loura cabeça da menina vi o gesto imperativo de Lúcia. Toquei com os lábios a raiz daqueles cabelos sedosos que ondulavam com o sopro de minha respiração. Ana teve um estremecimento intimo; e banhou-se na onda de púrpura que descendo-lhe da fronte, derramou-se pelas espáduas, roseando a branca escumilha. 

 

— É assim que se deve dizer adeus quando se quer bem! exclamou Lúcia, abraçando a irmã. 

 

Partimos para a missa, como de costume. Lúcia e a irmã com os braços enlaçados, eu a alguma distância, passando por desconhecidos que seguiam o mesmo caminho. Mas de longe mesmo, um olhar rápido trocado a furto, um gesto imperceptível, nos aproximava um do outro no meio da multidão. 

 

Ambas trajavam de preto, com véus espessos; elas sentiam quanto é tocante o uso de só penetrar na casa de Deus ocultando a beleza sob a gala triste e grave, que prepara o espírito para o santo recolho. 

 

De volta da missa, tomaram de novo as suas alvas roupas de casa, e vieram sentar-se junto de mim; porém Lúcia que costumava ficar entre nós, trocou o lugar com a irmã. Toda a nossa vida era tão igual, e sucedia-se com tal regularidade, que essa circunstância não me podia escapar. 

 

Apesar da separação, em que não tinha de todo perdido a minha fagueira esperança, aproveitava o momento em que a menina voltava o rosto, para suplicar Lúcia com um gesto; ela respondeu com um olhar de tão fria severidade que gelou-me. 

 

— Ana, vai mandar deitar o almoço. Paulo hoje acordou muito cedo! 

 

Acompanhou com os olhos a irmã até que ela desapareceu no fundo do corredor; e voltou-se para mim séria e recolhida: 

 

— Foi uma loucura! Esqueçamos esse momento, Paulo. 

 

— Se tivesses verdadeira afeição a teu amigo, Maria, não o tratarias com tanta severidade! 

 

— Paulo! Paulo... Tu bem sabes que com esta palavra me farias cometer crimes, se crimes fossem necessários para te provar que eu só vivo da vida que me dás, e me podes tirar com um sopro. Não sou eu criatura tua? Não renasci pela luz que derramaste em minha alma? Não és meu senhor, meu artista, meu pai e meu criador? 

 

Fez-me um gesto para que não a interrompesse. 

 

— Tu podes me fazer voltar à treva de que me arrancaste; podes estancar as fontes de minha existência que manam de tua alma; e não me hás de ouvir uma só queixa. A dor, como a alegria, serão sempre benditas, porque virão de ti. Mas, Paulo, a súplica do humilde não ofende. Deus a permite e exalça. Não me retires a graça e a bênção que me deste! Salva-me, Paulo! Salva-me de ti. Salva-me de mim mesma!... 

 

Deixou-se cair a meus pés, e sua voz espedaçou-se num grito pungente: 

 

— De mim que não terei forças para resistir, se a tua coragem me não exaltar. 

 

Ergui-a, fazendo-a sentar nos meus joelhos. Ela deixou-se atrair, com meiga confiança. Seu instinto sutil lhe dizia que não devia temer naquele momento; adivinhava o respeito e a unção de que minha alma a envolvia, santificando-a. 

 

— Maria, minha amiga, sossega! Se for preciso, eu terei força por nós ambos. Perdoa-me, porque te ofendi; não soube resistir. Não sucederá mais nunca, eu te prometo! Recobra o teu sorriso celeste, que me purifica! 

 

Lúcia sorriu; nesse sorriso banhou-se minha alma e eu a senti melhor e mais pura. 

 

—Tu és bom, como Deus, que me deu a ti, Paulo, para não esperdiçar as sobras de tua alma. Tu deves ler dentro de mim, e compreender o que eu não sei dizer, o que não sei nem mesmo pensar. A vida como tu ma fizeste é a bem-aventurança, porque vivo já no céu. Entre nós ambos nada existe; tu me absorves em ti, somos um: em torno de nós só Deus que nos protege, que nos une, e envolve-nos com um único de seus olhares. Tu, Paulo, tu podes tocar a terra sem quebrar essa coesão de nossas almas; porque sou uma coisa tua, uma porção de teu ser; porque te pertenço e te sigo fatalmente; porque na terra, como no céu, longe ou perto, vivo de tua vida. Mas tua Maria, o reflexo de tua luz e a flor de tua seiva, se ela caísse no pó, se desprenderia de ti para sempre... Como aqueles a quem o Senhor abandona na hora extrema! Compreendes, Paulo, compreendes ! 

 

Respondi apenas com o olhar; a voz me falecia, tanto aquelas palavras tocantes de Lúcia me comoviam. 

 

(continua...)

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