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#Romances#Literatura Brasileira

Lucíola

Por José de Alencar (1862)

É a imagem fiel do que nos acontecera. O mundo soprando o seu hálito frio na intimidade de nossa existência não tinha podido separar Lúcia de mim; porém o estame delicado de sua vida desprendeu-se do meu seio, onde ela o escondera e abrigara. A flor mimosa de sua alma talvez sentisse que a sombra das ramas ia faltar-lhe contra os sóis abrasadores, como a proteção do tronco contra os vendavais. E inclinou-se, langue e desfalecida. Eu, que a devia erguer, não o fiz, porque também sentia o mundo que me impelia; as aspirações do futuro me chamavam à vida de estudo e trabalho. 

 

Involuntariamente pois, sem queixas nem recriminações, apenas com uma doce saudade dos tempos que fugiam rápidos, ambos cedíamos a uma lei natural, e víamos afrouxarem os laços que nos uniam. Lúcia, sempre meiga e terna para mim, não podia já esconder a frieza com que recebia o gozo que outrora era a primeira a provocar. Quando as minhas instâncias redobravam, ela, que a princípio se expandia entre o rubor, sorria constrangida como uma escrava submissa ao aceno do senhor. 

 

Eu assistia em silêncio a essa transformação. Algumas vezes tentava ainda soprar naquelas cinzas para ver se ateava uma chama do intenso fogo que lavrara ali; mas esmorecia, porque já o frio me ia invadindo; e só colhia as pálidas rosas que ainda espontavam breves e rápidas como flores de chuva. Contudo, ou por um doce hábito, ou por uma misteriosa influência do passado, preferia a frieza dessa mulher aos transportes de qualquer beleza; guardava-lhe sem sacrifício, como sem intenção, uma fidelidade exemplar. 

 

Não se admire pois se eu lhe disser que já não ia todos os dias à casa de Lúcia, apesar de suas instâncias; contudo sentia que a minha presença ainda lhe era agradável, e que ela a desejava, senão ardentemente, com uma doce emoção. Parecia que o prazer fugindo deixava a amizade calma e serena. 

 

Qual era a existência de Lúcia durante o tempo que não passava em sua casa? Ignorava completamente; tinha até receio de conhecê-la; quando nalgum círculo a conversa caía sobre ela, de ordinário me retirava. Adivinha a razão. Lúcia não tinha compromissos para comigo; devia usar de sua liberdade; se eu lhe havia guardado uma fidelidade espontânea, não tinha por isso direito de exigir retribuição, sobretudo depois que minhas visitas se tornavam mais curtas e menos freqüentes.  

 

Contei-lhe tudo isto a propósito do teatro, onde nos devíamos encontrar. 

 

Lá estava a família do Sr. R... a quem fui cumprimentar apenas caiu o pano. A mãe, absorvida por uma velha titular, que lhe contava maravilhas do teatro S. João, depois de acolher-me com a sua costumada amabilidade, deixou-me à filha, que estava desesperada por achar um cúmplice para a inocente crítica feminina. Não tendo nada que me ocupasse, entretive-me mais tempo do que era natural com essa conversa, que não deixava de ser agradável para quem aprecia como eu a botânica da flor viva, gênero zoófito, que se chama mulher. A menina às vezes debruçava-se para comunicar-me alguma observação mais cáustica; e eu tinha ocasião de sentir um hálito fragrante, e entrever na sombra a marmórea saliência de um seio virgem. 

 

Saindo vi sentada na porta do seu camarote uma das poucas lorettes de Paris, que por um belo dia de inverno, como verdadeiras aves de arribação, batem as asas, atravessam o Atlântico, e vêm espanejar-se ao sol do Brasil nas margens risonhas da mais bela baía do mundo. Ela tinha e tem, com a cor da Espanhola e os cabelos da Italiana, a suprema elegância do passo e da atitude que o solo parisiense inocula pelas plantas de suas filhas prediletas. Admirava e conhecia essa mulher de a ter encontrado algumas vezes, mas as nossas relações não passavam de uma polidez mútua. 

 

Vendo-a, tive como um pressentimento de que essa mulher era a única que poderia apagar a lembrança de Lúcia. Levado por semelhante idéia, e também por esse desejo que temos todos de tocar com o ciúme o ouro de uma afeição, a fim de lhe conhecer o quilate, aproximei-me: 

conversamos alguns instantes. 

 

Não sei se a senhora achará prazer na leitura destas cenas sem colorido, estirado diálogo entre dois atores, raro interrompido pelo mundo, que lhes atira um eco de seus rumores. Já tenho tido vezes de arrependimento depois que comecei estas páginas, que eu podia tornar mais interessantes, se as quisesse dramatizar com sacrifício da verdade: porém mentiria às minhas recordações e à promessa que lhe fiz de exumar do meu coração a imagem de uma mulher.  

 

Fui ver Lúcia. Ela estava pensativa e distraía-se continuamente para fitar o óculo na direção do camarote do R... Nem uma palavra a respeito da francesa, o que me contrariava, como deve supor. 

 

— Ainda há pouco te vi de um camarote! 

 

(continua...)

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