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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

Se é assim realmente a visão do bem, isto é, o modo de ver e de aceitar as coisas, de apreciar os fatos, e de julgar os homens, o homem e a mulher sempre pelo lado bom, sempre pelas regras da desculpa, do perdão, do bem, do otimismo na humanidade, é um grande e enorme perigo tão fatal em suas conseqüências, como a visão do mal que é o extremo oposto.

Estas considerações começavam a perturbar-me, a incomodar-me; eu porem não podia, sem ofender a minha consciência, negar-me a confessar, a reconhecer, a proclamar o que tinha visto pela visão do bem, contemplando a Esmeralda com a minha luneta mágica por mais de três minutos.

Evidentemente eu seria indigno, malvado, se não declarasse, se não estivesse pronto a declarar a todos, e à face do mundo, que a Esmeralda é uma pobre mártir, manchada em sua vida; mas santa pelo sentimento, anjo pelo coração.

Portanto a visão do bem fazia-me adorar a Esmeralda, como eu adorava a prima Anica, e hesitar sobre a escolha, sobre a preferência entre uma senhora honesta e para, e uma mulher perdida e petulante.

A razão fria lutava com o sentimento em fogo, a reflexão com a generosidade, o juízo com o coração.

Muitas vezes eu tinha vergonha dessa minha hesitação entre a pureza e o último aviltamento... Mas hesitava sempre...

A luta era um tormento, e a visão do bem começava pois a me fazer mal.



X

Mostrei-me pensativo e menos alegre ao almoço; Anica reparou nisso, e perguntou-me docemente qual podia ser a causa da minha melancolia.

Disse-lhe que tinha dormido mal, porque levara toda a noite a sonhar com ela; a resposta a fez sorrir, e livrou-me de mais explicações.

Nada é mais agradável à mulher do que o culto, e a turificação à sua vaidade.

Logo depois sai para visitar o meu amigo Reis, e dar-lhe conta da força, e do poder maravilhoso da minha luneta mágica.

Uma vez por todas fica declarado que o público da capital, como os meus parentes o tinham feito, deixou-me com a mais completa e absoluta tolerância ou indiferença no gozo pacífico e pleno da minha nova luneta mágica, conforme o armênio o havia garantido.

Ao chegar à casa do meu amigo Reis, um homem, que com ele conversava no armazém, voltou imediatamente as costas ao ver-me entrar, dizendo-lhe em voz baixa algumas palavras.

O Reis veio logo receber-me com a sua habitual e natural amabilidade.

Sem que rogado me fizesse, confiei ao excelente amigo tudo quanto se passara no dia antecedente em relação à minha nova luneta mágica.

—E não haverá nisso ainda muita influência de imaginação? perguntou-me o Reis sorrindo-se. —Sempre incrédulo! respondi-lhe eu; não há meio de convencer a um homem que não quer ser convencido.

—Lembra-se da visão do mal?

— Muito.

—Que me diz dessa visão agora?

—Que era caluniadora e perversa.

—E por que não será traidora e falsa a visão do bem?

—Suponhamos que o seja; ainda assim a magia de que duvida é uma realidade, embora seja maléfica.

—Proponho-lhe uma experiência...

—Aceito-a.

—Vê aquele homem que nos dá as costas?

—Vejo-o

—Vou esconder-lhe o rosto com um lenço e o senhor que já o julgou pela visão do mal o julgará pela visão do bem e me dirá quem é ele.

—Estou pronto: não sei se poderei dizer quem ele seja, porque ignoro se a luneta mágica estende a tanto o seu poder; mas tenho a certeza de ver, de apreciar e de patentear o seu caráter, e as suas qualidades boas ou más.

—Experimentemos pois, disse o Reis.

E logo foi cobrir com um lenço de seda roxo o rosto do seu amigo ou freguês, que assim perfeitamente seguro de não ser conhecido, voltou-se para mim, e ficou firme, como se fosse uma estátua.

A um lado entre mim e o desconhecido o Reis nos observava risonho.

Fixei a minha luneta, e principei logo a falar, descrevendo o que via.

—Rosto comprido, magro, um pouco moreno, cabelos que começam a esbranquecer... este homem tem mais de cinqüenta anos de idade . . .

E seguidamente fiz o retrato do desconhecido.

O Reis ouvia-me admirado.

No fim de três minutos de observação senti que a visão do bem abria ao meu olhar a alma do desconhecido:

(continua...)

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