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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

Esmeralda com a sua reputação de interesseira, e arruinadora de quantos a freqüentam, ainda não me impôs, nem sequer me pediu a mais insignificante despesa; quis uma vez fazer-lhe presente de uma jóia, e ela, coitadinha! respondeu-me quase chorando.

—Não lha mereço; eu sou vil, e indigna da sua bondade; se lhe é grato obsequiar-me, assine alguma quantia nesta subscrição destinada a salvar da miséria uma numerosa família.

E apresentou-me um papel, no qual achei muitos nomes, e alguns de pessoas consideráveis, que tinham contribuído com seus donativos.

Assinei e dei o dobro da maior quantia que vi subscrita.

Nobre e caridosa Esmeralda! as pobres contavam tanto com ela, que ate hoje tenho-lhe encontrado na mesa da sala mais oito subscrições para obras de misericórdia, para as quais também contribuí, como pude, a despeito da resistência, e dos protestos dessa moça tão mal julgada, dessa Madalena suave, que, eu o espero, o arrependimento há de purificar.

As subscrições têm me custado pouco mais de um conto de réis, de que fiz entrega a Esmeralda, e estou perfeitamente seguro de que ela não desviou um real do destino a que se dedicavam as quantias assinadas.

A Esmeralda é o gênio do bem. Um amigo, sem dúvida de caráter suspeitoso, procurou fazer-me acreditar que a infeliz rapariga zombava de mim, explorava a minha inexperiência, e que as subscrições eram falsas, e não passavam de velhacos e rudes laços armados ao meu dinheiro. Respondi a este aviso com o sorrir de quem abe o que faz, e como procede. Que me importam suspeitas vãs?... A visão do bem me da certeza de que Esmeralda preferiria morrer de fome a tomar para compra de seu pão a menor das quantias dadas pelos subscritores beneficentes.

Juro que o meu dinheiro foi religiosamente empregado em socorro da miséria e da orfandade.



XIV

Há oito dias que voltei pela décima vez à casa do velho Nunes, meu bom amigo, e ditoso pai da Nicota.

Eram onze horas da manhã, o velho estava fora, tratando dos seus negócios; mas a esposa e a filha me receberam com os corações abertos.

A nossa conversação para mim muito agradável prolongara-se até uma hora da tarde, quando entrou 0 velho Nunes apressado, e evidentemente dominado por dolorosa comoção.

Cumprimentou-me, falou em segredo a D. Eduvirges, e saiu de novo sem despedir-se, e muito aflito.

D. Eduvirges ficara com os olhos rasos de lágrimas, e Nicota olhava para a mãe com expressão de tanta ternura que também quase me fez chorar.

—Que há? perguntei; um amigo tem o direito de saber o motivo da aflição da família, que verdadeiramente estima; sobreveio algum infortúnio? Qual é?

—Irremediável! exclamou D, Eduvirges.

—A morte de algum parente?

—Não.

—Pois irremediável, minha senhora, só conheço a morte.

—Oh! e um depósito de dez contos de réis, que meu marido deve e não pode entregar hoje.

—Hoje?

—E sabe o que ele me disse? Disse-me que é a casa de correção que o espera, e cujas portas vão se fechar sobre ele!... em poucos dias Nunes terá esse dinheiro e muito mais; hoje porém bateu já debalde a todas as portas!... é a desonra que o espera, e que o vai matar! . . .

Nicota desfazia-se em pranto e soluços.

Imediatamente o velho Nunes voltou de novo pálido e desfigurado, e após ele um homem, e mais dois, que exigiam a entrega do depósito . . .

A dor da família foi imensa; no meio porém daquela dor de esposa e de filha, e sobretudo, contemplando as lágrimas da bela Nicota, tive, gozei suavíssima prazer.

Eu nem sabia que gozava tanto crédito no Rio de Janeiro; bastaram porém algumas palavras pronunciadas por mim para transformar toda aquela tempestade rasgada em perfeita bonança. Para resumir a história: assinei como sacador e endossante uma letra de dez contos de réis que devia vencer-se no prazo de trinta dias.

O velho Nunes jurou-me, sem que eu lhe pedisse juramento, que antes de quinze dias teria ele pago essa divida, que então se tornara em dobro dívida de honra para sua consciência.

O bom amigo abraçou-me; D. Eduvirges me ofereceu a mão que eu beijei respeitosamente, e Nicota me apresentou a fronte cândida, na qual toquei com a ponta dos meus lábios.

Tanta gratidão por duas assinaturas! tanto reconhecimento pelo saque e pelo endosso de uma letra, que o velho Nunes pagará em quinze dias!

Que família de anjos!

Eu nunca me senti tão feliz, como nesse dia.

Fiquei para jantar com aquela boa e santa gente.

A mesa do jantar bebi vinho no mesmo copo em que Nicota, sentada a um lado, apenas molhara os lábios; foi ela que trocou os nossos cálices, e seus pais não viram essa travessura, ou meiguice de moça inocente.

Como achei saboroso e excelente o vinho! pareceu-me sentir nele a delícia de um beijo de Nicota.

Bebi somente um cálix de vinho; aquele que Nicota divinizara com o contato da sua boca mimosa.

Se eu bebesse mais, ou de outro vinho, teria sido sacrílego.

(continua...)

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