Por Machado de Assis (1873)
Às seis e trinta e oito minutos apareceram os carros. Grande alvoroço na sala; as senhoras correram às janelas. Os homens olharam uns para os outros como conjurados que medem as suas forças para uma grande surpresa. Toda a comitiva entrou. As escravas da casa, que espreitavam do corredor a entrada dos noivos, causaram uma verdadeira surpresa à sinhá moça, deitando-lhe sobre a cabeça um dilúvio de folhas de rosa. Cumprimentos e beijos, houve tudo quanto se faz em tais ocasiões.
O Sr. José Lemos estava contentíssimo, mas caiu-lhe água na fervura quando soube que o tenente Porfírio não tinha chegado.
– É preciso mandá-lo chamar.
– A esta hora! murmurou Calisto Valadares.
– Sem o Porfírio não há festa completa, disse o Sr. José Lemos confidencialmente ao Dr. Valença.
– Papai, disse Rodrigo, eu creio que ele não vem.
– É impossível!
– São quase sete horas.
– E o jantar já nos espera, acrescentou D. Beatriz.
O voto de D. Beatriz pesava muito no ânimo de José Lemos; por isso não insistiu. Não houve remédio senão sacrificar o tenente.
Mas o tenente era homem das situações difíceis, o salvador dos lances arriscados. Mal acabava D. Beatriz de falar, e José lemos de assentir mentalmente à opinião da mulher, ouviu-se a escada a voz do tenente Porfírio. O dono da casa soltou um suspiro de alívio e satisfação. Entrou na sala o longamente esperado conviva.
Pertencia o tenente a essa classe feliz de homens que não têm idade; uns lhe davam 30 anos, outros 35 e outros 40; alguns chegavam até os 45, e tanto esses como os outros podiam ter igualmente razão. A todas as hipóteses se prestavam a cara e as suíças castanhas do tenente. Era ele magro e de estatura meã; vestia com certa graça, e, comparado com um boneco não havia grande diferença. A única coisa que destoava um pouco era o modo de pisar; o tenente Porfírio pisava para fora a tal ponto, que da ponta do pé esquerdo à ponta do pé direito, quase se podia traçar uma linha reta. Mas como tudo tem compensação, usava ele sapatos rasos de verniz, mostrando um fino par de meias de fio de Escócia mais lisas que a superfície de uma bola de bilhar.
Entrou com a graça que lhe era peculiar. Para cumprimentar os noivos arredondou o braço direito, pôs a mão atrás das costas segurando o chapéu, e curvou profundamente o busto, ficando em posição que fazia lembrar (de longe!) os antigos lampiões das nossas ruas.
Porfírio tinha sido tenente do exército, e dera baixa, com o que andou perfeitamente, porque entrou no comércio de trastes e já possuía algum pecúlio. Não era bonito, mas algumas senhoras afirmavam que apesar disso era mais perigoso que uma lata de nitroglicerina. Naturalmente não devia essa qualidade à graça da linguagem, pois falava sibilando muito a letra s; dizia assim: Asss minhasss botasss...
Quando Porfírio acabou os cumprimentos, disse-lhe o dono da casa:
– Já sei que hoje temos coisa boa!
– Qual! respondeu ele com uma modéstia exemplar; quem ousará levantar a voz diante de ilustrações?
Porfírio disse estas palavras pondo os quatro dedos da mão esquerda no bolso do colete, gesto que ele praticava por não saber onde havia de por aquele fatal braço, obstáculo dos atores novéis.
– Mas por que veio tarde? perguntou D. Beatriz.
– Condene-me, minha senhora, mas poupe-me a vergonha de explicar uma demora que não tem atenuante no código da amizade e da polidez.
José Lemos sorriu olhando para todos e como se destas palavras do tenente lhe resultasse alguma glória para ele. Mas Justiniano Vilela que, apesar dos pestelinhos, sentia-se impelido para a mesa, exclamou velhacamente:
– Felizmente chegou à hora de jantar!
– É verdade; vamos para a mesa, disse José Lemos dando o braço a D. Margarida e a D. Virgínia. Seguiram-se os mais em procissão.
Não há mais júbilo nos peregrinos de Meca do que houve nos convivas ao avistarem uma longa mesa, profusamente servida, alastrada de porcelanas e cristais, assados, doces e frutas. Sentaram-se em boa ordem. Durante alguns minutos houve aquele silêncio que precede a batalha, e só no fim dela, começou a geral conversação.
– Quem diria há um ano, quando eu aqui apresentei o nosso Duarte que ele seria hoje noivo desta interessante D. Carlota? disse o Dr. Valença limpando os lábios com o guardanapo, e lançando um benévolo olhar para a noiva.
– É verdade! disse D. Beatriz.
– Parece dedo da Providência, opinou a mulher de Vilela.
– Parece, e é, disse D. Beatriz.
– Se é o dedo da Providência, acudiu o noivo, agradeço aos céus o interesse que toma por mim.
Sorriu D. Carlota e José Lemos achou o dito de bom gosto e digno de um genro. – Providência ou acaso? perguntou o tenente. Eu sou mais pelo acaso.
(continua...)
Caroline Alves em 26/10/2025