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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

—Melhor o conheço eu.

—Como?

—Estudei-o perfeitamente por meio da minha luneta mágica que me dá a visão do bem. O velho Nunes é um tipo de probidade.

Américo olhou-me com a mais triste compaixão e tornou-me:

—Dez contos de reis! Deus permita que não seja esta a primeira bomba de alguma girândola de loucuras.

E tomando o chapéu, saiu apressado e como que abismado em mar de negras apreensões.

Eu estava espantado.

Para mim não havia nada mais natural, do que o velho Nunes não ter conseguido obter dez contos de réis no prazo fatal, e conseqüentemente pagar eu por ele.

Ninguém seria capaz de convencer-me de que o velho Nunes deixaria de pagar-me os dez contos de réis que eu apenas adiantara.

Era questão de tempo, demora de alguns dias ou de breves semanas.

A visão do bem não me enganava: o meu amigo Nunes é rígido como Catão, probo como a probidade mais austera.

E além de tudo isso, não é ele o feliz pai da formosa Nicota?



XXIII

Quando meu irmão entrou para jantar, tinha eu a luneta fixada, e quase o desconheci, tão descomposta pela cólera estava a sua fisionomia.

—Quebra essa luneta! exclamou furioso e com voz de trovão.

Ele avançava sobre mim; mas eu escondi no seio a luneta, e a tia Domingas e a prima Anica vieram correndo em meu socorro.

—Que é isto? perguntou a primeira assustada.

—É este doido, este frenético esbanjador, que em menos de dois meses atirou ao meio da rua trinta e dois contos de reis!...

—Misericódia! exclamou a tia Domingas.

—É possível?... disse Anica, perguntando-me.

O mano Américo trêmulo e agitado arrancou do bolso uma dúzia de letras aceitas por mim e que ele acabava de resgatar, pagando o principal e prêmios ao meu honradíssimo banqueiro, e mostrou-as às duas senhoras.

—Eis aí como este louco obtinha dinheiro para desastradamente esbanjar, fazendo avultados empréstimos a quantos velhacos quiseram abusar da sua mania, jogando e deixando-se roubar no jogo, pagando jantares e celas a cem desfrutadores, que riem-se dele, assinando centenas de mil-réis em falsas subscrições para obras pias e, o que é mais, entregando enormes somas a uma mulher desprezável, a cujos pés o idiota se ajoelha, adorando-a, como anjo de caridade!

A tia Domingas e a prima Anica pronunciaram-se violentamente contra mim, e com o mano Américo cantaram-me o mais horroroso terceto.

Conservei-me silencioso e imóvel; mas tremendo pela minha luneta mágica.

—E eu que não vi, que não adivinhei, que não compreendi o que se foi passando e naturalmente devia passar-se nestes dois meses!!! a bomba dos dez contos despertou-me hoje, sai, procurei informações; todos sabem, e somente nós ignorávamos, todos me indicaram o usurário que empresta dinheiro, e o exército de bargantes que depenam este imbecil!.. Todos zombam dele, e devem zombar; porque o néscio esbanjou em menos de dois meses a terça parte pelo menos da fortuna que possuía!

Meu irmão tinha-me insultado tanto, que não pude mais conter-me e respondi-lhe:

—Ainda bem que foi da minha fortuna o dinheiro que despendi: já tenho idade bastante para empregar o meu dinheiro, como entendo, e sem pedir licença nem dar contas a alguém.

O tercéto rebentou de novo e uma chuva de impropérios e de maldições caiu sobre mim.

—Idade! exclamou enfim o mano Américo, dominando as outras duas vozes: os néscios, os idiotas não têm idade, e aos idiotas e dissipadores nomeia-se um curador!

—É o que cumpre requerer imediatamente, bradou a tia Domingas.

—O mais acertado é não deixar o primo sair à rua, observou Anica.

—Tudo isso se fará; mas o essencial é quebrarmos-lhe lá a maldita luneta, disse Américo.

—Não, acudiu Anica; trancado em casa pode bem conservar a luneta para ver e apreciar os parentes que o não enganam...

—Nada de concessões! gritou meu irmão.

Eu tive medo; olhei em torno de mim e nada vi; porque estava sem luneta, lembrou-me porém o gabinete do mano Américo, e de improviso corri para ele, tranquei-me por dentro, e com tanta precipitação que dando volta à chave, esta saiu da fechadura, e foi cair a alguns passos longe da porta.



XXIV

A borrasca ribombava sempre e incessante na sala e eu era de continuo fulminado pelos raios de três cóleras em delírio: doestos, injúrias, aleives, pragas, insultuoso ridículo, tudo me lançavam com furor. Três ódios a falar não falariam mais venenosamente, três línguas-punhais a ferir não feririam mais profundamente.

O meu ressentimento dissipou o medo que me abatera o espírito; veio-me a vontade de examinar esses três semblantes desfigurados pelos sentimentos mais vis.

(continua...)

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