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#Contos#Literatura Brasileira

História de uma lágrima

Por Machado de Assis (1867)

Queria ajoelhar, impedi-a. 

Elisa não se perturbou; tinha no olhar a serenidade da inocência; mas o fogo que lhe ardia nas pupilas era já o fogo da morte. O susto que eu lhe causara apressou a catástrofe. Elisa caiu-me nos braços; removi-a para a cama. À noite tinha dado a alma a Deus. Compreendes o que sofri naquela funesta noite? Duas vezes fui fatal àquela pobre alma: na vida e na morte. Os versos que ela lia eram de Luís, que ela amava, e com quem não pôde casar porque adivinhara que o meu casamento era do gosto do pai. Fui a fatalidade da sua vida. E não menos fatal fui na morte, pois que a apressei quando talvez pudesse viver alguns dias, talvez pouco para ela, muito para o meu amor. 

A dor de perdê-la foi dominada pelo remorso de havê-la sacrificado. Era eu causa involuntária daquele sacrifício tão sereno e tão mudo, sem uma exprobração, nem uma queixa. 

Três anos esteve ela ao pé de mim, sem articular uma queixa, pronta a executar todos os meus desejos, desempenhando aquele papel de mártir que o destino lhe dera. Compreendes que aquela sepultura que ali está perto de mim é a dela. É ali que eu vou pedir-lhe sempre com as minhas orações e as minhas lágrimas um perdão de que preciso. 

E toda esta lúgubre história é a história desta lágrima. 

Isolei-me, procurei na solidão um descanso; tomam-me uns por doido; outros chamam-me excêntrico. Eu sou apenas uma vítima depois de ter sido um algoz, inconsciente é verdade, mas algoz cruel daquela alma que podia ser feliz na terra, e não o foi. Um dia em que ali estava no cemitério vi aparecer um homem vestido de preto, encaminhando-se para a mesma sepultura. Era Luís. Viu-me chorar, compreendeu que eu amava aquela que havia morrido por ele. Diante daquela sepultura a nossa rivalidade fez uma paz solene; trocamos um aperto de mão, depois do que saímos cada um por seu lado para nunca mais nos encontrarmos. 

Luís matou-se. Não podendo achar o deserto na vida, foi buscá-lo na morte. Está ao pé dela no céu; é por isso que eu não vou perturbar lhes a felicidade. 

Dizendo isto o velho curvou a cabeça e meditou. 

Eu saí... 

*** 

Ainda hoje uma ou duas vezes por semana quem for ao cemitério de Catumbi encontrará Daniel rezando ao pé de uma sepultura, cujas letras o tempo apagou, mas que o velho conhece porque ali reside a sua alma. 


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