Por José de Alencar (1862)
— Queria dizer que se eu fosse Átala, poderia perder a minha alma para dar-lhe a virgindade que não tenho; mas o que eu não posso, é separar-me deste corpo!
Jantamos; nunca lauto banquete foi festejado por epicuristas, como a minha modesta colação pelos dois convivas que partilhavam o mesmo prato e bebiam no mesmo copo, rindo e brigando de qual daria ao outro uma preferência mutuamente recusada.
Às oito horas da noite acompanhei Lúcia à casa.
Poucos momentos depois de entrar ela foi ao toucador e voltou em traje de dormir; os cabelos soltos e uma longa camisola de linho, sem uma renda, nem um bordado.
— Já vais dormir?
— Vou deitar-me; estou fatigada; trabalhei hoje muito! respondeu sorrindo e tomando-me pela mão. Mas podemos conversar até dez horas. Durmo cedo agora.
O seu quarto de dormir já não era o mesmo; notei logo a mudança completa dos móveis. Uma saleta cor-de-rosa esteirada, uma cama de ferro, uma banquinha de cabeceira, algumas cadeiras e um crucifixo de marfim, compunham esse aposento de extrema simplicidade e nudez.
A idéia que primeiro me ocorreu foi que Lúcia tivera necessidade de dinheiro, e vendera os seus ricos trastes; isso me causou um aperto de coração.
— Por que esta mudança?
— Durmo aqui melhor. O outro quarto lá está como o senhor deixou.
— Nada lhe falta?
— Nada absolutamente. Admira-se de que me prive da minha rica mobília, para usar de outra mais simples?
— Decerto; foi uma despesa inútil.
— Mas o senhor não sabe que posso comprar o que me parecer sem que reparem; e não posso vender coisa alguma sem que me suponham arruinada?
— A minha questão é da preferência que dás a esses trastes ordinários sobre os teus lindos móveis de pau-cetim.
— Grande questão... Questão de mulher no fim de contas: capricho. Nesta cama que o senhor acha tão feia, e neste quarto que lhe parece tão triste, o sono é doce para mim e os sonhos alegres. Quando entro aqui, sacudo no limiar da porta, como os viajantes, a poeira do caminho; e Deus me recebe.
Dizendo estas palavras, Lúcia ajoelhou em face do crucifixo e recolheu-se numa breve oração mental; depois regaçou a roupa da cama e espreguiçou-se entre as alvas lençarias, com o voluptuoso bem-estar que sente o corpo repousando depois da fadiga.
— Como é bom adormecer assim! disse-me ela pousando a cabeça no travesseiro e fechando-me as mãos entre as suas. Fale; conte alguma história! Sou uma criança! É verdade!
— O quê?
— Não se agaste. Qual foi a primeira moça de quem o senhor gostou?
— Foi uma menina, não foi uma moça, respondi sorrindo.
— Ah ! Que idade tinha?
— Doze anos; e eu acabava de completar dezesseis.
— Oh! Conte-me como foi!
Contei; um desses idílios das primeiras flores da vida; amores infantis que balbucia o coração ignaro, como antes balbuciara o lábio a palavra indecisa; arpejos vagos que o sopro da brisa arranca das cordas de uma lira ainda não dedilhada. Essas primeiras impressões são tão ricas de sentimento, que nunca o espírito penetra nelas sem achar uma melodia arrebatadora, mais viva e mais brilhante, à medida que o homem declina para a velhice. É natural que eu falasse com animação e entusiasmo. Lúcia cerrara as pálpebras para ouvir-me, e embalada pelas minhas palavras pareceu ir adormecendo insensivelmente. Calei-me, admirando com respeitosa ternura o rosto puro e cândido que entre a alvura do linho e no repouso das paixões tomara uma diáfana limpidez.
Meus lábios roçaram apenas a tez mimosa, tanto eu receava manchar com o hálito a flor dessa alma, que se abria na sombra e no silêncio, como o cacto selvagem de nossos campos. Nesse momento Lúcia ergueu as pálpebras, e seu olhar vago, já nublado pelo sono, afagou-me docemente.
— Foi o dia mais feliz da minha vida! murmurou ela com a voz quase imperceptível.
Ainda hoje não posso compreender que força misteriosa me obrigou a respeitar um dia inteiro essa mulher, que eu possuíra, e ainda apertava nos meus braços, recebendo a carícia de seu lábio amante.
Chegando à casa, e na ocasião de dar o dinheiro para as compras, conheci que Lúcia tinha-me enganado: a soma que eu possuía estava intata.
(continua...)
ALENCAR, José de. Lucíola. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2047 . Acesso em: 21 jan. 2026.