Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
Fixei a minha luneta mágica, olhei pela abertura que deixara a chave caída da fechadura, e estudei os meus odientos parentes: apreciei primeiro olhos e faces que se abrasavam no fogo da ira, lábios convulsos, gesticulações ameaçadoras, e logo depois que pureza de intenções e que santidade de desígnios!... Meu irmão, minha tia, e a prima Anica, se mostraram tais quais realmente são, três querubins, então radiantes de fogo não de cólera, mas de verdadeiro amor, de sublime interesse por mim!... Estavam aflitíssimos e em dolorosa agitação; porque me supunham perdido no erro, e ludibrio de malandrins. O erro era dos meus três parentes e meu o acerto; mas as intenções deles indisputavelmente eram nobres, leais, desinteressadas, angélicas.
No meio porém dessas intenções veneráveis descobri firme e inabalável no animo de meu irmão a de quebrar a minha luneta mágica, e embora eu reconhecesse e reconheça a piedade dessa intenção, não pude com ela conformar-me; abençoei meu irmão, minha tia, e a prima Anica; mas tomei a peito salvar a todo transe a minha luneta mágica.
Eu estava vestido decentemente para sair à rua, só me faltava chapéu para a cabeça e porta franca para a retirada.
Com o auxilio da luneta achei no gabinete um chapéu do mano Américo, que me servia muito nas circunstâncias em que me achava, embora estivesse um pouco usado.
Faltava-me a porta para saída sem oposição; mas o gabinete abria uma janela para rua; o caso era grave e exigente; não havia recurso, e havia risco na demora da resolução; há tanta gente que de dia claro e com sol fora se presta a entrar pelas janelas em vez de entrar pelas portas, que não me pareceu anormal nem escandaloso no Brasil sair por onde se entra de ordinário para as mais altas posições do Estado.
Assim pois subi à janela do gabinete, e saltei na rua; ouvi gargalhadas, e não dei atenção a elas; apressei os passos, quase que corri, enfim afastei-me apressado da casa da minha família, como um preso, que se escapa e foge da cadeia.
XXV
Quando me achei longe de casa e me supus livre, por algum tempo ao menos, da generosa perseguição da minha família, instintivamente procurei a luneta mágica, e senti inexprimível prazer, tirando-a do seio; em seguida apalpei o bolso do paletó, e consolei-me encontrando nele a carteira, onde eu tinha ainda de reserva alguns centos de mil-réis.
Duplamente satisfeito, experimentei logo uma exigência da minha natureza animal que as recentes emoções haviam feito calar, mas que de novo falava com dobrada força: tive fome, e dirigindo-me a um dos nossos melhores hotéis, tomei sala para dormir, e mandei que me servissem o jantar.
Como é grandioso, sublime o sentimento da amizade, quando pronto corre a cercar o amigo caído na adversidade!
Apenas sentei-me para jantar, vi-me de súbito cercado por Damião e mais seis outros mancebos que me eram dedicados, e se tinham apressado a vir em meu auxílio, e a oferecer-me os seus serviços, pois que a cidade toda já sabia, o que comigo acabava de passar-se.
Com lágrimas de reconhecimento agradeci tão doce demonstração de interesse e de estima, e convidei a esses excelentes amigos para jantar comigo.
Que duas horas gozamos! A nossa mesa foi sucessivamente servida das mais delicadas iguarias, e dos vinhos mais generosos, que deliciosamente nos prenderam juntos até o anoitecer.
Acabado o jantar, declarei com franqueza que precisava descansar e imediatamente os meus ótimos amigos deixaram-me só, retirando-se a rir não sei mesmo de quê.
Ia recolher-me, quando me apareceu o dono do hotel ou chefe da casa, a quem eu já perfeitamente conhecia e estimava, como homem de verdade, singeleza e consciência.
—Sr. Simplício, disse-me ele; eu devo prevenir a V. S.ª de que esses sujeitos que daqui saíram, são todos parasitas de profissão, e exploradores da inexperiência; o senhor deu-lhes um jantar, que lhe custa cento e trinta mil-réis, e eles desceram a escada a rir descompassadamente da sua boa-fé, a que ousavam dar outro nome que não me animo a repetir.
Fixei a minha luneta mágica sobre o homem que me falava, e com espanto meu a visão do bem me fez reconhecer que ele dizia sempre e ainda desta vez a verdade; mas a visão do bem ainda também à mesa do jantar me mostrara como protótipos de amigos fiéis e dedicadíssimos os sete mancebos que acabavam de retirar-se! . . .
Fiquei suspenso, perplexo, indeciso, triste e aborrecido.
Paguei o jantar; fui deitar-me, e ou pela fadiga resultante das fortes emoções, por que naquele dia passara, ou pela mistura dos vinhos que bebera sem dúvida menos sobriamente do que costumo, adormeci logo, caindo em profundo sono.
Despertei às duas horas da madrugada, e a meu despeito, velei até o amanhecer.
Revolvia-me na cama, contra mim próprio excitado; porque não queria refletir sobre a minha situação; mas refletia.
Cerrava os olhos para dormir; mas o espírito velava.
(continua...)