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#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

E seus belos olhos límpidos repousaram no semblante do moço.

— Mas compreendi!

Nesse momento D. Leonor chamou Amélia.


CAPÍTULO  XIX

Quando recobrou-se da surpresa em que tinha ficado, Horácio não achou em si mais do que o desejo veemente e irresistível de possuir o ídolo por tanto tempo sonhado.

— Serão meus! murmurou consigo. Serão meus a todo preço. Se for necessário um escândalo, não hesitarei. Mas Amélia não deve ter-se esquecido de mim já tão depressa; ela me tinha afeição. Vou pedir-lhe perdão de meu engano. Sujeitar-me-ei a todas as condições. Que sacrifícios são bastantes para pagar a felicidade de beijar aqueles dois mimos da natureza!

Instintivamente Horácio seguiu na direção da casa do Sales, com intenção de restabelecer as relações interrompidas. Não sabia ele de que modo se houvesse em tal empenho; fiava da inspiração do momento.

Já não estava o negociante no escritório; nesse dia se retirara mais cedo.

Malograda sua esperança, o leão foi caminhando pela Rua Direita sem direção, como quem não sabe o que fazer. O instinto que no deserto guia o rei dos animais à sebe odorífera onde retouçam as gazelas, o conduzia naturalmente para a Rua do Ouvidor.

Tinha chegado à esquina, quando passou defronte um moço, que seguiu pela calçada Carceler. Horácio acompanhou-o com a vista, querendo nele reconhecer seu amigo Leopoldo que havia cerca de um mês não vira.

Se com efeito o moço era Leopoldo, tinha ele sofrido grande transformação. Em vez do rapaz descuidado no seu traje, brusco em suas maneiras, sempre de cabelos arrepiados e barba revolta, aparecia um cavalheiro de boa presença, com a sóbria elegância que tão bem assenta nos homens sisudos. Essa espécie de elegância é apenas um ligeiro perfume, e não uma incrustação como a que usam os moços à moda.

Com seu fino tato e longa experiência, Horácio, reconhecendo o amigo, adivinhou o segredo daquela súbita metamorfose. Ele sabia que só há um condão capaz de produzir tais encantos: é o olhar da mulher amada e amante.

Ame alguém e não saiba se é retribuído. Toda sua existência se projeta nesse impulso d'alma, que se arroja para outro ser e anseia por nele infundir-se. Vive-se fora de si mesmo, alheio a seu próprio eu; como o peregrino perdido longe da pátria, o homem exilado de sua pessoa erra no espaço, em demanda de um abrigo.

Desde, porém, que o homem tem certeza de ser amado, em vez de expandirse, recolhe-se e concentra-se para saturar-se de felicidade. Já não se alheia e esquece de si; ao contrário, sente-se elevado acima do que era; respeita em sua pessoa o homem amado.

Nessa ocasião é natural a cada um observar-se constantemente e julgar de si com extrema severidade. Surgem aspirações estranhas; o fraco lembra-se de ser um herói; o filósofo inveja a beleza do casquilho; o espírito positivo habituado a voar terra a terra bate o coto das asas para remontar-se ao ideal da poesia.

Não é só no homem que se opera essa metamorfose: mas em toda a natureza. Quando se arreiam os pássaros de sua mais bela plumagem, quando gorjeiam as melodias mais brilhantes, se não é na quadra dos amores?

Vendo Leopoldo parado na calçada Carceler, Horácio dirigiu-se com disfarce para aquela parte, com intenção de travar conversa e esclarecer de todo em todo o mistério. Foi trabalho perdido; o moço acabava de saltar em um tílburi, que rodava já pela Praça de Pedro II.

Desapontado, voltou Horácio sobre os passos.

— Amélia o ama!... Ou pelo menos ele o acredita!

Sorriu-se o leão.

— Que fenômeno curioso produz o despeito na mulher! É uma semelhança da luz reflexa. Irritado pela decepção, humilhado em sua vaidade, o amor da mulher desdenhada refrange como o raio do sol repelido por corpo brilhante e vai impregnar-se em outro homem. Ela cuida sentir por esse plastão uma paixão ardente, que nada mais é do que o ímpeto de seu despeito.

Seria capaz de conceder a esse comparsa o que recusaria à afeição mais terna e extremosa. O assomo do ciúme, supõe ela ser veemência da afeição, e confunde com os extremos de amor o delírio da vingança. Amélia está passando por esta crise naturalmente. Leopoldo foi o plastão; ela o ama com todo o furor do ódio que me tem.

Outro sorriso frisou o lábio do leão.

— Ela me odeia! Ora!... O ódio o que é senão a efervescência do amor? O afeto suave e terno é como o moscatel de Setúbal ou o vinho de Constança. O amor fero e irado é como o champanhe que ferve e espuma.

Chegando à casa, Horácio escreveu a Amélia uma carta, que apenas continha estas palavras:

"Deve estar satisfeita, pois me tem de novo a seus pés, e desta vez humilde e suplicante. A melhor coroa do triunfo é o perdão."

(continua...)

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