Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)
—Mal julgado por alguns; mas nobilíssimo caráter! este homem é procurador de causas no foro, e muitas vezes sacrifica seus interesses pessoais, servindo a ambos os litigantes contrários no empenho da conciliação e da harmonia; com o seu trabalho honrado e sábia economia tem adquirido alguma riqueza, e sabe acudir às circunstâncias difíceis dos seus amigos, emprestando-lhes dinheiro a juros; os velhacos o chamam por isso usurário; em seu lar doméstico pede à esposa e à filha diligencia, zelo e labor para fundamento da segurança do futuro; ele trabalha, a mulher trabalha, a filha trabalha, e a riqueza da família aumenta, e com o trabalho a moralidade do lar doméstico aprofunda raízes. E um homem útil à sociedade; severo em seus costumes, austero na educação da filha, na direção da esposa, no governo da casa, é um modelo de chefe de família, um exemplar, que por muitos pais e maridos deve ser copiado. Este homem chama-se . . . ah! . . .
—Que é isto? perguntou-me o Reis, notando a minha súbita surpresa.
Este homem chama-se Nunes... perdão meu velho e bom amigo! exclamei avançando dois passos para ele; perdão!... A visão do mal me tinha pintado o senhor com horríveis cores! perdão! perdoe-me! a calúnia não foi minha, foi da visão do mal que era aleivosa e malvada!
Vendo-se reconhecido, o velho Nunes tirou o lenço que lhe cobria o rosto, e deu-me apertado abraço.
—Perdoa-me? perguntei-lhe.
—Com uma condição...
—Qual?
—Há de remir a sua dívida: hoje mesmo juntará comigo.
—Com o maior prazer.
—Então também me perdoa? perguntou-me o velho Nunes por sua vez. —O que, meu amigo?
—O mal que involuntariamente lhe causei; confesso que confiei a algumas pessoas o segredo da sua primeira luneta mágica; mas não fui eu quem inventou as falsidades que o comprometeram na opinião do povo.
—Tudo isso está passado...
—Ainda bem!
—Amigo Reis, eu quero agradecer ao armênio...
—Vou chamá-lo já, ou antes, venham comigo.
Seguimos o Reis, e quando chegávamos à porta do misterioso gabinete, esta se abriu, e o armênio apareceu, como se nos estivesse esperando.
—Para que me incomoda? disse-me ele rudemente; o dia em que precisará de mim, não chegou ainda. Deixe-me, vá gozar a visão do bem.
E trancou-nos a porta.
O velho Nunes observou, sorrindo:
—Positivamente a magia não tem escola de boa educação.
—Não, disse eu com tristeza: o armênio está ressentido da minha desobediência; ele tinha-me aconselhado que me abstivesse da visão do bem.
—Enganas-te, criança! respondeu de dentro do gabinete a voz do mágico: o que aconteceu devia acontecer.
XI
Voltamos ao armazém e nos sentamos para conversar.
Eu estava outra vez de bom humor; a resposta do armênio tinha banido minha súbita tristeza. —Então, meu amigo Reis?
—Não compreendo isto; mas em todo caso estou firmemente decidido a resistir ao armênio, e a não consentir, a não admitir no meu armazém instrumentos mágicos.
—E se os fregueses o exigirem?
—Negarei a realidade do que não compreendo.
—E se amanhã aparecer em todas as gazetas diárias da capital a noticia da minha nova luneta mágica?
—Confio na sua discrição.
—Pois não confie; fui eu que redigi a noticia.
—Oh! que fez? exclamou o Reis.
Depois serenou logo e tornou:
—Sofrerei o que já sofri; mas desta vez lançarei todas as culpas sobre o armênio que não fala e não aparece a pessoa alguma.
—Que teima!
—Não quero no meu armazém instrumento algum que não seja obra da arte e da ciência humana. Eu já teria despedido este maldito armênio, se ele não fosse o artista mais hábil consumado, e dedicado nas minhas oficinas; tudo que sai das suas mãos, do seu trabalho, pode-se dizer perfeito; mas reputo a sua pretendida ou real magia perigosa à sociedade, ofensiva da religião, capaz até de perturbar a ordem pública.
O velho Nunes desatou a rir.
—De que ri assim? perguntou-lhe o Reis.
—Da sua inocência, respondeu-lhe o velho; vivemos na terra, no pais das artes mágicas, e o senhor se arreceia de introduzir nela obras de magia! Meu amigo, o senhor está na cidade e não vê as casas.
—Como assim?
—Creia que há magias a cada canto; olhe: como é que empregados públicos, e homens de todos os misteres e condições vivem, ganhando cinco, e gastando cinqüenta em cada ano? Só por magia. Como é que um farroupilha há dois ou três anos se ostenta de súbito milionário? Só por magia. Como é que o Brasil festeja todos os anos o aniversário da sua constituição libérrima e vive, sem exceção de um dia, fora da lei constitucional e em plena ditadura, ou sob a vontade arbitrária, absoluta de quem está de cima? Só por magia. Acredite-me: há arte mágica na vida, na riqueza, no procedimento e na fortuna de muitos; há arte mágica nas misérias da administração, nas mentiras constitucionais do governo, nas zombarias feitas à opinião, no impune desprezo do povo, e até na paciência ilimitada dos que sofrem, há arte mágica..
—Basta, Sr. Nunes; no meu armazém se conversa sobre tudo, menos somente sobre dois assuntos.
—Quais?
—A vida alheia, e a política do estado.
—Pois fiquemos no que disse. Que horas são?
O Reis consultou o relógio:
—Duas e meia.
—É tempo; em nossa casa janta-se precisamente as três horas da tarde: a alegria seria completa, se o amigo Reis se sujeitasse a fazer hoje penitência conosco.
O Reis esquivou-se cortesmente ao convite, declarando que devia sua presença a um hóspede.
O velho Nunes e eu saímos.
XII
As três horas da tarde em ponto serviu-se o jantar na casa do velho Nunes.
(continua...)