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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

Mas eu tinha corrido toda a casa, notando essa transformação repentina, sem descobrir a autora; já estava inquieto quando pela janela da sala de jantar, a vi na cozinha, e num estado que só tanta beleza e graça podia salvar do ridículo. Figure uma moça vestida de ricas sedas, com as mangas enroladas e a saia arregaçada e atada em nó sobre o meio da crinolina; com uma toalha passada pelo pescoço à guisa de avental; vermelha pelo calor e reflexo do fogo, batendo gemas de ovos para fazer não sei que doce. Repito: era preciso ter a faceirice e gentileza daquela mulher, para nessa posição e no meio da moldura de paredes enfumaçadas, obrigar que a admirassem ainda. 

 

Fui tirá-la da sua azáfama doceira, e a trouxe confusa e envergonhada. Depois que ela reparou a desordem de seu traje, tanto quanto era possível, tomei-lhe contas severas. 

 

— Quando pedi à senhora que passasse o dia comigo, não foi para me servir nem de cozinheira, nem de costureira, nem de criada. 

 

— De que posso eu servir-lhe? 

 

— O mais grave porém não é isso: a senhora encheu a minha casa de objetos que não me pertencem, porque não os comprei. 

 

Ela tirou um papel do seio: 

 

— Oh! eu o conheço!... Tudo foi comprado com o dinheiro que tirei da sua gaveta. Aqui tem a conta. Se fiz mal em gastar sem sua ordem, ralhe comigo; suponha que eu pedi essa quantia, que o senhor decerto não me recusaria. 

 

Lúcia deu-me a conta que eu rasguei sem ler fazendo-a sentar nos meus joelhos, e cobrindo-a de beijos. 

 

— Olhe lá! Já faltou ao prometido! Mas desta vez passe; porque me perdoou. Se não se apressasse, eu mesma lhos daria. 

 

— Ainda está em tempo! 

— Não, senhor. Quero fazer valer a minha riqueza. Darei se me afiançar outra vez que aprova tudo que fiz! 

 

O ajuste foi aceito e concluído. Eram uma perfídia de Lúcia, como verá. 

 

Estive para esquecer o nosso compromisso. Lúcia escapou-se; fitando-me com um olhar de exprobração disse-me: 

 

— E sua promessa! 

 

— Não tenho forças para cumpri-la! 

 

— E eu tenho para ceder-lhe! Pois bem; restituo sua palavra, para não obrigá-lo a faltar a ela. Quer-me assim mesmo morta? 

 

Lúcia deu um passo para mim. Era realmente um corpo morto e uma feição estúpida que ela me oferecia. Repeli com vago terror. Então, serenou, e conseguiu sorrir: 

 

— Amanhã! 

 

Depois com a voz triste e grave acrescentou: 

 

— Será sempre cedo! 

 

Chegou o moleque que tinha ido à sua casa buscar um vestido; poucos instantes depois ela apareceu com um traje fresco e risonho de que tinha, mais que nenhuma mulher, o encantador segredo. Eu embalava-me na rede. Lúcia, depois que cansou de traquinar, fazendo-me cócegas, cobrindo-me o rosto com as franjas e oferecendo-me entre as malhas um beijo que eu não podia colher e se evaporava no ar, foi à estante escolher um livro, e sentou-se na esteira para ouvir-me ler. 

 

O livro que ela trouxe era esse gracioso conto de Bernardin de Saint-Pierre, que todos lemos uma vez aos quinze anos, quando ainda não o sabemos compreender; e outra aos trinta, quando já não o podemos sentir. O que seduzira Lúcia foi o nome de Paulo que ela ao entregar-me o volume mostrara sorrindo. Quando eu lia a descrição das duas cabanas e a infância dos amantes, Lúcia deixou pender a cabeça sobre o seio, cruzou as mãos nos joelhos dobrando o talhe, como a estatueta da Safo de Pradier  que por aí anda tão copiada em marfim e porcelana. 

 

De repente a voz desatou num suspiro: 

 

— Ah! meu tempo de menina! 

 

Voltei-me para ela; as lágrimas caíam-lhe em bagas; quis atraí-la, fugiu, arrebatando-me o livro das mãos. 

 

Escolhi outro livro para distraí-la; li a Átala de Chateaubriand, que ela ouviu com uma atenção religiosa. Chegando a essa passagem encantadora em que a filha de Lopes declara ao jovem selvagem que nunca será sua amante, embora o ame como à sombra da floresta nos ardores do sol, Lúcia pousou a mão sobre os meus olhos dizendo-me: 

 

— Não podíamos viver assim? 

 

— Átala tinha um motivo para resistir, Lúcia! 

 

— E eu não tenho? 

 

— Ela obedecia a um voto; e a virgindade lhe servia de defesa. 

 

Lúcia respondeu-me arrebatadamente: 

 

— Alguns espinhos que cercam a rosa, valem o veneno de certas flores? Um voto é coisa santa; mas a dor da mãe que mata seu filho é horrível. 

 

— Não te entendo! 

 

Ela demorou um instante o seu olhar ardente sobre mim, e murmurou abaixando as longas pálpebras: 

 

(continua...)

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