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#Romances#Literatura Brasileira

A Luneta Mágica

Por Joaquim Manuel de Macedo (1869)

Em breve me apercebi como que abismado em um dilúvio de arrebatadoras graças e dos mais generosos sentimentos. Não houve para a minha luneta uma só atriz francesa que não fosse prodígio; se nos primeiros três minutos uma me pareceu menos bonita, outra menos bem feita, e outra menos engraçada, passados os três minutos veio a visão do bem obrigar-me a pagar a todas elas os justos tributos da minha admiração: esta atriz cativou-me pela sua rara e esquisita sensibilidade que a tornava por agradecida e terna incapaz de resistir à flama de quem em honra de sua beleza ia confessar-se, mostrar-se rendido a seus pés; aquela deu-me o mais sublime exemplo do amor do próximo; porque abrasada nesse religioso fogo de caridade, não sabia fazer exceção no seu amor do próximo, e amava todos os próximos, como a si mesma; aquela outra, vivo e surpreendente símbolo de humildade evangélica, condescendente e submissa dobrava-se à vontade alheia, e era a escrava de cem senhores.

Declaro que tive medo de apaixonar-me por todas essas generosas e santas criaturas, em cujos olhos ardentes, feiticeiros sorrisos, requebros de corpo, e estudadas posições, descobri somente a ambição inocentíssima de agradar, o impulso da sensibilidade a mais terna, o amor do próximo ou dos próximos o mais profundo, e a humildade cristã da santa moça submissa e pronta a ser escrava de novos senhores.

Evidentemente havia para o noivo da prima Anica verdadeiro perigo na observação repetida daquelas moças tão resplendentes de inocência e de candura; delas pois desviei a minha luneta mágica, e com o coração ainda palpitante de ternura, de enlevo, quase de entusiasmo, fixei-a no rosto de uma jovem que estava sentada perto de mim.

Cabelos castanhos e ondeantes, rosto oval e de cor pálida com uns longos roxos nas faces, olhos pretos e vivos, dentes brancos iguais e em continuo rir de continuo à mostra, o peito e os braços nus e os seios e as axilas por metade fora do vestido, mãos de vadia, cintura fina, os pés calçando botinas à Benoiton e atirados em exposição, palavra solta e louca, modos descomedidos, mobilidade febril. provocação e petulância,—eis a jovem em quem eu fixara a minha luneta mágica e que não podia contar mais de vinte anos de idade.

Era pois moça e bonita; mas trazia no olhar, no falar, no rir, no proceder o letreiro da devassidão; causou-me dolorosa impressão; tive dó daquela mocidade pervertida.

Entre mim e ela estava sentado um velho de sessenta anos pelo menos, que todo impertigado a miúdo lhe falava ao ouvido, como o fazia também pelo outro lado um mancebo que evidentemente devia ser mais atendido.

A rapariga mostrava-se alegre e folgazona, e sem dúvida ria-se do velho, quando escutava os segredos do moço.

Animei-me a perguntar em voz baixa ao velho:

—Quem é esta... mulher?

—Não a conhece?... disse-me ele admirado.

—Confesso que não.

—Pois não conhece a Esmeralda?

—Esmeralda? E o seu nome de batismo?

—Quase todas as raparigas da classe desta adotam ou recebem o seu nome de guerra; a moça, que está vendo a meu lado, chama-se Esmeralda pela paixão e preferência que lhe merecem as pedras desse nome: observe o adereço que ela traz ao pescoço.

—Com efeito é riquíssimo.

—Sei bem o que ele vale: custou-me os olhos da cara.

Voltei-me com repugnância, desviando outra vez a minha luneta mágica da figura daquela mulher desgraçada, e do rosto do velho ridículo e parvo.

Pouco depois mudei de lugar e encontrei-me com aquele mancebo meu vizinho que prazenteiro, gracejador e sempre jovial, tão indigno da minha amizade me parecera julgado pela visão do mal.

Já desconfiado dessa visão caluniadora, observei-o primeiro a alguma distância por mais de três minutos, e reconheci a perfídia da minha. primeira luneta: o meu jovem amigo era o caráter mais igual, mais nobre e distinto que se podia imaginar.

Fui ter com ele, que me festejou com expansão de verdadeira alegria.

—No Alcasar! ! ! exclamou enfim; tu no Alcasar! . . .

—E verdade; começo a viver.

—Estás apenas meio perdido; mas eu vou te perder de todo.

—Como?

—Do Alcasar a uma ceia infernal é só um pulo: queres pular? —Não entendo. —Convido-te para cear com uma dúzia de demônios de ambos os sexos.

—Uma orgia...

—Pouco mais ou menos: mademoiselle tem medo de se comprometer? Corei da zombaria, e respondi:

—Aceito, se es tu que dás a ceia.

—Nessa não caia eu: quem paga a Cela é o tolo;

—E quem é o tolo?

—É o paio.

—E quem é o paio?

—É um animal que não conheces: é o velho que a Esmeralda depena.

—Conheço-o já; mas com que direito me convidas?

—O pateta do velho conta comigo e com um primo, de quem lhe falei, e que me faltou à palavra por causa de uma sobrinha, que celebra esta noite um batizado de bonecas: ficarás sendo meu primo durante a ceia, ou és mais tolo que o velho.

—Aceito o convite.

(continua...)

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