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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

O homem é um sistema de contrariedade. 

 

As confidências mútuas, as expansões d'alma despegada do seu invólucro material, o recato austero do traje que ocultava belezas criadas para viver em plena luz e ao ar livre, como as flores do trópico, deviam alhear-me os sentidos. Mas bem longe disso, no fim da nossa conversação remordiam-me as recordações. Meu olhar insinuava-se perfidamente pela abertura do colarinho modesto que cingia uma garganta pura, espreguiçava-se pela seda avara que entufava a marmórea rijeza de um seio comprimido; enleava-se nas pregas fofas que quebravam a harmonia das formas. 

 

Tomei as mãos de Lúcia sorrindo, e meus olhos foram à porta vendada de sua alcova. Ela ergueu-se rapidamente, e disse-me com um modo ríspido: 

— Vou sair! 

 

Era a primeira recusa que eu sofria. 

 

O constrangimento de Lúcia tinha ido sempre em aumento; mas nunca, até ali, o meu desejo encontrara uma resistência; nunca uma desculpa, um pretexto, o contrariara. Ainda pronta para sair, no momento de entrar no carro, já no teatro ou no passeio, bastava uma palavra minha para fazê-la voltar, muda e fria, é verdade, mas obediente e resignada. Em qualquer ocasião, a qualquer hora do dia ou da noite, se meu lábio procurava o seu, achava-o, seco e áspero, mas dócil à carícia. 

 

— A que horas voltas? 

 

— Não sei; é natural que me demore. 

 

— Até à noite, então. 

 

À noite, quando voltei, queixava-se de uma indisposição. Repeliu-me ainda; só abracei um corpo convulso e gelado que me assustou; sobretudo quando, levando as mãos à cabeça, soltou um gemido plangente e doloroso. 

 

Estava realmente doente; respeitei-a. Às nove horas, apesar de minhas instâncias para ficar velando-a na sua enfermidade, obrigou-me a sair, e disse-me adeus sem acrescentar, como tinha de costume: 

 

— Até amanhã. 

 

Era também a primeira vez que a minha presença parecia contrariá-la. De manhã soube que o seu incômodo se agravara durante a noite. Achei instalada em sua casa, como enfermeira, uma tal Sr.ª Jesuína, mulher de cinqüenta anos, seca e já encarquilhada, com quem embirrei solenemente desde o momento em que a vi. Essa insuportável criatura não deixava um momento a borda do leito; e quando alguma vez eu tomava as mãos de Lúcia, ou reclinava-me para ela, quando meus lábios iam roçar a flor de seu rosto, a Sr.ª Jesuína tinha sempre um remédio a dar, um travesseiro a endireitar, uma recomendação a fazer. 

 

Um dia retirando-me, a velha acompanhou-me até a sala; aí no meio de biocos e gatimanhos, deu-me a entender que o médico proibira terminantemente a Lúcia o menor excesso, que lhe podia ser fatal. 

 

— Mas qual é a moléstia de Lúcia? 

 

— Não me recordo; esses nomes de medicina são tão esquisitos! A moléstia agora não vale nada; amanhã está de pé; e num mês pode ficar inteiramente boa. Somente nada de excesso! 

 

A velha carregou na palavra, piscando os olhos pequeninos. 

 

— Pode custar-lhe a vida! acrescentou. 

 

— Qual é o médico que trata dela? 

 

— Um tal... Não me lembro agora. Mas é bom doutor. 

 

— A que horas costuma vir? 

 

— Não tem hora certa. Quando o senhor chegou, tinha saído. 

 

— Onde mora? 

 

— Nem sei! Ele disse; porém já me esqueci! 

 

Desejava falar ao médico para saber com certeza o estado de Lúcia; não o consegui porém. No dia seguinte já encontrei Lúcia na sala, ainda abatida, mas sem sofrimento algum. 

 

Decorreu uma semana. Lúcia tinha-se restabelecido completamente; continuávamos as nossas longas conversas de outrora, mas não a sós. A Sr.ª Jesuina ficara a título de caseira ou dama de companhia; encontrava-a invariavelmente repimpada numa cadeira de balanço, a dois passos de Lúcia, lendo uma coleção de novelas em que brilhavam Zaíra, e os Azares da Fortuna. Se alguma vez Lúcia se levantava, a Sr.ª Jesuína atirava com um movimento da cabeça os óculos de tartaruga sobre a ponta do nariz, e seguia-a para lhe perguntar se queria um refresco, um banho, o jantar, a roupa para sair, ou qualquer outra coisa. 

 

Afinal não me pude ter. 

 

— Já estás boa, Lúcia; não precisas mais de enfermeira. Que faz aqui esta velha? 

 

— Faz-me companhia. Vivo tão só! 

 

— Outrora a minha companhia te bastava. 

 

(continua...)

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