Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

Não me respondeu. 

 

— Manda-a embora! 

 

— Não é possível; preciso dela, mesmo para o arranjo da casa. 

 

— Bem; como eu não a posso suportar, não voltarei enquanto ela aqui estiver. 

 

A Sr.ª Jesuína tinha ouvido, o que me era completamente indiferente. Lúcia abaixara a cabeça e ficara pensativa; ao retirar-me, quando me apertava a mão, disse: 

 

— Não a encontrará mais! 

 

De fato no outro dia não encontrei a Jesuína. Lúcia estava só; todos os obstáculos e contrariedades que sofria depois de duas semanas, me tinham irritado; creio que fui até violento e grosseiro; mas debalde. A resistência era tenaz e friamente calculada. Um momento, enquanto se debatia nos meus braços, o egoísmo cruel que às vezes faz do homem uma fera, e lhe dá instintos carniceiros, levou-me a dizer-lhe com escárnio: 

 

— É a recomendação do médico? Tens medo de adoecer! 

 

— Se fosse isso! Ainda quando soubesse que morreria nos seus braços... Que morte mais doce podia eu desejar. Não; não é esse o motivo. Não houve tal recomendação, nem aqui veio médico. Repugna-me enganá-lo: tudo foi uma mentira daquela mulher. 

— Não  estiveste doente? perguntei admirado. 

 

— Tive uma ligeira indisposição. Naquele dia em que saí, andei muito e apanhei bastante sol; quando voltei, tinha dores de cabeça horríveis. O senhor chegou... E naquele momento cuidei que ia ter uma vertigem. Mas passou! 

 

— E a que veio a história daquela velha? 

 

Lúcia perturbou-se e a custo balbuciou esta explicação: 

 

— Chamei esta mulher para junto de mim porque tinha medo de estar só com o senhor. 

 

— Ah! 

 

— Ela inventou a mentira, de que eu não gostei; mas não tive  ânimo de desenganá-lo! 

 

— E por que receias estar só comigo, Lúcia? 

 

Ela hesitou; por fim prorrompeu-lhe a voz do seio arquejante: 

 

— Porque não posso fazer-lhe a vontade... Não! Sofro horrivelmente! 

 

— Isto quer dizer que eu te incomodo vindo aqui. 

 

— Ao contrário, meu Deus! É a única alegria que tenho neste mundo. Dê-me esse consolo! Venha conversar comigo! Todos os dias!... 

 

— Tenho agora muito que fazer: estou tratando de estabelecer-me. A tua conversa é bastante agradável, mas falta-me o tempo! 

 

— E nos domingos ?... 

 

— Ora Lúcia, sejamos francos. Melhor é confessares que eu te importuno. Já sabia disso; não me dirias nada de novo. 

 

Quer saber o que respondeu? 

 

— Se lhe incomoda vir aqui, eu irei vê-lo. 

 

— Para conversar?... 

 

Deixou pender a cabeça abatida. 

 

— Para isso, continuei, não se incomode. É até favor não ir; porque vendo-a não me saberei dominar, e posso causar-lhe algum horrível sofrimento. 

 

— É justo! Servi apenas para matar um desejo! E hoje nem para isso!.. . 

 

Ainda voltei uma vez à casa de Lúcia. 

 

Era natural; à medida que eu sentia essa criatura desapegar-se de mim, agarrava-me a ela com a ânsia do náufrago. Suspeitava que Lúcia tinha um amante. Queria desenganar-me; o acaso favoreceu-me. 

 

Vi entrando na sala um objeto que pela sua novidade atraiu logo a minha atenção. Era um elegante vaso de cristal cor de leite, representando uma tuberosa; a flor que lhe servia de bocal ostentava uma camélia soberba; o ciúme, que é instinto e faro da paixão, descobriu logo entre o pé do vaso e o mármore do consolo a ponta de uma carta em papel rosa. 

 

Lúcia teve um sobressalto quando entrei. Podia ser um assomo de alegria, por me ver depois de três dias de ausência; podia ser também um movimento de contrariedade. Atribui ao segundo motivo. 

 

— Estavas esperando alguma pessoa? 

 

— Já ninguém me visita. 

 

— Por que razão? 

 

— Os meus antigos amantes se enfastiaram de mim! disse com voz amarga. 

 

— Virão novos! Já eles se anunciam! respondi indicando a camélia. É naturalmente pela pessoa que te mandou esta flor, que esperas. 

 

Lúcia ergueu os olhos surpresos e pareceu ver pela primeira vez o vaso e a camélia. 

 

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...4142434445...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →