Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF



Compartilhar Reportar
#Comédias#Literatura Brasileira

Antonica da Silva

Por Joaquim Manuel de Macedo (1880)

JOANA – Já sei o que ela é... uma inimiga nossa! (Admiração de Brites) Eu te explicarei. Olha: teu pai voltará muito tarde... o demônio de saia diz que tem medo de dormir sozinha... Vamos divertir-nos esta noite? mas, acabada a função, vocês duas vão dormir e não se importem comigo. Tenho que fazer cá embaixo. Entendes?

BRITES – Eu julgava a Antonica tão boa! Inês está doida por ela...

JOANA – Inês vai ficar como uma cobrinha assanhada. Apaguemos estas luzes; basta deixar uma, (Apagam) É verdade! a roupa que serviu a teu irmão naquela dança que houve no ano em que ele foi para Coimbra, estava no baú grande...

BRITES – E está.

JOANA – Vai ver se a harpia acaba enfim de comer, (Brites sai) Pois não, senhora Antonica da Silva!... já lhe aprontei a cama, veremos se a acha macia.

Cena IX

Joana, Inês, Brites e Benjamim.

BENJAMIM – Donzela infeliz; mas aqui tratada como filha, peço licença para beijar a mão protetora da senhora e as mãozinhas destas duas angélicas meninas,

JOANA – Oh, não! a senhora merece mais; agora faça as suas orações e durma,

BENJAMIM – Eu sozinha nesta sala tão grande!... ah!... acaso já morreu alguma pessoa aqui?

JOANA – Tem medo de almas do outro mundo?... esta casa pertence-nos há vinte anos, e ainda ninguém nos morreu nela.

BENJAMIM— Valha-me esta consolação.

JOANA – E verdade que o seu primeiro proprietário, que era muito avarento, e o filho dele que foi juiz almotacel , homem mau, que fez a infelicidade de muitas moças, morreram aqui; mas... ora... foi há tanto tempo!

BENJAMIM – Ai! ai! tenho tanto medo de dormir sozinha!...

JOANA – Fique sossegada: Boa noite! andem meninas!

BRITES – Boa noite! (Seguindo adiante).

INÊS – Eu queria que a senhora dormisse comigo, mas meu pai não quis, Boa noite! BENJAMIM (Suspirando) – Boa noite. (Joana segue as filhas).


Cena X

Benjamim.


BENJAMIM – Afotunado bofetão dei no capitão-mor! mas que perigos para a minha inocência aqui! sem a menor duvida sou bonito rapaz, se o não fosse o meu disfarce já teria sido descoberto e a gralha ficaria sem estas penas de pavão (Mostrando os vestidos). Que será de mim amanhã?... que ladrões de olhos tem a Inês!... qual! o velho não me entrega preso! e a mãozinha de cetim... e que rosto! ora, eu não quero mais ser frade (Sentase na cama) E agora?... a coisa não está em despir-me; mas amanhã?... camisa... anágua... seios postiços... o lencinho.. . nada: vou dormir vestido. (Deita-se) Ainda tenho no nariz o cheiro suave... (Levanta-se) E que durma um pobre pecador com um cheiro assim no nariz!... é preciso distrair-me... (Canta)


— Lá em Macacu eu era sacristão,

Tocava o sino din-delin-din-din...

É tal qual!

O capitão-mor por simples bofetão

Em fuga pôs-me, como malandrim

E eis-me afinal

Fingindo moça; mas rapaz no intento

Amando Inês, e pelo pensamento

Em pecado mortal.

Velas de cera, o resto da galheta,

Espórtulas , caídas tinha eu:

É tal e qual!

Fechada a igreja e ao toque da sineta

Súcia me fecit, todo dia meu,

E eis-me afinal

Fingindo moça; mas rapaz no intento,

Amando Inês, e pelo pensamento

Em pecado mortal.

Valha-me Santo Antônio! se eu pudesse dormir (Senta na cama).


Cena XI

Benjamim e Joana que envolvida em imensa mortal/ia negra, vem a passas vagarosos.


JOANA (Dentro) – Meu dinheiro! meu dinheiro!...

BENJAMIM – Que é lá?... eu não creio em almas do outro mundo... (Em pé: Joana entra) Oh!... oi... (na cama e cobre-se).

JOANA (Canto lúgubre.) –

O catre é meu;

Nele morri:

No travesseiro

(Benjamim treme aterrado e fala durante o canto)

Ouro escondi:

BENJAMIM – Vade retro, retro, vade retro! abrenuntio! uh!... uh!... uh!... (A tremer)

JOANA – Quero o meu ouro...

Eu voltarei.

Se não m’o deres

(Empurra a cama e depois mete-se em baixo)

Te matarei

BENJAMIM – Cre... do... credo... vade retro... per signum... libera nos... per signum... (Ao empurrar Joana a cama) Santo Antônio... me valha! (Silêncio) Libera nos (Silêncio) Creio... que estou livre... (Levanta o lençol aos poucos) Oh! (Em pé e espantado) Nunca vi almas do outro mundo no cemitério de Macacu... não acreditava... mas esta é a do avarento!... se me deitei sem fazer oração... (Ajoelha-se e reza).


Cena XII

Benjamim e Brites, envolvida em mortalha branca.


BRITES (Dentro) – Ai!...

BENJAMIM (Corre para a cama a tremer) – Outra!... Misericórdia!

BRITES (Canto pungente) – O almotacé defunto...

Aqui de noite vaga...

E a vítima que apanha...

Em frio abraço esmaga!

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...23456...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →