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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

 

— Já que é preciso para vê-lo! 

 

— Com que ar dizes isto! Se e um sacrifício, renuncio. 

 

— E continuará a fugir-me? Passará por mim sem olhar-me? Não; não é um sacrifício. Preferia que nos víssemos de outra maneira; mas não é possível! O senhor quer; e o meu maior prazer não é fazer-lhe todas as vontades? 

 

— Vamos almoçar; passarás hoje o dia comigo. 

 

— Só com uma condição. 

— Qual será essa condição que eu não aceite para ter o prazer de possuir-te um dia inteiro? 

 

— É... que não há de ser hoje! disse ela enrubescendo. 

 

— Começas de novo com os teus caprichos. 

 

— Então não fico! replicou atando as fitas do chapéu, e com  tom decidido. 

 

— Deixa-te disto, Lúcia. 

 

— Adeus; até amanhã. 

 

— Está bem; aceito a condição. 

 

— Dá-me sua palavra? 

 

— Faço-te um juramento se quiseres. 

 

— Não é preciso: estou satisfeita, e em paga do sacrifício, quero ser generosa. 

 

Deu-me um beijo, um só, e na fronte. 

 

— Então o beijo é permitido? disse eu sorrindo. 

 

— Da minha parte unicamente; da sua, não senhor. 

 

— Por que essa diferença? Deve haver completa igualdade. 

 

— E não há! Se eu fico com o direito de dar, o senhor não tem o de recusar? 

 

— Tu bem sabes que me faltaria a coragem! 

 

— Não é culpa minha! 

 

— E de quem é? De quem te fez tão bonita? 

 

— Já fui! disse ela sorrindo com melancolia. 

 

Realmente Lúcia estava mudada: tinha perdido o esmalte fresco e suave da tez; parecia mesmo desfeita e abatida; porém isso, longe de desmerecer a sua beleza, dava-lhe certa morbidez lânguida que a tornava ainda mais sedutora. Há dois momentos em que a rosa, a flor da beleza, tem para mim um irresistível encanto: é quando desata as mil folhas ostentando o brilho das cores e a régia altivez de sua coroa, e quando desfalece ao beijo ardente do sol, evaporando das pétalas flácidas o pálido matiz e o aroma sutil. 

 

Saí um instante depois do almoço para ir ao escritório da Companhia de Paquetes pagar o frete de umas encomendas que enviava à minha família, e para encarregá-las à solicitude de um empregado do vapor. 

 

Quando voltei, a minha casa de homem solteiro tinha sofrido uma alteração completa. Os vidros que em quinze dias já tinham adquirido uma crosta espessa dessa poeira clássica do Rio de Janeiro, como é clássica a lama de Paris, os vidros brilhavam na sua límpida transparência entre as bambinelas de cassa que um armador acabava de pregar. Os móveis espanejados tinham mudado de lugar, tomando a posição melhor e formando esse quadro harmônico, que o olhar de uma mulher esboça com a rapidez do pensamento; porque ela tem em si o instinto da forma, como a luz encerra a diversidade de cores que reflete sobre os objetos. Do recosto do sofá e das cadeiras pendiam lindas cobertas a crochê; nos vasos dos consolos se expandiam ramos de flores que embalsamavam a sala. 

 

No meu gabinete de estudo, a desordem desaparecera ao toque mágico do condão de uma fada hospitaleira: os livros arrumados na estante, e em seu devido lugar; os manuscritos reunidos sob pesos de cristal; as cartas emaçadas em ganchos de metal pregados junto à mesa e ao alcance da mão; ao lado da cadeira de braços uma cesta de palha para receber as tiras de papel, e na frente um pequeno tapete felpudo para aquecer os pés nas noites frias. 

 

Igual revolução no meu quarto de vestir. Sobre o toucador uma profusão de perfumarias e pequenos objetos de fantasia. Na cômoda a roupa estava arranjada como no tempo em que minha mãe se incumbia desse trabalho. Um dedal de ouro, um papel de botões, e preparos de costura, que se viam sobre a cadeira numa caixinha de tartaruga, indicavam que antes da arrumação, mãozinha ágil e habilidosa da costureira reparara os estragos do uso. 

 

(continua...)

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