Por José de Alencar (1862)
— É um lindo presente com efeito! disse ela chegando-se ao consolo. E uma flor tão bonita não tem perfume!...
Levantando o vaso, descobriu a carta que eu entrevira, e que ela passou-me sem ter rompido o fecho.
— Leia.
Corri os olhos pela carta; era do Cunha; insistia com Lúcia para aceitar o seu amor, oferecendo-lhe as condições mais brilhantes que poderia desejar uma mulher na sua posição. Enquanto lia, ela se aproximara da janela.
— Ah! que pena! exclamou rindo.
O vaso e a flor acabavam de despedaçar-se nas pedras da calçada. Lúcia tomou-me a carta das mãos e sem ler rasgou-a friamente.
— Não desconfie; desse menos que de qualquer outro. Já foi meu amante; uma noite vi sua mulher, que ele abandonava por minha causa, triste e pensativa. Desde esse momento deixou de existir para mim.
Lembra-se do que me dissera o Cunha no teatro? Era assim que caluniavam essa moça; porque também ela punha sobre o coração a máscara do capricho.
Tínhamos esquecido o Cunha e falávamos de outras coisas.
— Decididamente, Lúcia, não queres mais saber de mim?
— Eu!... Se é preciso, suplico-lhe de joelhos que me venha ver!
Abanei a cabeça.
— Se tens um amante e desejas guardar-lhe fidelidade, é diferente; podemos ficar amigos e ver-nos ainda de vez em quando. Mas para satisfazer um capricho pueril! Não estou disposto.
— Então se eu tivesse um amante, faria o que eu lhe peço? Viria ver-me?
— Nesse caso haveria um motivo justo, que eu respeitaria.
— Pois bem; eu tenho!
— Um amante?
— Sim!
— Quem é ele?
— Não sei. Ainda não tenho; mas terei amanhã; hoje, se quiser.
— Agora mesmo! Serei eu!
— Oh! não!
— Bem vês que não passa de um capricho. Já me tinham falado dessa tua excentricidade. Gostas de fechar a porta aos teus amantes, quando eles menos esperam; talvez para puni-los do prazer que lhes deste! É uma vingança!
— Aqueles que lhe falaram assim tinham razão; mas nenhum, fique certo, se queixará de o ter eu enganado.
XVII
Havia mais de quinze dias que já não ia a casa de Lúcia; tinha-a encontrado três ou quatro vezes na rua, e não lhe falara: fingia não vê-la.
A princípio custou-me não ceder àquele doce hábito; mas convencido como estava de que essa mulher zombava de mim, e queria ver-me representar o ridículo papel de amante titular, ou honorário, satélite de um astro que brilha para outros, paciente caudatário que as cortesãs gostam de trazer por orgulho e vaidade, revesti-me de coragem, e quebrei de uma vez com essas relações. O tempo é remédio soberano; os dias correram; a pouco e pouco fui-me resignando à separação.
Tinha aproveitado a minha liberdade para me preparar à vida séria. Mudara-me do hotel, e tomara um primeiro andar na Rua da Assembléia. As passadas necessárias para fazê-lo mobiliar e arranjar, as compras de arranjos domésticos tinham feito uma poderosa diversão que muito concorreu para fortalecer-me na resolução que havia tomado.
Contudo a lembrança de Lúcia não se apagava; eu vivia ainda das recordações da felicidade que ela me dera; e quando saía afagava sempre a esperança de encontrá-la. Se isto sucedia, apesar de minha aparente indiferença, sentia uma emoção que achava ridícula e não podia dominar. A conversa do Rochinha, ou do Cunha, me era agradável, porque dava ocasião de saber notícias dela. Uma vez me disseram que Lúcia saía freqüentemente, e passava todos os dias pela Rua do Ouvidor; a idéia de que ela o fazia para ter ocasiões de me ver consolou-me.
Uma manhã lia os jornais sobre a mesa do almoço, esperando que me servissem, quando o moleque prorrompeu na sala com o ar espantado, com que correria a anunciar-me que tínhamos fogo em casa.
— Está aí uma moça!
— Uma moça! repeti com um batimento de coração.
— O rosto dela está coberto com véu; mas eu vi!... muito bonita, sim senhor!
Quem podia ser senão Lúcia? Não me enganei. Avistando-me roçagou o véu, e disse com um triste sorriso:
— Resisti enquanto pude: não tenho mais forças. Estou pronta para tudo.
— Para tudo? perguntei sorrindo.
(continua...)
ALENCAR, José de. Lucíola. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2047 . Acesso em: 21 jan. 2026.