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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

Chamava em meu socorro a imaginação que por momentos perturbava com ilusões forçadas a série de graves reflexões; mas em breve a imaginação se apagava, e as frias reflexões se impunham.

A força, a meu despeito embora, não dormi e refleti.

Evidentemente eu tinha despendido muito em mês e meio... mais de quinhentos mil-réis por dia, três vezes mais do que a renda anual da minha fortuna, segundo os cálculos de meu honradíssimo irmão.

Tão avultada desposa (que eu estou certo que empreguei com proveito da humanidade), sem dúvida, conforme os costumes e o modo de ver da sociedade egoísta, e dos homens da lei que não julgam pelo coração nem pelo Evangelho, será explicada, recebida e sentenciada como dissipação, e por conseqüência, e até por amor da minha pessoa, me darão um curador!...

A visão do mal me expôs a ser trancado por doido no hospício de Pedro II, a visão do bem expõe-me a ser declarado néscio, ou idiota, ou por muito favor apenas dissipador da minha fortuna, e como tal confiado, entregue absolutamente ao domínio de um curador, de um dono e árbitro da minha pessoa, de um senhor de quem serei quase escravo!

Pela visão do mal ou pela visão do bem, pelo ódio ou pelo amor da humanidade, pelo juízo mau a respeito de todos ou pelo juízo bom a respeito de todos, as duas lunetas mágicas levaram-me ao mesmo perigo, ao mesmo fim, a mesma calamidade.

Uma, a primeira me fez passar por doido; outra, a segunda, me faz passar por néscio! Doido ou néscio, não escolho; porque a conseqüência é a mesma.

O meu curador será provavelmente o mano Américo, que concebeu e lá manifestou a horrível idéia de quebrar a minha luneta mágica.

Portanto querem condenar-me à miopia perpétua, miopia que para mim é a cegueira, é a morte no seio da vida!

Desejo, tenho o direito de desejar ver, que é viver, e não querem permitir que eu viva, não me permitindo que eu veja!...

Não! não! e não!

Hei de até o extremo defender a minha luneta mágica.

E certo que começo a conceber algumas desconfianças em relação ao acerto e à infalibilidade das revelações da visão do bem.

As contradições que notei entre a inocência dos condenados da casa de correção e as sentenças sempre instas dos magistrados, e entre os sentimentos dos amigos que ontem jantaram comigo, e os avisos leais e cheios de verdade do dono do hotel desacreditam um pouco no meu conceito a visão do bem.

Se a visão do bem fosse o apólogo vivo, a expressão real da inexperiência; se pela visão do bem eu me tenho tornado o escárnio dos parasitas, o ludibrio dos trapaceiros, a zombaria de todos, o objeto da mofa e do ridículo do povo... ah! eu preferia ter sido fulminado por um raio...

O ridículo!... o ridículo é a queda no charco; é o aviltamento sem compaixão; é o pelourinho mil vezes pior que o patíbulo; é o azorrague mais cruel que a guilhotina; é a morte pelo desprezo...

Quero antes a perseguição do ódio, do que o acompanhamento do ridículo...

E dizem que riem-se de mim... que me apontam, como estúpida vitima de homens sem consciência, e de uma mulher sem brio, e sem coração...

Eu sei, e sinto, eu tenho consciência de que tudo isso é falso; mas riem-se de mim!...

Que hei de fazer?... nem sei; quebrar a minha luneta magica, origem e causa de todas estas torturas do espírito?... não; menos isso.

O erro dos homens é patente: quem vive e procede com acerto, sou eu.

Resistirei pois aos homens, e me deixarei matar, defendendo a minha luneta mágica que meu irmão condenou.

Eu refletia assim, e tinha ia esquecido as horas e o empenho de escapar às reflexões, dormindo, quando a aurora principou a espancar as trevas, e as auras matinais, refrescando o meu cérebro, me aditaram de novo e insensivelmente com o mais tranqüilo e suave sono.



XXVI

Levantei-me às dez horas da manhã, e tinha acabado de almoçar, ouvindo o sinal de meio-dia.

Dispunha-me a sair; mas vi entrar o meu amigo Reis, que vinha de propósito visitar-me.

No Reis depositava eu e deposito confiança sem limites. Ou todos o julgam pela visão do bem da minha luneta mágica, ou se eu me engano no juízo que faço do Reis, todos se enganam comigo. Recebi o amigo Reis, como um cego, a quem se anuncia o primeiro raio de luz, e com ele a vida pelos olhos.

Apertamos as mãos, e nos sentamos um ao lado do outro.

—Temos sofrido muito ambos, e pelo mesmo erro, disse-me o Reis.

—Como?

—Eu errei, deixando-o entregar-se a um pretendido mágico; o senhor errou acreditando exageradamente nele.

—Mas se eu vejo!!!

—É porque ele conhece e esconde o segredo de elevar a maior, a mais alto, e ainda não calculado grau os vidros côncavos destinados a corrigir a miopia; tudo mais que ele emprega é delicadíssimo artifício de charlatanismo para excitar e inflamar a imaginação.

—A sua descrença é um erro...

(continua...)

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