Por Joaquim Manuel de Macedo (1860)
Anastácio — E com os três contos que restam dos cinco que ganhas, e vestes com o luxo que vejo a tua família, pagas criados franceses que olham com desprezo para quem traz botas à mineira, e tens salas como esta, mármores, ricas mobílias, e esta grandeza toda?...Maurício!...
Hortênsia — Que quer dizer, meu mano?
Anastácio — Eu não quero dizer nada: o adágio antigo é que diz uma coisa muito feia, porém muito verdadeira.
Leonina — Ora, pois meu padrinho há pouco ralhava comigo, e agora já está ralhando com meu pai. (Levanta-se e senta ao pé do padrinho).
Anastácio — E que tem você que ver com isto?...destas despesas loucas e superiores aos recursos de quem as faz, transpira uma prova de demência ou de imoralidade. Quem despende mais do que ganha, ou cai na miséria ou no crime...quem...tá...tá...tá...que tenho eu de meter-me com a vida alheia?...Maurício, como está Felisberto?...
Maurício (Confuso) — Felisberto...
Hortênsia (Confusa) — Felisberto...
Anastácio — Sim...Felisberto, vocês hesitam? Acaso terá morrido?
Leonina — Minha mãe, quem é esse Felisberto?...
Anastácio — Quem é esse?... é teu tio, o irmão de teu pai, o cunhado de tua mãe, é meu irmão; um homem honrado e laborioso, e um mestre marceneiro da primeira ordem.
Leonina — Marceneiro!...pois isto é verdade, minha mãe? (Vai sentar-se ao fundo muito triste).
Hortênsia (À parte) — Antes nunca tivesse voltado à corte este velho doido.
Maurício (Levanta-se) — Meu mano...a alta sociedade que freqüentamos...as nobres relações que temos...certo pundonor...os prejuízos talvez....Têm feito com que...a pesar nosso...
Anastácio — Tu gaguejas?...estás engasgado com alguma indignidade?
Maurício — Não...nós estimamos sempre muito a Felisberto; mas um simples marceneiro...podia ser encontrado aqui por fidalgos, titulares, grandes personagens enfim, que nos honram com a sua amizade; e por isso...e por um vexame muito natural...
Anastácio — Fechaste a porta a nosso irmão?...Que miséria!...como deve estar corrompida esta sociedade em que há quem se lembre de quebrar os sagrados laços do sangue e de voltar o rosto a um irmão, só porque ele é um simples artífice! Que sociedade é esta tão estúpida, que não sabe repelir de seu seio esses Cains da vaidade, como Deus repeliu o Caim da inveja!...(A Maurício e batendo com o pé no chão) Caim!...Caim!...
Maurício — Anastácio!...
Anastácio — Fidalgo improvisado! O teu castigo é a voz da verdade que soa em tua consciência; e onde quer que vás, onde quer que estejas, eu, eu, que não renego nem o meu passado, nem os meus parentes; eu, enquanto vivo for, bradarei aos teus ouvidos: lembra-te, meu fidalgo, que nosso pai foi um nobre ferreiro, que durante sessenta anos se chamuscou na forja e bateu na bigorna! Teve por título de nobreza a sua imaculada probidade, e por glória o seu trabalho e a educação da virtude que soube dar a seus filhos; foi deveras um nobre ferreiro, e é pena somente que deixasse um filho doido!
Maurício — Oh! é muito!
Hortênsia — Meu mano, as coisas aqui na corte não se passam como lá na roça; aqui há certas prevenções...certas considerações...
Anastácio — Engana-se, minha senhora: lá na roça, como aqui na corte, os tolos de ambos os sexos abundam do mesmo modo.
Hortênsia — Senhor...é quase um insulto!
Anastácio — Tire-lhe o quase e seja um insulto completo; desagrado-lhes, não é assim?...pois fiquem-se com a sua fidalguia que eu vou direto para casa do marceneiro.(Indo-se)
Hortênsia — Não...não...é impossível que briguemos: não há de deixar-nos assim.
Anastácio — Nesse caso terão de ouvir-me, e aturar-me.
Hortênsia — Diga o que quiser, já lhe conhecêssemos o gênio; mas não faça injustiças: temos uma filha que desejamos casar bem; e é provável que se viesse a saber que é sobrinha de um marceneiro, não pudéssemos arranjar-lhe um noivo de família nobre.
Anastácio — É a honra que enobrece o homem; e eu juro que não há homem mais honrado do que meu irmão marceneiro: pode bem sentar-se a par do melhor dos seus barões.
Hortênsia — E se o barão fugisse do seu lado?
Anastácio — Provavelmente o faria envergonhado, por dever-lhe ainda a mobília da sala.
Maurício (À parte) — E ele tem razão...eu sou um miserável!
Leonina (À parte) — Marceneiro!...estou definitivamente desacreditada!... Hortênsia — Deixe estar, mano, que havemos de fazê-lo chegar à razão. No dia dos anos de Leonina vamos dar um baile, e por sinal que será de máscaras, para aproveitarmos a coincidência da segunda-feira do Carnaval; hoje mesmo receberemos visitas, e o mano há de ufanar-se de ver a brilhante sociedade com que nos achamos relacionados.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Luxo e vaidade: comédia em um ato. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1860. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1666 . Acesso em: 3 jan. 2026.