Por José de Alencar (1870)
— Outra prova de que aliás não carecia! Este cabelo é de mulher; não há menina que possa ter. Quatro palmos, além do que se partiu naturalmente! Bem se vê que é uma palmeira frondosa, e não um arbusto! Tem o cabelo castanho e crespo, duas coisas lindas sem dúvida, embora minha paixão seja a trança basta e lisa, negra como uma asa de corvo. Esse negrume dá à mulher o quer que seja de satânico: lembra que ela também gerou se da terra; não é anjo somente; não é somente filha do céu.
— Eu não posso suportar a mulher — serafim, que parece desdenhar do mundo onde vive, e do pó de que é feita.
Horácio voltou a botina.
— Mas seja embora castanha, ou mesmo loura, que é uma cor insípida de cabelo! Que me importa isto? Tenho alguma coisa com seu cabelo? O que amo nela é o pé: este pé silfo, este pé anjo, que me fascina, que me arrebata, que me enlouquece!...
Horácio, que até então se contentava com olhar e apalpar a botina, inclinouse e beijou-a no rosto; mas tímida e respeitosamente. Não era essa a imagem do pé sedutor, que ele adorava como um ídolo?
— Mas onde encontrá-lo? como reconhecê-lo? exclamou dolorosamente Horácio, sentindo a realidade da situação.
Nenhum indício que lhe revelasse o nome da mulher a quem pertencia essa gentil botina, ou lhe indicasse ao menos os traços de sua passagem A lembrança vaga de libré de um lacaio era o único vestígio que restava, mas com este dificilmente poderia descobrir o objeto de sua adoração Há tantos lacaios no Rio de Janeiro; e tantas librés que se confundem! Talvez nunca mais encontrasse aquele que procurava; e encontrando, nem o reconhecesse
— Desgraçado! dizia o leão. Quase nem o olhaste; mas podias tu adivinhar, Horácio, que tesouro deixara cair aquele bruto?
O mancebo inclinara ao peito a bela cabeça esmorecida; a ventura lhe tinha sorrido de longe, para escarnecer dele, o leão mais querido das belezas fluminenses, o Átila do Cassino, o Genserico da Rua do Ouvidor. De repente ergueu-se dum ímpeto:
— Hei de possuí-lo!... exclamou ele com o tom com que Alexandre se prometeu o império da Ásia.
CAPÍTULO III
Ninguém imagina que belos talentos sorve essa voragem do mundo que chamam a vida elegante.
São como as árvores luxuriantes que se vestem de linda folhagem, e consomem toda a seiva nessa gala estéril e efêmera.
Nunca elas dão fruto, nem sequer flor.
Horácio de Almeida era uma de tantas inteligências desperdiçadas no incessante bulício da moda.
Muitos poetas, dos que têm seu nome estampado em rosto de livro não empregaram na fábrica de seus versos o aticismo, a inspiração e a graça com que o nosso leão torneava no baile um galanteio, ou aguçava um epigrama.
Pintores são festejados, que não sabem o segredo dos toques delicados, e do supremo gosto, que Horácio imprimia no laço de sua gravata, em suas maneiras distintas, nos mínimos acidentes de seu traje apurado.
E a fisiologia?
Poucos homens conheciam como Horácio o coração da mulher; porque bem raros o teriam estudado com tanta assiduidade.
O mais sábio professor ficaria estupefato da lucidez admirável, com que o leão costumava ler nesse caos da paixão, que a anatomia chamou coração de mulher.
A razão é simples. O professor estudou no gabinete; consultou as obras dos mestres, coligiu observações alheias, e arranjou um sistema sobre o que não sofre regras: sobre a paixão cuja essência é o imprevisto, o anômalo, o indefinível.
Ao contrário, Horácio tinha estudado na realidade da vida; devassara os refolhos do pólipo, lhe sentira as pulsações, e fizera experiências in anima Vili. Não fatigou sua memória com a inútil bagagem dos termos técnicos e das noções científicas: lia os hieróglifos do amor com a linguagem garrida do homem da moda.
A perspicácia do olhar, a profundeza da investigação e a certeza de observação, com que o nosso leão sondava o abismo do coração e rastreava no semblante da mulher os vagos sintomas de uma inclinação nascente, ou de uma afeição expirante, só os grandes médicos possuem tão altos dotes.
Assim gastava Almeida a mocidade, desfolhando seu belo talento pelas salas e pontos de reunião. As riquezas de sua elevada inteligência, as ia ele esparzindo nas elegantes futilidades de um ócio tão laborioso, como é o farniente de um leão.
Consumir o tempo não se apercebendo de sua passagem; livrar-se do fardo pesado das horas sem ocupação; há nada mais difícil para o homem que ignora o trabalho?
Se o Almeida poupasse desse tempo tão esperdiçado alguns momentos no dia para dedicá-los a um fim sério e útil, à ciência, à literatura, à arte, que belos triunfos não obteria sua rica imaginação servida por um espírito cintilante? Mas o nosso leão tinha a este respeito idéias excêntricas.
(continua...)
ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16673 . Acesso em: 8 jan. 2026.