Por Machado de Assis (1858)
Pois bem. Está vendo toda a corte da Sra. Sofia, todos os seus adoradores.
DURVAL
Todos! Não é possível. Há dois anos a bela senhora. era a flor bafejada por uma legião de zéfiros... Não é possível.
ROSINHA
Parece-me criança! Algum dia os zéfiros foram estacionários? Os zéfiros passam e mais nada. É o símbolo do amor moderno.
DURVAL.
E a flor fica no hastil. Mas as flores duram uma manhã apenas. (severo) Quererás tu dizer que Sofia passou a manhã das flores?
ROSINHA
Ora, isso é loucura. Eu disse isto?
DURVAL
(pondo a bengala junto ao piano)
Parece-me entretanto...
ROSINHA
V. S. tem uma natureza de sensitiva; por outra, toma os recados na escada. Acredite ou não, o que lhe digo é a pura verdade. Não vá pensar que o afirmo assim para conservá-lo junto de mim: estimara mais o contrário.
DURVAL
(sentando-se)
Talvez queiras fazer crer que Sofia é alguma fruta passada, ou jóia esquecida no fundo da gaveta por não estar em moda. Estais enganada. Acabo de vê-la; acho-lhe ainda o mesmo rosto: vinte e oito anos, apenas.
ROSINHA
Acredito.
DURVAL
É ainda a mesma: deliciosa.
ROSINHA
Não sei se ela lhe esconde algum segredo.
DURVAL
Nenhum.
ROSINHA
Pois esconde. Ainda lhe não mostrou a certidão de batismo. (vai sentar-se ao lado oposto)
DURVAL
Rosinha! E depois, que me importa? Ela é ainda aquele querubim do passado. Tem uma cintura... que cintura!
ROSINHA
É verdade. Os meus dedos que o digam!
DURVAL
Hein? E o corado daquelas faces, o alvo daquele colo, o preto daquelas sobrancelhas?
ROSINHA
(levantando-se)
Ilusão! Tudo isso é tabuleta do Desmarais; aquela cabeça passa pelas minhas mãos. É uma beleza de pó de arroz: mais nada.
DURVAL
(levantando-se bruscamente)
Oh! essa agora!
ROSINHA
(à parte)
A pobre senhora está morta!
DURVAL
Mas, que diabo! Não é um caso de me lastimar; não tenho razão disso. O tempo corre para todos, e portanto a mesma onda nos levou a ambos folhagens da mocidade. E depois eu amo aquela engraçada mulher!
ROSINHA
Reciprocidade; ela também o ama.
DURVAL
(com um grande prazer)
Ah!
ROSINHA
Duas vezes chegou à estação do campo para tomar o wagon, mas duas vezes voltou para casa. Temia algum desastre da maldita estrada de ferro!
DURVAL
Que amor! Só recuou diante da estrada de ferro!
ROSINHA
Eu tenho um livro de notas, donde talvez lhe possa tirar provas do amor da Sra. Sofia. É uma lista cronológica e alfabética dos colibris que por aqui têm esvoaçado.
DURVAL
Abre lá isso então!
ROSINHA
(folheando um livro)
Vou procurar.
DURVAL
Tem aí todas as letras?
ROSINHA
Todas. É pouco agradável para V. S.; mas tem todas desde A até o Z.
DURVAL
Desejara saber quem foi a letra K.
ROSINHA
É fácil; algum alemão.
DURVAL
Ah! Ela também cultiva os alemães?
ROSINHA
Durval é a letra D. - Ah! Ei-lo: (lendo) "Durval, quarenta e oito anos de idade..."
DURVAL
Engano! Não tenho mais de quarenta e seis.
ROSINHA
Mas esta nota foi escrita há dois anos.
DURVAL
Razão demais. Se tenho hoje quarenta e seis, há dois tinha quarenta e quatro... é claro!
ROSINHA
Nada. Há dois anos devia ter cinqüenta.
DURVAL
Esta mulher é um logogrifo!
ROSINHA
V. S. chegou a um período em sua vida em que a mocidade começa a voltar; em cada ano, são doze meses de verdura que voltam como andorinhas na primavera.
DURVAL
Já me cheirava a epigrama. Mas vamos adiante com isso.
ROSINHA
(fechando o livro)
Bom! Já sei onde estão as provas. (vai a uma gaveta e tira dela uma carta) Ouça: - "Querida Amélia...
DURVAL
Que é isso?
ROSINHA
Uma carta da ama a uma sua amiga. "Querida Amélia: o Sr. Durval é um homem interessante, rico, amável, manso como um cordeiro, e submisso como o meu Cupido..." (a Durval) Cupido é um cão d'água que ela tem.
DURVAL
(continua...)
ASSIS, Machado de. Hoje avental, amanhã luva. In: ASSIS, Machado de. Teatro de Machado de Assis. São Paulo: Martins Fontes, 2003.