Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

Mais tarde Sá interrogou-me sobre o que se tinha passado; porém recusei constantemente satisfazer a sua curiosidade. Para que ele compreendesse o meu sofrimento, fora mister contar-lhe as minhas relações íntimas com Lúcia; e era esse mistério que invencível pudor d'alma não me deixava expor a outros olhos, fossem eles de um amigo. 

 

Achei-me num estado de apatia moral; tinha medo da iniciativa, porque vagamente pressentia que ela me arrastaria de novo à casa de Lúcia, quando não fosse senão para ter o agro prazer de insultá-la com o meu desprezo. Nessa situação era natural que Sá não encontrasse a menor resistência no que ele chamava o regime higiênico da minha paixão. 

 

Durante três dias corremos os arrabaldes da cidade. 

 

Passávamos uma tarde a cavalo por Santa Teresa na direção da Caixa d'Água, quando vimos parado defronte de uma pequena casa, reparada de novo, o Jacinto. Esse homem me atraía, pelo ímã irresistível de Lúcia; e entretanto eu o detestava. 

 

— Pertence-lhe esta casa, Sr. Jacinto? disse-lhe Sá respondendo à cortesia. 

 

— Não, senhor. Pertence a uma pessoa do seu conhecimento, à Lúcia. 

 

— Como! Lúcia vem morar numa casa térrea e de duas janelas? Não é possível. 

 

— Também eu não acreditei quando ela me falou nisso! Cuidei que estava brincando; porém é negócio sério. 

 

— Então comprou esta casa? 

 

— E mandou prepará-la. Já está mobiliada e pronta. Devia mudar-se hoje; não sei que transtorno houve. Ficou para a semana! 

 

— Está bem! São luxos de passar o verão no campo! Não lhe dou um mês que não esteja arrependida, e não volte para a sua casa da cidade. 

 

— Para essa, há de ser difícil, disse o Jacinto com um sorriso. 

 

— Por que razão? 

 

— Vendeu-me o arrendamento e toda a mobília. 

 

— Que diz! 

 

— Na quinta-feira fechamos o negócio. Dei-lhe um conto de réis de sinal. Porém o mais interessante é que mandou fazer leilão de tudo quanto possuía, inclusive jóias e roupa. 

 

— Terá ela caído na miséria? 

 

— Qual! Tem perto dos seus cinqüenta contos e quer gozar da vida tranqüilamente. Doidice; podia fazer uma fortuna, e ajudar os outros. 

 

O Jacinto cumprimentou e desceu a ladeira. A conversa que acabava de ouvir me tinha completamente perturbado; enquanto Sá aproximava-se do portão para examinar o jardim, ficara eu imóvel e perplexo. Por fim, impelido por uma força superior, segui precipitadamente o homem que levava consigo o sossego e tranqüilidade do meu espírito. 

 

Alcancei-o junto aos arcos. Procurei o pretexto do aluguel da casa em que Lúcia morara, e obtive a narração minuciosa do que se passara. Aquela desordem do leito não fora outra coisa mais que o exame de um comprador de trastes, que antes de fechar o negócio deseja conhecer o estado da mercadoria. 

 

Corri à casa de Lúcia. 

 

— Sofri muito, ainda sofro; mas sinto a necessidade de perdoar, disse-me ela grave e melancólica. 

 

Nem um transporte de alegria, nem um sobressalto de surpresa por ver-me chegar arrependido e suplicante. Recebeu-me com uma serena placidez e um olhar de meiga exprobração: 

 

— Não é generoso ofender a quem não sabe e não pode repelir a ofensa. 

Era estranha para mim a expressão de calma e serena dignidade que se difundia pelo seu rosto e por toda a sua pessoa; alguma vez já vira passar-lhe na fronte um reflexo de nobre altivez, mas de relance, como a eletricidade que lambe a face da nuvem. Naquele momento porém a luz irradiava de um foco íntimo; e na feição, como na atitude de Lúcia, aparecia profundamente impresso o pudor de uma alma ressentida. 

 

Pela primeira vez a mulher submissa, que temia ofender-me, mostrando-se ofendida de minhas injustiças, conservava contra mim uma queixa, e assumia o direito de perdoar. Admirando, aceitava  contudo essa nova situação, como tinha aceito todas as gradações por que passara a sua existência depois que nos conhecíamos. 

 

— Duvidou de mim! disse Lúcia fitando-me com os seus grandes olhos límpidos. 

 

Ia balbuciar uma desculpa; ela atalhou-me. 

 

— Não! A mulher de quem duvidou já não existe, morreu! É uma história bem triste! Ouça! 

 

Lúcia ficou um momento absorvida nas suas recordações; afinal chegando um banquinho de tapete, sentou-se aos meus pés: 

 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...5051525354...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →